terça-feira, 17 de julho de 2018

Incertezas macro não tiram o sono de Jerome Powell


Durante sabatina ao Comitê Bancário do Senado dos Estados Unidos, o presidente do FED (Federal Reserve), Jerome Powell, adotou um tom mais otimista e traçou um cenário de poucas dúvidas sobre a trajetória de longo prazo para a economia norte-americana.

Powell foi fuzilado em vários temas polêmicos, como os impactos de uma guerra comercial, aceleração da inflação em torno da meta de 2% a ser perseguida pelo FED, achatamento na curva de juros futuros norte-americana, pacote tributário (aprovado ano passado), entre outros.

Nenhuma dessas variáveis parece estar tirando o sono de Jerome Powell. O presidente do FED afirmou que, em seu cenário base, a economia norte-americana está a caminho de vários anos de mercado de trabalho forte com inflação ancorada na meta de 2%.

Powell minimizou a guerra comercial, tema em forte discussão no mercado financeiro global, se limitando a dizer que deve avaliar o impacto das tarifas comerciais impostas pelo governo Donald Trump quando, de fato (e se), a economia for afetada pelo protecionismo. A postura de Powell pode sinalizar brecha para os Estados Unidos se defenderem elevando tarifas em alguns produtos-táticos, sem causar impacto significativo na economia ou no próprio saldo da balança comercial. Ou seja, pode-se esperar uma redução do déficit na balança, mas, a princípio, nada muito relevante.

Sobre a inflação, ponto chave para a estratégia de política monetária, Powell disse que ainda não é possível declarar vitória sobre o alcance da meta de 2%. O núcleo de inflação (índice de preço preferido pelo FED) alcançou a meta de 2% recentemente no mês de maio, entretanto, o presidente do FED não demonstrou tanta confiança no processo de aceleração da inflação.

Na avaliação do presidente do FED, a inflação subiu nos últimos meses influenciada pela alta mais agressiva nos preços de energia, que por sinal já começaram movimento de correção. Para ser possível declarar cumprimento da meta de inflação, Powell disse que o núcleo deve continuar exatamente em torno de 2% nos próximos meses.

Caso a correção nos preços de energia se materialize nos próximos meses, a inflação poderá apresentar leve recuo abaixo da meta, permitindo ampla manutenção do viés dovish na autoridade monetária norte-americana. Powell se mostrou confiante sobre a manutenção da inflação ancorada na meta de 2%, ao mesmo tempo em que a economia roda ao pleno emprego. Esse cenário cenário-base, na visão dele, pode perdurar por vários anos.

Indagado sobre o achatamento nas Treasurys, o presidente do FED se limitou a dizer que o movimento recente nas taxas de juros não o incomoda. É possível que Powell tenha identificado pressão maior para o fechamento das curvas nos próximos meses, ao invés de enxergar pressão para as curvas voltarem a abrir.

Importante ressaltar que o próprio discurso em tom otimista do presidente do FED é uma variável de influência importante não somente para que a ponta longa continue fechada, seguindo o movimento das últimas semanas, como para que a ponta curta pare de abrir e comece a fechar também.

Por fim, a quase pouco comentada estratégia de desalavancagem do balanço-monstro do FED, já em curso, está funcionando muito bem e sem problemas, na avaliação de Powell. Neste ponto o presidente do FED está com certa razão, até porque a redução da exposição em Treausrys e títulos lastreados em hipotecas tem sido muito pequena até o momento.

Aliás, enquanto a inflação permanecer ancorada na meta de 2%, Powell continuará com a razão na mão. Sem pressa para subir os juros (mantendo o ritmo de aperto em conta-gotas muito gradualista) e sem pressa para reduzir o balanço, talvez até mesmo o mercado continue na mão do FED por mais algum tempo.

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segunda-feira, 16 de julho de 2018

Fim da farra nas commodities


Sumidos do mercados de ações, bonds e moedas, os ursos estão mais concentrados, recentemente, no mercado de commodities. O call macro para abertura de posições vendidas começou no mês passado quando os países membros da Opep e a Rússia concordaram em aumentar a produção de petróleo.

A produção estava artificialmente reduzida há mais de um ano, quando os maiores produtores de petróleo do mundo entraram em acordo para forçar o aumento do preço do barril. O esforço no corte de produção funcionou e foi potencializado pela redução mais pesada na produção da Venezuela, Líbia e Angola (por motivos políticos e econômicos locais).

O cenário ficou propício para uma alta significativa no preço do barril de petróleo. O barril do tipo Light, negociado nos Estados Unidos, saiu de 42,05 dólares em junho do ano passado para uma máxima de 75,27 dólares neste ano. O barril do tipo Brent, negociado no Reino Unido, saiu de 44,35 dólares para uma máxima de 79,56 neste ano.

  
A arrancada no preço do barril de petróleo beneficiou os grandes países exportadores, mas também criou desgaste no ambiente macro global, especialmente com os Estados Unidos. Os norte-americanos pressionavam por um aumento de produção na Opep, acusando a Organização de manter preços artificialmente altos.

A Arábia Saudita, aliada dos Estados Unidos e uma das maiores produtoras de petróleo, já estava “convencida” a aumentar a produção. Havia um impasse apenas com o Irã, que foi vencido na reunião do mês passado. Desde o início deste mês, os países membros da Opep estão autorizados a produzir mais um milhão de barris de petróleo por dia, o que equivale a 1% da produção mundial.

Além disso, surgiram relatos de que a Arábia Saudita estaria oferecendo petróleo extra a alguns países na Ásia, aumentando a percepção de um possível aumento brusco no nível de oferta de petróleo no mercado, que até alguns meses atrás operava com déficit de oferta.

Outro destaque está no fortalecimento do presidente russo, Vladimir Putin, no cenário geopolítico. Putin aproveitou a copa do mundo para se encontrar com o príncipe saudita Mohammed Bin Salman, onde possivelmente articulou estratégias para calibrar a oferta de petróleo no mercado, atendendo desejos de várias lideranças políticas mundiais, incluindo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Ao assumir o papel de articuladora para o recente aumento da oferta de petróleo, a Rússia tenta retomar espaço, credibilidade e poder de influência, principalmente no mundo ocidental, onde a imagem estava mais desgastada.

Um forte gesto de retribuição foi emitido hoje por Donald Trump, ao afirmar que não vê motivo para acreditar mais em suas próprias agências de inteligência sobre uma suposta interferência da Rússia nas eleições presidenciais norte-americanas.

Putin e Trump se reuniram hoje em Helsinque, na Finlândia. Os dois líderes sinalizaram que podem trabalhar em conjunto para regular os mercados de petróleo e gás, reforçando o desejo das duas potências para redução dos preços do petróleo.

O gesto inesperado entre os dois líderes aumentou ainda mais a pressão vendedora sobre o barril de petróleo. Somente nesta segunda-feira, tanto o barril do Light, quanto o do Brent, tombaram mais de 4%.

A queda brusca no barril de petróleo está criando pânico no mercado de commodities e arrastando outras matérias-primas para baixo. O índice CRB Jefferies Reuters, uma das principais referências no segmento de commodities, perdeu a média móvel simples de 200 períodos diária.


A perda de uma importante média acompanhada por vários gestores e traders globais ratifica o cenário de mercado bearish para as commodities já constatado algumas semanas atrás através da perda de um importante canal de alta, com clássico movimento de pullback (círculo preto) no mesmo ponto da formação de um topo descendente dentro de um canal de baixa criado recentemente.

Com o movimento desta semana, o índice CRB detona mais um pivot de baixa com ausência de regiões de suporte relevante. Apesar de Putin já ter expressado conforto com o preço do barril do Brent em 60,00 dólares é impossível, neste momento, estimar ponto de equilíbrio no mercado de commodities.

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sexta-feira, 13 de julho de 2018

Por que o mercado não reagiu ao achatamento das Treasurys?


À primeira vista, o achatamento da curva de juros futuros norte-americano poderia estar, neste momento, emitindo um sinal de alerta. Players de mercado estão sempre de olho no spread da Treasury de 2 anos com a Treasury de 10 anos, pois todas as recessões ocorridas desde 1960 nos Estados Unidos foram precedidas por inversão/achatamento na curva dos juros futuros, ou seja, taxa de juros de 2 anos maior do que a taxa de juros de 10 anos.

O fato de o mercado exigir prêmio mais alto para emprestar dinheiro ao Tesouro norte-americano num prazo de 2 anos, ao mesmo tempo em que exige prêmio mais baixo para emprestar dinheiro ao Tesouro norte-americano num prazo de 10 anos, é um forte sinal de que as perspectivas para o cenário de curto prazo estão muito ruins. Ao exigir mais prêmio no título da ponta curta, o mercado pode estar projetando uma deterioração nos fundamentos macroeconômicos ou mesmo uma fase de recessão na economia.

A inversão da curva ainda não ocorreu. Isso significa que a Treasury de 2 anos está pagando juros inferior à Treasury de 10 anos. Entretanto, a diferença de prêmio entre os dois títulos do Tesouro norte-americano caiu para apenas 0,24 pontos percentuais nesta sexta-feira, registrando o menor spread em mais de uma década.

O spread entre a Treasury de 2 anos com a Treasury de 10 anos já foi mais de 2 pontos percentuais em 2014, ou seja, no passado não tão distante, a Treasury de 2 anos pagava cerca de 2 pontos percentuais a menos que a Treasury de 10 anos.


O gráfico acima revela a força do deslocamento da taxa de juros da Treasury de 2 anos (linha preta) versus taxa de juros da Treasury de 10 anos (linha pontilhada). Apesar de ambas as curvas estarem abertas, a Treasury de 2 anos atacou com mais força, chegando ultrapassar a intensidade do movimento observado na Treasury de 10 anos.

Ao contrário do que se esperava, a redução do spread para apenas 0,24 pontos percentuais não afetou o mercado. Pelo contrário, o clima de otimismo observado nas principais praças financeiras mundiais voltou a melhorar, relembrando o início pujante de 2018.

Utilizando o mesmo gráfico, porém com zoom, para focar no movimento de curto prazo, é possível entender porque o mercado não está preocupado com a redução do spread entre as Treasurys.


O ponto central continua sobre a intensidade do movimento. A Treasury de 2 anos, que vinha numa forte e preocupante arrancada, ao menos parou de abrir e está lateralizada desde o mês de maio deste ano (círculo verde). Isso significa que o mercado paga hoje praticamente o mesmo prêmio que pagava em maio para comprar Treasury de 2 anos.

Já a Treasury de 10 anos (reta azul) está fechada a curto prazo. Após registrar pico em 3,11% no mês de maio, a taxa da Treasury de 10 anos não somente parou de subir como voltou a cair, hoje sendo negociada aos 2,83%.

Portanto, apesar de o spread ter recuado para apenas 0,24 pontos percentuais, o mercado enxerga como positivo o fato de a Treasury de 2 anos ter parado de subir, hoje estagnada. Além disso, pode-se notar que a redução do spread observada desde maio ocorreu totalmente em função do fechamento da Treasury de 10 anos, hoje negociada num patamar ligeiramente inferior ao nível de longo prazo da FFR (Federal Funds Rate).

O fechamento da Treasury de 10 anos pode ser explicado pela calmaria de momento natural na política monetária do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), onde a comunicação muito antecipada, juntamente com uma abordagem gradualista, sem surpresas de percurso, tem evitado prolongação dos ciclos de tensão/volatilidade nos juros futuros locais.

Além disso, joga a favor a avaliação de Wall Street (explicada no último post) sobre a guerra comercial de Donald Trump, muito diferente do que se comenta pela imprensa. O ambiente positivo de Wall Street já contaminou grande parte das praças financeiras mundiais.

Nikkei, no Japão, fechou a semana em forte alta, recuperando quase toda a perda registrada no mês passado. Na China, a bolsa de Xangai saiu de 2.700 pontos registrados na semana anterior para fechar esta sexta-feira aos 2.831 pontos. A bolsa de Bombay, na Índia, alcançou nova máxima em 2018 e renovou recorde. Rússia fechou em alta pela quarta semana consecutiva, retomando patamar de preço registrado no mês de maio. México opera em forte rali no curto prazo, saindo de 185 pontos para 207 pontos nesta sexta-feira, mesmo com vitória nas eleições presidenciais de um candidato de esquerda.

No Brasil, o Ibovespa fechou em alta pela terceira semana consecutiva, na máxima do mês de julho, acompanhando a dinâmica observada em várias outras bolsas de valores mundo afora. Nos Estados Unidos, o índice S&P500 inicia rompimento dos 2.800 pontos, fechando em forte alta pela segunda semana consecutiva. Nasdaq está fazendo seu show à parte, renovando máxima do ano e alcançando mais um recorde histórico. Os touros estão de volta, ao menos por enquanto.

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terça-feira, 10 de julho de 2018

Wall Street compra guerra comercial de Donald Trump


Há algumas semanas o noticiário macro global é dominado pelo notório desgaste comercial entre Estados Unidos e China. As ameaças de Donald Trump de implementação de tarifas de importação estão começando a sair do papel, com elevado potencial de impacto em diversas economias, principalmente na China.

As retaliações, principalmente por parte dos chineses (as mais esperadas), por enquanto são consideradas modestas, o que tem deixado players de mercado menos pessimistas ou até mesmo otimistas. A paciência dos chineses será testada novamente com a possibilidade de surgimento de uma nova lista negra norte-americana de imposição de tarifas sobre 200 bilhões de dólares em produtos made in China.

Enquanto as retaliações continuarem modestas ou desproporcionais ao calibre da artilharia protecionista de Donald Trump, é possível entender que o momento atual, apesar de extremamente delicado, ainda possa ser encarado como uma disputa comercial caliente, mas não ao ponto de alcançar o status de uma guerra comercial total.

Curioso, mas não tanto, notar que Wall Street não se abalou com o acirramento comercial de Donald Trump com o resto do mundo. Pelo contrário, o ambiente no mercado norte-americano é consideravelmente positivo. O índice S&P500 continua se apoiando acima da média móvel simples de 200 períodos diária, formando fundos ascendentes desde o mês de abril/2018, já iniciando teste sobre a principal linha de resistência, localizada aos 2.800 pontos.


A recuperação do S&P500 está limpando posições vendidas em aberto na praça, o que pode aumentar a chance de rompimento ascendente da importante linha de resistência nos próximos dias/semanas. Este cenário reforçaria ainda mais o status de um mercado norte-americano comprador, ao menos a curto prazo, em pleno acirramento da disputa comercial, onde grande parte dos analistas consideram prejudicial aos negócios e a economia.

As Treasurys da ponta longa também deram uma trégua. A referência (taxa de juros do título do Tesouro norte-americano de 10 anos) apresenta fechamento da curva à curtíssimo prazo, atualmente negociada aos 2,87% ao ano, após testar o nível de 3,11% no mês de maio/2018. O recuo no rendimento da Treasury de 10 ano demonstra supremacia de um mercado comprador no curto prazo.
  

Aliado ao cenário de bolsa comprada e juros fechando, o dólar contra cesta de moedas globais segue fortalecido. Este pode ser um sinal de que o fluxo de capitais está apostando numa eventual vitória dos Estados Unidos após o desfecho dessa disputa comercial, justamente o contrário do que se observa no noticiário.

Alguns investidores norte-americanos já começam a traçar um paralelo (exagerado) da situação atual com o momento Reagan da década de 1980, onde o então presidente Ronald Reagan comprou uma disputa armamentista arriscada com a União Soviética. Na época, os Estados Unidos tinha uma situação econômica e fiscal melhor para se sobrepor à União Soviética, induzindo os russos ao limite.

Novamente, os norte-americanos estariam em vantagem ao comprar uma disputa, desta vez tarifária, com a superpotência rival China. Além do gigantesco déficit comercial desfavorável aos norte-americanos (o que facilita a compra de uma disputa, por já estar em ampla desvantagem), os chineses se meteram num cheque-mate por estarem entupidos de títulos do Tesouro norte-americano.

Qualquer impacto nos Estados Unidos poderia afetar significativamente as reservas internacionais chinesas, que, por sinal, é justamente o colchão que blinda a economia da China, ao menos por enquanto, de uma crise de crédito no sistema financeiro local. Os chineses precisam manter muita bala na agulha para mostrar ao mercado que a economia está sob controle, mesmo diante das aberrações de cidades fantasmas e negócios improdutivos que não quebram.

Na verdade, qualquer país que comprar uma disputa comercial contra os Estados Unidos corre sério risco de sair perdendo. A economia norte-americana é menos dependente dos mercados externos, altamente diversificada, possui mão de obra qualificada, mercado consumidor mais robusto, detentora da impressora da moeda de troca global e o fluxo ainda corre como nunca no mercado da dívida soberana local, considerado o mais líquido do mundo.

Outro ponto responsável por elevar o ânimo de Wall Street em plena disputa comercial está relacionado ao rompimento de um viés mais hawkish observado nos comunicados do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) nos últimos meses. As incertezas sobre as relações comercias podem forçar o FED revisar seu plano de desalavancagem financeira, voltando para uma abordagem mais dovish, ou mesmo interrompendo temporariamente o processo (tanto de alta da taxa básica de juros, quanto da redução do balanço).

O que poderia soar como negativo à economia global tem sido motivo de celebração, ao menos por enquanto, em Wall Street.

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quinta-feira, 5 de julho de 2018

Rota 666


A quinta-feira amanheceu propícia para mais uma medida surpresa do governo. Algo poderia estar engatilhado para ser disparado, pois estamos na véspera da suprema importante partida entre Brasil e Bélgica, onde quase todos os brasileiros estão focados para o carnaval de amanhã. Teoricamente a sexta-feira é considerada dia útil, mas na prática será um feriado com cara de verão a 40 graus.

Para ajudar, a Embraer roubou os holofotes do noticiário econômico ao anunciar um memorando de entendimento com a Boeing para formação de uma joint venture. Apesar de o acordo ser positivo para a Embraer e Boeing, já que a Airbus assumiu o controle do programa de jatos CSeries da Bombardier (principal concorrente da Embraer), tanto o governo atual, quanto alguns candidatos à presidência, vêm sinalizando contra o acordo entre Embraer e Boeing.

O petróleo é nosso e o avião também. Já sabemos como essa história termina, mas o fato é que gerou grande alvoroço no mercado. Clima de copa/carnaval somado ao mercado agitado com determinada empresa/setor, formou o momento perfeito para o governo anunciar o Rota 2030, uma surpresinha que poderia ser chamada de Rota 666, por conta de mais um rombo fiscal bilionário que vamos ter de pagar.

O Rota 2030 é a nova versão do Inovar-Auto, criação da inteligente dupla Dilma-Mantega para subsidiar a precária indústria automobilística brasileira. O Inovar-Auto, que vigorou de 2012 a 2017, foi condenado pela OMC (Organização Mundial do Comércio), já que os absurdos incentivos fiscais violaram as regras internacionais.

Honrando nossas tradições, o governo deu um jeitinho para se esquivar da OMC e continuar subsidiando o setor automobilístico. Afinal, é preciso incentivo para que os nossos automóveis semi descartáveis possam continuar sendo fabricados e vendidos à bagatela de R$ 50.000,00 cada unidade. Assim, nasce o Rota 666, um programa que gera 1,5 bilhão de reais em crédito anual para as montadoras que fizerem investimento em pesquisa e desenvolvimento.

Crédito anual é uma palavra elegante para demonstrar que não é preciso pagar impostos. Para as montadoras conseguirem essa boquinha é muito fácil, basta que o somatório de investimento em pesquisa e desenvolvimento anual de todas as empresas do setor alcance a cifra de 5 bilhões de reais. Não ficou claro o que será considerado investimento, mas é possível que os semi descartáveis saiam de fábrica com calotas mais bonitas.

Diferente do programa anterior, que teve uma duração modesta de apenas 5 anos, o programa atual será válido pelos próximos 15 anos, o que garante renúncia fiscal de pelo menos 22,5 bilhões para os cofres públicos. A quantia é significativa e obviamente acrescenta mais fermento ao bolo do endividamento pronto para sair do forno.

A audácia do setor é tamanha ao ponto de Antonio Megale, presidente da Anfavea (Associação de Montadoras de Veículos), reconhecer que negociava um percentual maior de crédito sobre os investimentos, mas entende o momento difícil que o país passa, principalmente na questão fiscal.

Parece até que o setor fez um esforço para não ganhar tanto subsídio, como se fosse algo justo/merecido. Afinal, é só uma continha a mais de 22,5 bilhões de reais para o nosso bolso. Mas não vamos estragar o clima de copa, pelo menos os carros poderão sair de fábrica com aviso de afivelamento dos cintos de segurança.

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terça-feira, 3 de julho de 2018

AMLO quebra status quo no México


André Manuel López Obrador, conhecido como AMLO, conquistou a presidência do México neste último domingo com uma vitória avassaladora. Com o dobro de votos em relação ao segundo colocado, o fenômeno AMLO é mais um alerta para as mudanças em curso no ambiente político global.

López Obrador, um esquerdista nacionalista revolucionário, conseguiu emplacar a imagem de salvador da pátria perante ao povo, prometendo liderar a quarta transformação do México. A primeira foi a Independência (1812), a segunda grande transformação foi conhecida como Reforma (1858-1861) e a terceira foi a Revolução, ocorrida em 1910.

Os mexicanos demonstraram depositar nestas eleições excesso de fé e pouca razão na proposta audaciosa de López Obrador, mas o fato é que a população está desesperada por mudanças e procurou por um salvador. O novo presidente do México quer acabar com a predominância da centro-direita, que, apesar de protagonizar algumas reformas, se submeteu amplamente aos interesses privados, provocou aumento da desigualdade, não foi capaz de conter a onda de violência e, para piorar, protagonizou vários casos de corrupção (o que pode ter sido a gota d’agua para muitos eleitores).

O status quo foi quebrado de maneira brutal no México. Depois de 99 anos de domínio do PRI (Partido da Revolução Insitucional), interrompido apenas pelo PAN (Partido da Ação Nacional, também de centro-direita) entre 2000 a 2006, o fenômeno AMLO surge sobre as cinzas dos partidos tradicionais, que por sinal declararam derrota formalmente já nas pesquisas de boca de urna.

O resultado expressivo de López Obrador passa uma falsa imagem do potencial de sucesso de sua agenda de esquerda. O novo presidente do México triunfou porque os seus antecessores foram um desastre. Prova disso são os 133 políticos, militantes ou simpatizantes envolvidos nas eleições assassinados durante a campanha. Além do mais, Enrique Peña Nieto, atual presidente do México pelo PRI, termina seu mandato colecionando casos de corrupção, tanto pessoais, quanto de vários outros integrantes de sua base.

Peña Nieto afirmou em diversas ocasiões que o problema da corrupção no México é uma fraqueza de ordem cultural, evidenciando a falta de vontade (ou desculpa) para não combater os escândalos de corrupção que surgiam dentro de sua administração.

Corrupção e violência são dois fatores-chave que forçaram o eleitor mexicano buscar desesperadamente por um salvador da pátria. A população simplesmente não aguenta mais e escolheu uma figura desvinculada da política tradicional.

Quebras de status quo, como o ocorrido neste último domingo no México, já não são novidade num mundo de Trump, Brexit, entre outros. Inevitavelmente o Brasil parece ser o próximo desta lista, com viés para a esquerda.

A atual gestão centro-direita maquiada do governo Temer arruinou os fundamentos para uma mudança pró-mercado nos próximos anos. Os brasileiros não depositam confiança numa agenda ortodoxa, simplesmente porque Temer e sua equipe econômica levantaram esta bandeira e os resultados foram catastróficos: fiscal e desemprego muito elevados. O corajoso que se propor  a defender, na campanha, o que deu errado nestes últimos anos não será eleito.

Não se resolve estes dois problemas (fiscal e desemprego) de uma só vez, pois não há gordura para ser queimada em nenhum lado. Os números não estão numa mediana, mas em zona vermelha. Se ao menos o desemprego estivesse em nível mais baixo, poderia haver brecha para um esforço de ajuste fiscal, com efeitos colaterais limitados, o que não é o caso. Portanto, muito possivelmente o próximo governo terá de escolher entre acertar as contas públicas ou criar empregos. Não é uma decisão difícil, diante da conjuntura atual. Resta apenas contar os dias para o endividamento ultrapassar a marca de 80% do PIB.

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