terça-feira, 3 de julho de 2018

AMLO quebra status quo no México


André Manuel López Obrador, conhecido como AMLO, conquistou a presidência do México neste último domingo com uma vitória avassaladora. Com o dobro de votos em relação ao segundo colocado, o fenômeno AMLO é mais um alerta para as mudanças em curso no ambiente político global.

López Obrador, um esquerdista nacionalista revolucionário, conseguiu emplacar a imagem de salvador da pátria perante ao povo, prometendo liderar a quarta transformação do México. A primeira foi a Independência (1812), a segunda grande transformação foi conhecida como Reforma (1858-1861) e a terceira foi a Revolução, ocorrida em 1910.

Os mexicanos demonstraram depositar nestas eleições excesso de fé e pouca razão na proposta audaciosa de López Obrador, mas o fato é que a população está desesperada por mudanças e procurou por um salvador. O novo presidente do México quer acabar com a predominância da centro-direita, que, apesar de protagonizar algumas reformas, se submeteu amplamente aos interesses privados, provocou aumento da desigualdade, não foi capaz de conter a onda de violência e, para piorar, protagonizou vários casos de corrupção (o que pode ter sido a gota d’agua para muitos eleitores).

O status quo foi quebrado de maneira brutal no México. Depois de 99 anos de domínio do PRI (Partido da Revolução Insitucional), interrompido apenas pelo PAN (Partido da Ação Nacional, também de centro-direita) entre 2000 a 2006, o fenômeno AMLO surge sobre as cinzas dos partidos tradicionais, que por sinal declararam derrota formalmente já nas pesquisas de boca de urna.

O resultado expressivo de López Obrador passa uma falsa imagem do potencial de sucesso de sua agenda de esquerda. O novo presidente do México triunfou porque os seus antecessores foram um desastre. Prova disso são os 133 políticos, militantes ou simpatizantes envolvidos nas eleições assassinados durante a campanha. Além do mais, Enrique Peña Nieto, atual presidente do México pelo PRI, termina seu mandato colecionando casos de corrupção, tanto pessoais, quanto de vários outros integrantes de sua base.

Peña Nieto afirmou em diversas ocasiões que o problema da corrupção no México é uma fraqueza de ordem cultural, evidenciando a falta de vontade (ou desculpa) para não combater os escândalos de corrupção que surgiam dentro de sua administração.

Corrupção e violência são dois fatores-chave que forçaram o eleitor mexicano buscar desesperadamente por um salvador da pátria. A população simplesmente não aguenta mais e escolheu uma figura desvinculada da política tradicional.

Quebras de status quo, como o ocorrido neste último domingo no México, já não são novidade num mundo de Trump, Brexit, entre outros. Inevitavelmente o Brasil parece ser o próximo desta lista, com viés para a esquerda.

A atual gestão centro-direita maquiada do governo Temer arruinou os fundamentos para uma mudança pró-mercado nos próximos anos. Os brasileiros não depositam confiança numa agenda ortodoxa, simplesmente porque Temer e sua equipe econômica levantaram esta bandeira e os resultados foram catastróficos: fiscal e desemprego muito elevados. O corajoso que se propor  a defender, na campanha, o que deu errado nestes últimos anos não será eleito.

Não se resolve estes dois problemas (fiscal e desemprego) de uma só vez, pois não há gordura para ser queimada em nenhum lado. Os números não estão numa mediana, mas em zona vermelha. Se ao menos o desemprego estivesse em nível mais baixo, poderia haver brecha para um esforço de ajuste fiscal, com efeitos colaterais limitados, o que não é o caso. Portanto, muito possivelmente o próximo governo terá de escolher entre acertar as contas públicas ou criar empregos. Não é uma decisão difícil, diante da conjuntura atual. Resta apenas contar os dias para o endividamento ultrapassar a marca de 80% do PIB.

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22 comentários:

  1. Vamos ver se esse governo consegue liberar as drogas , seria uma boa experiencia para o mundo ver se isso enfraquece os carteis mesmo, Trump ia arrancar os cabelos.
    E tenho uma divida quanto ao Brasil que reformas um liberal como Amoedo se fosse eleito poderia fazer na canetada.Falam em tirar ministérios baixar impostos, cortar subsídios , enfim até onde o presidente pode ir sem o congresso?

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    1. Boa pergunta, sem o Congresso nesse sistema de presidencialismo de coalizão não vamos a lugar algum. Praticamente tudo o que precisa ser feito precisa passar por um Congresso repleto de partidos políticos. Situação muito complicada do ponto de vista político para formar maioria numa Casa altamente fragmentada. Por isso gosto de frisar a importância da eleição para deputados e senadores.

      Abs,

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  2. Bom dia Robson

    Gostaria de fazer uma pós graduação voltada para entendimento e investimento no mercado, qual delas vc me indicaria.

    Parabens pelo trabalho

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    1. Bom dia,

      Adiantando a desculpa pela resposta decepcionante, mas não recomendo nenhuma. Custo muito alto para um conhecimento muito teórico. O mercado financeiro exige uma base teórica fácil de ser incorporada por alguns livros e acompanhamento do noticiário econômico, porém exige também uma expertise alta e difícil de ser incorporada apenas com livros ou a curto prazo. Você vai alcançar essa expertise com o passar do tempo (anos), ao realizar suas próprias operações/investimentos no mercado. É nessa fase que você vai, aos poucos, montar e adaptar sua estratégia operacional, o fator-chave para alcançar eficácia de retorno a longo prazo. Precisando de algum auxílio, meu e-mail está à disposição.

      Abs,

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  3. Partido de Esquerda, excesso de fé, pouca razão, menos impostos, menos desigualdades??? Vixi...acho que já vi esse filme antes.

    Mexico assim como o Brasil são Países que não deram certo. infelizmente. Desde que o mundo é mundo sempre existiu e sempre existirá a classe rica e dominante x a classe pobre. Assim como sempre existirá (mesmo que com outro nome) E.U.A, China x Mexico, Brasil

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    1. A economia Mexicana é relativamente robusta, o problema central está na corrupção e violência, situação típica de países de terceiro mundo.

      Abs,

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  4. É isso IF.
    Temos que os mexicanos logo, logo passem a sentir saudades dos tempos outroros.
    Oligarquias sempre atrasam o país, mas nada é pior do que comumistas engajados. Estes arrasam o país.
    Aqui, a situação tá complicada. Nosso fiscal por um tris, e o povo querendo mais Estado. A conta não fecha.
    Talvez fosse bom que essa bolha internacional estourasse logo, talvez, assim, tivéssemos um ambiente melhor para tentar aprovar as reformas de que precisamos.

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    1. Sim, há muitos anos estamos postergando o ajuste e várias reformas. Seria menos traumático se algo viesse logo, mesmo que forçado pelo mercado.

      Abs,

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  5. Robson,avaliação muito interessante sobre as eleições Mexicanas. Parabéns pelo trabalho. Em relação ao cenário nacional, percebo um desejo na população de "renovação",porém,essa não é encontrada,integralmente, no presidenciáveis. Meu questionamento, é como direcionar os aportes mensais com essa conjuntura?
    Atenciosamente

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    1. Interessante que o William Waack fez análise semelhante no Estadão.

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    2. Eduardo Moreno,

      Difícil fazer uma avaliação de aportes mensais sem antes ter uma noção de como está sua alocação, mas diria que possuir determinada quantia em caixa poderá ser interessante. Para maiores esclarecimentos, gentileza me enviar e-mail: robson@jb3assessoria.com.br

      Anônimo, grato pelo comentário. Fiz uma rápida pesquisa e descobri que o William Waack está com um canal no youtube chamado de "Painel WW". Ainda não tinha visto, creio que muitos também não. Aproveito para deixar o link, recomendo. William Waack é um dos melhores jornalistas brasileiros, conduzia com excelência o Painel Globo News. Espero que tenha sucesso agora com seu próprio canal. Link: https://www.youtube.com/channel/UCAVq36KDhPluroMCL1BZhbg

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    3. Caro Robson, como vai?
      A pergunta foi a priori mais uma pergunta retorica. As instabilidades macroeconômicas (p.ex. mudança na taxa de juros) dificultam o planejamento para o investidor a longo prazo. Tanto pessoa física como nossa industria.
      Enfim,seus textos são sempre excelentes. Parabéns pelo trabalho

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    4. Obrigado Eduardo! Precisando de algo, fique à vontade para me chamar.

      Abs,

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  6. "Portanto, muito possivelmente o próximo governo terá de escolher entre acertar as contas públicas ou criar empregos. Não é uma decisão difícil, diante da conjuntura atual"

    De uma maneira ou de outra, a realidade econômica sempre se impõe. Se o próximo governo preferir criar empregos a pôr ordem nas contas públicas, o efeito será de curto prazo. Endividamento público alto levará a juros mais altos (risco de calote maior = prêmio maior), que levará a mais capital especulativo e menos capital produtivo, que levará a aumento de desemprego. Vide o que acontece na Venezuela e na Grécia.

    Lembro-me de um comentário bastante interessante do Mestre dos Dividendos: por que a Alemanha tem uma das taxas de desemprego mais baixas da Europa e ao mesmo tempo um dos juros mais baixos? Porque é um dos poucos países europeus com as contas públicas em ordem. Uma situação fiscal equilibrada e estável é vital para a atração de capital produtivo, que por sua vez traz mais empregos, afinal quem investiria diretamente num país que, a qualquer momento, pode aumentar impostos para cobrir seus constantes rombos ou iniciar um controle de capital? Desemprego baixo é consequência de contas públicas saudáveis, e não o contrário.

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    1. Coincidência ou não, hoje no G1 foi publicada uma entrevista com o Luiz Guilherme Schymura, diretor do Ibre/FGV, fazendo esta mesma correlação entre a questão fiscal e o mercado de trabalho. Faço das palavras dele as minhas: "Porque com o fiscal melhorando, tem investimento. Melhorando o fiscal, dando uma sensação de solvência no país, de não ter uma sensação de risco de inadimplência, o juro cai. A taxa de retorno sobre o investimento físico no país é muito alta. Então, na medida que o juro cai porque o fiscal consertou, a gente vai ter uma onda positiva dentro desse país de investimento que vai afetar diretamente o mercado de trabalho".

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    2. Concordo. Infelizmente existem ferramentas para postergar a imposição da realidade econômica, proporcionando cases lastimáveis como o da Grécia. Há décadas somos viciados a pensar sempre no curto prazo, não por acaso o endividamento está subindo em ritmo acelerado. Ainda está para surgir um governo com programa de longo prazo, um político disposto a sacrificar sua reeleição para colocar as contas em dia. Talvez essa figura até exista, mas sem menor condição de alcançar "uma dúzia de votos". O ajuste é extremamente necessário, mas custa caro a curto prazo. Creio ser mais fácil encontrar água no Saara do que convencer nossos políticos (inclui nesta conta deputados e senadores) a fazer o dever de casa.

      Abs,

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    3. Quais seriam estas ferramentas de postergação, FI? Pergunto isso porque praticamente o único consolo que nós, pequenos investidores, temos nas circunstâncias atuais é que, quem quer que esteja no Planalto ano que vem, não escapará das reformas impopulares, a não ser que queira começar e terminar o mandato com o país na mesma penúria (e perder a chance de se reeleger). Se bem que se fizer as tais reformas impopulares, também perde a chance de reeleição. Então é tentar prever qual dos dois cenários vai ser mais impopular politicamente.

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    4. Um técnico do ministério da Fazenda responderia melhor essa pergunta, mas existem várias formas de "comprar tempo" em mudanças micro. Além disso, as reservas estão no radar dos candidatos de esquerda. Essa máxima do mercado (quem quer que esteja no Planalto vai ter de fazer reformas impopulares) é incorreta.

      Abs!

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  7. Uma pergunta, FI: não teria sido o alto desempenho do Obrador nas eleições mexicanas uma consequência da retórica protecionista e anti-imigração do Trump? Considerando o quanto o Trump batia no México por causa da questão do NAFTA e dos imigrantes ilegais, surpresa seria se os mexicanos votassem em alguém que vissem como pró-EUA (caso do candidato do Enrique Peña).

    De qualquer maneira, você acha possível uma guinada radical na política mexicana, visto que os EUA continuam como destino de 80% das exportações do país? Se o México comprar briga com os EUA, a economia do primeiro com certeza sofrerá muito mais, coisa que nem o Obrador vai querer no início de mandato.

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    1. Ponto interessante, mas creio que não. Os escândalos de corrupção e os elevados índices de violência implodiram sobre a direita mexicana dominante em toda a história. De fato a situação parecia estar saindo de controle (tanto na corrupção, quanto na segurança). López Obrador apenas se aproveitou desta brecha para vencer. Não acho que vá conseguir uma guinada radical, incomodar tanto o Trump (dependência muito grande) ou cumprir a promessa de liderar a quarta transformação do México, mas pode influenciar uma nova geração de esquerda tanto no México, quanto na própria região. Se ele conseguir realmente rduzir os níveis de corrupção e violência, provavelmente será aclamado pelo povo.

      Abs,

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  8. ótima análise como sempre. A realidade se avizinha. Pior que sem todos os jogadores podendo sentar na mesa, o resultado do jogo não sai do papel para a realidade de virada de página que precisamos

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