quinta-feira, 5 de julho de 2018

Rota 666


A quinta-feira amanheceu propícia para mais uma medida surpresa do governo. Algo poderia estar engatilhado para ser disparado, pois estamos na véspera da suprema importante partida entre Brasil e Bélgica, onde quase todos os brasileiros estão focados para o carnaval de amanhã. Teoricamente a sexta-feira é considerada dia útil, mas na prática será um feriado com cara de verão a 40 graus.

Para ajudar, a Embraer roubou os holofotes do noticiário econômico ao anunciar um memorando de entendimento com a Boeing para formação de uma joint venture. Apesar de o acordo ser positivo para a Embraer e Boeing, já que a Airbus assumiu o controle do programa de jatos CSeries da Bombardier (principal concorrente da Embraer), tanto o governo atual, quanto alguns candidatos à presidência, vêm sinalizando contra o acordo entre Embraer e Boeing.

O petróleo é nosso e o avião também. Já sabemos como essa história termina, mas o fato é que gerou grande alvoroço no mercado. Clima de copa/carnaval somado ao mercado agitado com determinada empresa/setor, formou o momento perfeito para o governo anunciar o Rota 2030, uma surpresinha que poderia ser chamada de Rota 666, por conta de mais um rombo fiscal bilionário que vamos ter de pagar.

O Rota 2030 é a nova versão do Inovar-Auto, criação da inteligente dupla Dilma-Mantega para subsidiar a precária indústria automobilística brasileira. O Inovar-Auto, que vigorou de 2012 a 2017, foi condenado pela OMC (Organização Mundial do Comércio), já que os absurdos incentivos fiscais violaram as regras internacionais.

Honrando nossas tradições, o governo deu um jeitinho para se esquivar da OMC e continuar subsidiando o setor automobilístico. Afinal, é preciso incentivo para que os nossos automóveis semi descartáveis possam continuar sendo fabricados e vendidos à bagatela de R$ 50.000,00 cada unidade. Assim, nasce o Rota 666, um programa que gera 1,5 bilhão de reais em crédito anual para as montadoras que fizerem investimento em pesquisa e desenvolvimento.

Crédito anual é uma palavra elegante para demonstrar que não é preciso pagar impostos. Para as montadoras conseguirem essa boquinha é muito fácil, basta que o somatório de investimento em pesquisa e desenvolvimento anual de todas as empresas do setor alcance a cifra de 5 bilhões de reais. Não ficou claro o que será considerado investimento, mas é possível que os semi descartáveis saiam de fábrica com calotas mais bonitas.

Diferente do programa anterior, que teve uma duração modesta de apenas 5 anos, o programa atual será válido pelos próximos 15 anos, o que garante renúncia fiscal de pelo menos 22,5 bilhões para os cofres públicos. A quantia é significativa e obviamente acrescenta mais fermento ao bolo do endividamento pronto para sair do forno.

A audácia do setor é tamanha ao ponto de Antonio Megale, presidente da Anfavea (Associação de Montadoras de Veículos), reconhecer que negociava um percentual maior de crédito sobre os investimentos, mas entende o momento difícil que o país passa, principalmente na questão fiscal.

Parece até que o setor fez um esforço para não ganhar tanto subsídio, como se fosse algo justo/merecido. Afinal, é só uma continha a mais de 22,5 bilhões de reais para o nosso bolso. Mas não vamos estragar o clima de copa, pelo menos os carros poderão sair de fábrica com aviso de afivelamento dos cintos de segurança.

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12 comentários:

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    1. Isso mesmo Hunter. Não mudamos quase nada, só alternamos os nomes.

      Abs,

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  2. Primeiro a gente tira a Dilma, depois... kkkk

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  3. Pra quem gosta de carros como eu, triste e perpétua realidade. Meu gosto hoje de resume há leitura, vídeos etc... Meu carro mesmo tem mais de 10 anos e não troco tão cedo. Não dou dinheiro pra esses canalhas.

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    1. Sim, para quem gosta de carros, até as corridas ficaram mais monótonas, com exceção da Nascar.

      Abs,

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  4. FI, salvo engano, acho que já vi você colocar no mesmo saco desses incentivos o Simples Nacional.
    Sou empresário (e optante do Simples) e já fiz algumas simulações, em que o valor do imposto não é tão diferente das alternativas (inclusive em uma delas, não recordo se Lucro Real ou Presumido, alguns produtos pagariam até menos imposto). A grande vantagem do Simples pra mim é o fato de simplificar bastante as obrigações acessórias e é este o principal motivo pelo qual eu não tenho interesse de expandir as operações (chegando ao ponto de aumentar o preço dos produtos para diminuir a venda e operar dentro das margens).
    Como falei antes, não tenho certeza se você se posiciona contra o Simples, mas se puder dar uma palhinha sobre o que você pensa sobre o assunto, agradeço.

    E como sempre, ótimos textos. Muito obrigado pelas informações que compartilhas :)

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    1. Obrigado!
      Sim, já fiz algumas críticas sobre o Simples Nacional. O regime tributário simplificado é excelente, o grande problema é que abriu brecha para pessoas físicas de alta renda recolherem impostos como se fossem empresas. Uma outra polêmica relacionada ao Simples Nacional é que acaba inibindo um possível crescimento do negócio, como você destacou bem no comunicado. O governo tem de fazer o possível para o empresário arriscar (crescer), não o contrário. Entretanto, neste ponto entendo a postura cautelosa (operar dentro da margem do Simples) em função da grande dor de cabeça que é pagar impostos neste país. O ideal seria tapar as brechas criadas pelo Simples e modernizar/expandir o programa.

      Abs,

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  5. Brasil é um pais de louco, BNDS vai financiar energia renovável governo vai emprestar a 1% o dinheiro que ele capta a mais de 6%,invés de simplesmente ter um imposto baixo e deixar o mercado crescer organicamente, ele vai gerar uma bolha , crescer o setor artificialmente e depois tira o incentivo e deixa bomba explodir ...

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    1. É saudável economias operarem com algum incentivo em determinada empresa/setor, desde que de forma tática, mas o que aconteceu no Brasil foi uma farra de crédito barato e excesso de subsídios.

      Abs,

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  6. Excelente, FI.

    O período da Copa foi cheio de surpresas mas, não inesperadamente, acabou mais cedo para os brasileiros. Segunda-feira, 09 de julho, voltaremos à programação normal de ameaças de greve, crise da segurança pública, afastamento de ministros e solturas do STF. Segue o baile.

    Triste mesmo é a situação do pessoal mais consciente, como o público desse blog. A ignorância realmente seria uma benção.

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    1. Obrigado Gustavo! Realmente, a programação normal pós-copa voltou com força total.

      Abs,

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