sexta-feira, 13 de julho de 2018

Por que o mercado não reagiu ao achatamento das Treasurys?


À primeira vista, o achatamento da curva de juros futuros norte-americano poderia estar, neste momento, emitindo um sinal de alerta. Players de mercado estão sempre de olho no spread da Treasury de 2 anos com a Treasury de 10 anos, pois todas as recessões ocorridas desde 1960 nos Estados Unidos foram precedidas por inversão/achatamento na curva dos juros futuros, ou seja, taxa de juros de 2 anos maior do que a taxa de juros de 10 anos.

O fato de o mercado exigir prêmio mais alto para emprestar dinheiro ao Tesouro norte-americano num prazo de 2 anos, ao mesmo tempo em que exige prêmio mais baixo para emprestar dinheiro ao Tesouro norte-americano num prazo de 10 anos, é um forte sinal de que as perspectivas para o cenário de curto prazo estão muito ruins. Ao exigir mais prêmio no título da ponta curta, o mercado pode estar projetando uma deterioração nos fundamentos macroeconômicos ou mesmo uma fase de recessão na economia.

A inversão da curva ainda não ocorreu. Isso significa que a Treasury de 2 anos está pagando juros inferior à Treasury de 10 anos. Entretanto, a diferença de prêmio entre os dois títulos do Tesouro norte-americano caiu para apenas 0,24 pontos percentuais nesta sexta-feira, registrando o menor spread em mais de uma década.

O spread entre a Treasury de 2 anos com a Treasury de 10 anos já foi mais de 2 pontos percentuais em 2014, ou seja, no passado não tão distante, a Treasury de 2 anos pagava cerca de 2 pontos percentuais a menos que a Treasury de 10 anos.


O gráfico acima revela a força do deslocamento da taxa de juros da Treasury de 2 anos (linha preta) versus taxa de juros da Treasury de 10 anos (linha pontilhada). Apesar de ambas as curvas estarem abertas, a Treasury de 2 anos atacou com mais força, chegando ultrapassar a intensidade do movimento observado na Treasury de 10 anos.

Ao contrário do que se esperava, a redução do spread para apenas 0,24 pontos percentuais não afetou o mercado. Pelo contrário, o clima de otimismo observado nas principais praças financeiras mundiais voltou a melhorar, relembrando o início pujante de 2018.

Utilizando o mesmo gráfico, porém com zoom, para focar no movimento de curto prazo, é possível entender porque o mercado não está preocupado com a redução do spread entre as Treasurys.


O ponto central continua sobre a intensidade do movimento. A Treasury de 2 anos, que vinha numa forte e preocupante arrancada, ao menos parou de abrir e está lateralizada desde o mês de maio deste ano (círculo verde). Isso significa que o mercado paga hoje praticamente o mesmo prêmio que pagava em maio para comprar Treasury de 2 anos.

Já a Treasury de 10 anos (reta azul) está fechada a curto prazo. Após registrar pico em 3,11% no mês de maio, a taxa da Treasury de 10 anos não somente parou de subir como voltou a cair, hoje sendo negociada aos 2,83%.

Portanto, apesar de o spread ter recuado para apenas 0,24 pontos percentuais, o mercado enxerga como positivo o fato de a Treasury de 2 anos ter parado de subir, hoje estagnada. Além disso, pode-se notar que a redução do spread observada desde maio ocorreu totalmente em função do fechamento da Treasury de 10 anos, hoje negociada num patamar ligeiramente inferior ao nível de longo prazo da FFR (Federal Funds Rate).

O fechamento da Treasury de 10 anos pode ser explicado pela calmaria de momento natural na política monetária do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), onde a comunicação muito antecipada, juntamente com uma abordagem gradualista, sem surpresas de percurso, tem evitado prolongação dos ciclos de tensão/volatilidade nos juros futuros locais.

Além disso, joga a favor a avaliação de Wall Street (explicada no último post) sobre a guerra comercial de Donald Trump, muito diferente do que se comenta pela imprensa. O ambiente positivo de Wall Street já contaminou grande parte das praças financeiras mundiais.

Nikkei, no Japão, fechou a semana em forte alta, recuperando quase toda a perda registrada no mês passado. Na China, a bolsa de Xangai saiu de 2.700 pontos registrados na semana anterior para fechar esta sexta-feira aos 2.831 pontos. A bolsa de Bombay, na Índia, alcançou nova máxima em 2018 e renovou recorde. Rússia fechou em alta pela quarta semana consecutiva, retomando patamar de preço registrado no mês de maio. México opera em forte rali no curto prazo, saindo de 185 pontos para 207 pontos nesta sexta-feira, mesmo com vitória nas eleições presidenciais de um candidato de esquerda.

No Brasil, o Ibovespa fechou em alta pela terceira semana consecutiva, na máxima do mês de julho, acompanhando a dinâmica observada em várias outras bolsas de valores mundo afora. Nos Estados Unidos, o índice S&P500 inicia rompimento dos 2.800 pontos, fechando em forte alta pela segunda semana consecutiva. Nasdaq está fazendo seu show à parte, renovando máxima do ano e alcançando mais um recorde histórico. Os touros estão de volta, ao menos por enquanto.

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7 comentários:

  1. Em condições normais de temperatura, tua análise estaria correta. Não reagiu porque tem muita liquidez dos bancos centrais inundando os treasuries, distorcendo os preços do mercado!

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    1. Sim, mas liquidez é abundante no sistema financeiro desde o início desta década. O movimento das últimas semanas tem mais relação com o cenário de curto prazo.

      Abs,

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  2. Esse ciclo de alta "ad aeternum" no mercado de ações pela ampla expansão monetária promovida pelos bancos centrais trará danos sem precedentes no mercado financeiro.

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    1. Muito possivelmente a dinâmica será bem diferente na próxima década. Vamos acompanhar.

      Abs,

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  3. Tenho acompanhando muito esse achatamento do spread entre as treasurys, a seguir nesse ritmo até o fim do ano já podemos estar vendo os juros da treasury de 2y passando a de 10y.

    Mas eu costumo analisar este indicador com o nível de desemprego, ainda mais que o fato de os juros estarem se achatando em patamares relativamente baixos (se comparados com as crises anteriores) pode fazer com que a coisa seja diferente das outras vezes.

    Agora uma pergunta FI, existe algum produto financeiro para ganhar apostando no achatamento/ampliação dos juros entre as treasurys? Deve ser uma especie bem interessante de arbitragem não?

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    1. Sim, mas infelizmente desconheço produto financeiro deste tipo. Acho que o investidor teria de fazer a operação manual, entrando diretamente no mercado norte-americano.

      Abs,

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  4. O que acha dessa opinião?

    https://newmonetarism.blogspot.com/2018/07/dont-fear-inversion-its-short-rate-that.html

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