terça-feira, 10 de julho de 2018

Wall Street compra guerra comercial de Donald Trump


Há algumas semanas o noticiário macro global é dominado pelo notório desgaste comercial entre Estados Unidos e China. As ameaças de Donald Trump de implementação de tarifas de importação estão começando a sair do papel, com elevado potencial de impacto em diversas economias, principalmente na China.

As retaliações, principalmente por parte dos chineses (as mais esperadas), por enquanto são consideradas modestas, o que tem deixado players de mercado menos pessimistas ou até mesmo otimistas. A paciência dos chineses será testada novamente com a possibilidade de surgimento de uma nova lista negra norte-americana de imposição de tarifas sobre 200 bilhões de dólares em produtos made in China.

Enquanto as retaliações continuarem modestas ou desproporcionais ao calibre da artilharia protecionista de Donald Trump, é possível entender que o momento atual, apesar de extremamente delicado, ainda possa ser encarado como uma disputa comercial caliente, mas não ao ponto de alcançar o status de uma guerra comercial total.

Curioso, mas não tanto, notar que Wall Street não se abalou com o acirramento comercial de Donald Trump com o resto do mundo. Pelo contrário, o ambiente no mercado norte-americano é consideravelmente positivo. O índice S&P500 continua se apoiando acima da média móvel simples de 200 períodos diária, formando fundos ascendentes desde o mês de abril/2018, já iniciando teste sobre a principal linha de resistência, localizada aos 2.800 pontos.


A recuperação do S&P500 está limpando posições vendidas em aberto na praça, o que pode aumentar a chance de rompimento ascendente da importante linha de resistência nos próximos dias/semanas. Este cenário reforçaria ainda mais o status de um mercado norte-americano comprador, ao menos a curto prazo, em pleno acirramento da disputa comercial, onde grande parte dos analistas consideram prejudicial aos negócios e a economia.

As Treasurys da ponta longa também deram uma trégua. A referência (taxa de juros do título do Tesouro norte-americano de 10 anos) apresenta fechamento da curva à curtíssimo prazo, atualmente negociada aos 2,87% ao ano, após testar o nível de 3,11% no mês de maio/2018. O recuo no rendimento da Treasury de 10 ano demonstra supremacia de um mercado comprador no curto prazo.
  

Aliado ao cenário de bolsa comprada e juros fechando, o dólar contra cesta de moedas globais segue fortalecido. Este pode ser um sinal de que o fluxo de capitais está apostando numa eventual vitória dos Estados Unidos após o desfecho dessa disputa comercial, justamente o contrário do que se observa no noticiário.

Alguns investidores norte-americanos já começam a traçar um paralelo (exagerado) da situação atual com o momento Reagan da década de 1980, onde o então presidente Ronald Reagan comprou uma disputa armamentista arriscada com a União Soviética. Na época, os Estados Unidos tinha uma situação econômica e fiscal melhor para se sobrepor à União Soviética, induzindo os russos ao limite.

Novamente, os norte-americanos estariam em vantagem ao comprar uma disputa, desta vez tarifária, com a superpotência rival China. Além do gigantesco déficit comercial desfavorável aos norte-americanos (o que facilita a compra de uma disputa, por já estar em ampla desvantagem), os chineses se meteram num cheque-mate por estarem entupidos de títulos do Tesouro norte-americano.

Qualquer impacto nos Estados Unidos poderia afetar significativamente as reservas internacionais chinesas, que, por sinal, é justamente o colchão que blinda a economia da China, ao menos por enquanto, de uma crise de crédito no sistema financeiro local. Os chineses precisam manter muita bala na agulha para mostrar ao mercado que a economia está sob controle, mesmo diante das aberrações de cidades fantasmas e negócios improdutivos que não quebram.

Na verdade, qualquer país que comprar uma disputa comercial contra os Estados Unidos corre sério risco de sair perdendo. A economia norte-americana é menos dependente dos mercados externos, altamente diversificada, possui mão de obra qualificada, mercado consumidor mais robusto, detentora da impressora da moeda de troca global e o fluxo ainda corre como nunca no mercado da dívida soberana local, considerado o mais líquido do mundo.

Outro ponto responsável por elevar o ânimo de Wall Street em plena disputa comercial está relacionado ao rompimento de um viés mais hawkish observado nos comunicados do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) nos últimos meses. As incertezas sobre as relações comercias podem forçar o FED revisar seu plano de desalavancagem financeira, voltando para uma abordagem mais dovish, ou mesmo interrompendo temporariamente o processo (tanto de alta da taxa básica de juros, quanto da redução do balanço).

O que poderia soar como negativo à economia global tem sido motivo de celebração, ao menos por enquanto, em Wall Street.

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10 comentários:

  1. Grande mestre FI, como sempre nos surpreendendo com suas excelentes análises! Como pequeno investidor, sempre gostei de analisar as relações de causa e efeito que norteiam as decisões dos agentes econômicos, mas acredita que nunca havia reparado nesta grande vantagem que os EUA têm em relação à China numa eventual guerra comercial, vantagem esta que você explicou neste artigo?

    Acompanhe meu raciocínio: os EUA têm um déficit comercial imenso com a China, o que por si próprio já é uma vantagem para o primeiro numa guerra comercial. Mas sempre pensei que as enormes reservas de títulos americanos detidas pela China seriam o contrapeso na guerra (em retaliação, a China desovaria os títulos no mercado, prejudicando a economia americana). O que não havia reparado é que a China precisa destes títulos como o tal colchão de segurança, visto que o país está tentando barrar fugas de capital (situação parecida com a do Brasil e nossas reservas cambiais, razão pelo qual não estamos recorrendo ao FMI como a Argentina). Então uma eventual alta dos juros americanos derrubaria o valor de face dos títulos em poder dos chineses, diminuindo o colchão. Daí o interesse dos dirigentes chineses em não forçar os juros das Treasuries para cima, preferindo aceitar as sobretaxações de seus produtos a ver seus milionários mandarem o dinheiro para fora.

    Sempre achei o Trump louco e inepto, mas se ele conseguiu enxergar esta relação e por isso comprou a briga, então ele na verdade é um gênio! A comparação com o Reagan e a União Soviética foi bem interessante.

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    1. Anônimo, seu raciocínio está perfeito. Talvez você não tenha chegado a essa conclusão antes, por conta do bombardeio de informações de baixa qualidade observada nos dias atuais, o que acaba nos impedindo de enxergar o ponto além da curva ou do que não se comenta na mídia.

      Abs!

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  2. Boa análise... Não tem bobo ali nos EUA. Se iniciaram essa disputa possuem expectativa de sair dela melhor que estão. Não tem ser irracional ali como tem muita gente pregando por aí. Vamos ver no que vai dar...

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  3. Enquanto isso o spread entre as Treasury's segue diminuindo...

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    1. Diminuiu bastante, por sinal. Assunto comentado no próximo post.

      Abs,

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  4. Tarifas de nada adiantam se a China desvalorizar a moeda. O que pensa sobre isso?

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  5. O Americano se especializou demais em uma coisa no mundo capitalista: ganhar dinheiro! Não é fácil acreditar que eles entrem em uma guerra comercial sem saber que podem ganhar.

    O Trump, de bobo, so tem a cara. Porém certamente não é ele sozinho que pensa neatas coisas de "genio". Rststs

    FI, mais uma vez, obrigado pelos seus posts. Cada um deles é uma aula!

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