terça-feira, 5 de junho de 2018

E agora Goldfajn?


O exemplar economista chefe e ex-sócio do banco Itaú, Ilan Goldfajn, foi recebido com enorme satisfação no mercado para exercer o cargo de presidente do Banco Central do Brasil em 2016. Juntamente com Henrique Meirelles (este, por sinal, se mostrou eficaz apenas ao acertar o timing para saltar do barco antes do naufrágio), Goldfajn é considerado uma figura de peso na equipe econômica do governo Temer.

Em alguns momentos, o mercado chegou até mesmo considerar essa equipe econômica como uma espécie de time dos sonhos. Profissionais com viés ortodoxo, de elevada reputação, assumindo cargos que poderiam mudar o rumo (para melhor) do nosso país. Infelizmente, muito se discutiu nestes dois anos e pouco foi feito para melhorar as condições macroeconômicas.

O fiscal piorou significativamente, o crescimento pujante não veio, o desemprego se manteve elevado, os gargalos do passado não foram tampados (pelo contrário) e o clima de pessimismo continuou prevalecendo. Sobrou apenas a queda da inflação para algo injustificadamente digno de nota. Um governo que celebra queda da inflação num cenário de baixo crescimento (seguido de um forte período recessivo) com desemprego em máxima histórica, está totalmente perdido ou no mínimo sem discurso.

Foi perfeitamente possível desconfiar de que algo estava errado há bastante tempo, mais especificamente quando o governo liberou o saque de contas inativas do FGTS (uma medida claramente desesperadora para criar impulso artificial do crescimento via aumento do consumo) e, também, no mesmo período, quando o ciclo de corte na taxa Selic passou a ser realizado com mais intensidade.

Meirelles não está mais na Fazenda para explicar o que deu errado no PIB e nas contas públicas, pois está se preparando para concorrer à presidência (argumento provocador de fortes gargalhadas), Parente não está mais na Petrobras para recuperar o balanço/credibilidade da companhia (duramente afetado por medidas inacreditáveis do passado), sobrou Ilan Goldfajn para justificar porque o câmbio voltou para perto de R$ 4,00 e a taxa de juros futuros está pagando quase o dobro da taxa básica de juros.

Aos holofotes, a culpa sempre será dos investidores estrangeiros que entram e saem do país quando querem, dos impactos das decisões de governos e instituições de outros países e do próprio mercado (que deixou de ser um queridinho para se tornar numa espécie de vilão especulador). Na realidade a responsabilidade é toda nossa. É bastante simples de entender, pois este é um filme repetido várias vezes no passado. Nós brincamos com fogo, mais uma vez, e estamos sofrendo os efeitos colaterais.

Temos o vício de utilizar como referência economias avançadas, onde as taxas de juros são mais baixas/civilizadas, para tentarmos algo semelhante, obviamente pelo caminho mais fácil (ou seja, da pura e simples canetada). Até alguns meses atrás, o mercado fazia vista grossa frente à deterioração dos nossos fundamentos, o Banco Central fingia que estava tudo bem e prosseguia com seus cortes agressivos na taxa Selic, o que parecia ser uma última e angustiosa cartada para impulsionar o crescimento.

Isso nunca deu certo. A agressividade nos cortes da taxa básica de juros não foi acompanhada pela melhoria dos fundamentos domésticos, o que provocou grande descompasso no nosso prêmio de risco.

A partir do momento em que o investidor estrangeiro não enxergou viabilidade para trocar dólar por real a 3,20 e comprar LFT de 6,50% ao ano, as coisas passaram a ficar bem feias para o nosso lado. Assim que o dólar começou a subir, o Banco Central anunciou intervenção para “suavizar os movimentos” no mercado de câmbio. Sentindo a fúria de um mercado impaciente, depois deste primeiro e fatídico anúncio de intervenção, o câmbio ficou ainda mais violento e a autoridade monetária se perdeu nos swaps.

Justificadamente, os contratos de juros futuros explodiram. O Tesouro Nacional bem que tentou fazer uma força-tarefa juntamente com o Banco Central através de intervenções no mercado da dívida soberana. O Tesouro vem recomprando alguns milhões de papéis na tentativa de frear o avanço das taxas de juros futuros, também sem sucesso, ao menos por enquanto.

Intervenções em momentos de fúria no mercado são como atear gasolina subsidiada ao fogo (nesta parte somos experts, tanto para criar subsídio, quanto para fazer fogo). Custa caro e só piora a situação. Apesar de conseguir criar força compradora artificial, as intervenções também transmitem sensação de desespero do governo, o que pode retroalimentar o clima de pânico no mercado.

A taxa do contrato de juros futuros com vencimento em 10 anos fechou o pregão desta terça-feira aos 12,48% ao ano, abrindo enorme diferença sobre a desacreditada taxa básica de juros de 6,50% ao ano. São praticamente 6 pontos percentuais de diferença, algo extraordinário na nossa história recente.

Nem mesmo na altamente criticada gestão Tombini houve uma diferença tão significativa entre a taxa básica de juros e o contrato de juros futuros de 10 anos. Um duro golpe à Goldfajn e o que restou da equipe econômica.

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10 comentários:

  1. Populista é uma desgraça mesmo, foi só as coisas aparentemente começarem a melhorar que todo mundo larga qualquer medida mais "rigorosa" e fica tudo as mil maravilhas.

    Em 2019 a primeira medida urgente vai ser rever a regra de ouro e os políticos agem como se estivesse tudo uma mil maravilhas. Nem a reforma da previdência vai ajudar muito, pois ela é mais de médio/longo prazo.

    E além de tudo isso, nós ainda temos que rezar para o mercado externo não azedar de vez, pois senão ai mesmo que nós vamos para o buraco e não saímos mais.

    E com essa encurta cada vez maior dos spreads entre as treasurys de 10y e 2y a tendência é bastante desfavorável ao Brasil.

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    1. Também acho que a regra de ouro será revista. Mesmo quando as projeções de crescimento estavam um pouco maior, ainda havia risco de ter de mudar a regra de ouro. Agora, com perspectiva de crescimento menor, a regra de ouro pode ser rebaixada para regra de bronze rs..

      Abs,

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  2. Hahaha. Primeiro, a gente tira a Dilma... Fracasso total dos experts do mercado.

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  3. "Já que minha popularidade esta baixa vou aproveitar e fazer as reformas necessárias".

    Lixo.

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  4. Sabe aquele sujeito que está endividado e gasta a metade do salário pagando juros é rolando dívida? Somos nós. Desanima ser brasileiro.

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    1. Sim, e já passou da metade do salário. Agora está em 75% do "salário" comprometido com endividamento.

      Abs,

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  5. Bom dia, FI! Grato pelo trabalho.

    O "fenômeno" de endividamento público e privado no pós-subprime apresenta uma rota obscura para a economia mundial:

    https://www.msn.com/pt-br/dinheiro/economia-e-negocios/bomba-da-dívida-mundial-ameaça-explodir/ar-AAyvkM8

    Na próxima crise sistêmica como os "alquimistas" aplicarão o princípio da troca equivalente!? A liquidez da carteira nos próximos anos me parece fundamental.

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    1. Anônimo 12:08,

      Há muito tempo não lia um texto tão bom, não muito longo, muito bem explicado e relativamente simples de entender. Sensacional este artigo, concordo em vários pontos. Muito obrigado por compartilhar. Estou de acordo sobre a liquidez, considero essencial possuir certa quantia em caixa na carteira entre o final desta década e o início da próxima. O subprime deu origem a uma década (atual) sem precedentes na história. A próxima tende a ser algo bem diferente da atual, longe da normalidade.

      Abs,

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  6. Outro artigo interessante:

    https://br.investing.com/analysis/sardinhas-tubaroes-e-elucubracoes-200221255

    A luta pelo poder na geopolítica mundial está intrinsecamente relacionada ao mercado financeiro:

    1. Após a primeira guerra mundial ocorreu a quebra do padrão ouro-libra.

    2. Sob os espólios da segunda guerra mundial convenciona-se o tratado de Bretton Woods e surge o padrão ouro-dólar.

    3. No ano de 1971 os EUA, unilateralmente, aboliram a conversabilidade do dólar em ouro e aniquilaram desta forma o padrão-ouro, instaurando o sistema flutuante.

    Então, ao considerarmos que o FED apresenta aspectos de natureza pública e privada (bancos privados) e sofre o lobby dos mesmos seguimos em um jogo de pôquer com as cartas marcadas. Nas crises sistêmicas as riquezas mudam de mãos ou, simplesemnte, asseveram as riquezas dos mais ricos!? Segundo estudo realizado pela Oxfam baseado em dados (2015) do Credit Suisse: "A riqueza acumulada pelo 1% mais abastado da população mundial agora equivale, pela primeira vez, à riqueza dos 99% restantes."

    Winter is coming!

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