Panorama de Mercado

Os pedidos de análises, dúvidas ou demais solicitações estão sendo atendidos gratuitamente através do e-mail financasinteligentes@gmail.com. Envie sua solicitação e lhe responderei o mais breve possível. Abaixo segue atualização da análise de panorama para os mercados de renda fixa e renda variável.


Panorama do cenário macroeconômico e projeções para o mercado de renda fixa e renda variável.
(atualizado dia 20/12/2013)


O Relatório Trimestral de Inflação divulgado hoje pelo Banco Central confirmou a expectativa decepcionante, traçada anteriormente pelo mercado, para o crescimento da economia brasileira no próximo ano, perdendo, mais uma vez, o pique de retomada da atividade global.

O quadro doméstico continua desanimador. A grande mudança em relação ao Relatório Trimestral de Inflação de setembro está justamente na revisão negativa para o desempenho da economia brasileira. Anteriormente os diretores de política monetária do Banco Central esperavam “ritmo de atividade doméstica mais intensa no próximo ano”. Agora a perspectiva para o PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro caiu para 2,3% em quatro trimestres até setembro de 2014. Isso significa que a autoridade monetária não acredita mais na possibilidade de aceleração do ritmo de crescimento.

O cenário é negativo e, talvez, até pior do que crescer mísero 1%, como ocorreu em 2012, período marcado pelo baixo desempenho/retração das principais economias desenvolvidas. Hoje, pode-se observar intensificação no ritmo de atividade global. As economias desenvolvidas estão em processo de recuperação econômica e impulsionarão o crescimento em 2014.

O fato de não acompanharmos a retomada do crescimento global constitui mais uma indicação negativa para economia doméstica e revela a persistência de uma série de restrições (principalmente estruturais), bem como o nível de nossa vulnerabilidade, responsáveis por barrar toda e qualquer tentativa de retomada da atividade doméstica, mesmo quando os impulsos são frutos do ambiente externo.

O ambiente de negócios no Brasil continua extremamente desfavorável. Os velhos problemas relacionados à infraestrutura deficitária, excesso de burocracia, carga tributária elevada e baixo nível de educação, somam-se às novas variáveis criadas pelo alto grau de intervenção do Estado na economia, dentre as quais pode-se destacar lamentavelmente a permanência da inflação em níveis elevados e distantes do centro da meta (4,5%), péssima gestão dos recursos públicos, estratégias equivocadas de política econômica e perda de confiança e credibilidade entre investidores e empresários. A ineficácia destas intervenções resultou em mais aumento do gasto público, alavancando o nosso endividamento, elevando o déficit fiscal e prejudicando as metas de superávit primário. Estes fatores, por sua vez, reduziram a demanda de investidores interessados em emprestar dinheiro ao governo brasileiro, provocando, consequentemente, aumento do custo de captação de recursos no mercado. Sob o olhar de menor interesse do mundo em relação aos ativos brasileiros, o real entrou num processo de depreciação, com menor fluxo de entrada de dólares e maior fluxo de saída, expondo mais uma vulnerabilidade da economia brasileira, dependente de financiamento externo, dentre as quais pode-se destacar o rombo nas transações correntes crescendo em ritmo insustentável no longo prazo. A segunda consequência provocada pelo deslocamento no câmbio contribuirá para manter a inflação pressionada no próximo ano, que se somarão às novas pressões provocadas pela alta inevitável dos preços administrados (tarifas de transporte público, energia elétrica, combustíveis, entre outros), obrigando o Banco Central a queimar reservas cambiais na tentativa de conter parte da pressão inflacionária insuficientemente combatida pela alta da taxa básica de juros. O tamanho relevante deste parágrafo foi construído propositalmente para observamos o efeito dominó provocado pela baixa capacidade de gestão do Estado.

O necessário ajuste fiscal, principal variável responsável por evitar uma queda no rating brasileiro, não virá em 2014. A reversão de algumas desonerações será a principal ferramenta do governo na tentativa de se aproximar da meta “fictícia” de superávit fiscal. O plano de reduzir despesas com o pagamento de seguro-desemprego e abono salarial (a partir da realização de um curso de qualificação profissional) mostra que não há real interesse do governo em fazer um ajuste fiscal minimamente digno/aceitável.

Consequentemente, a política fiscal expansionista seguirá exercendo pressão relevante sobre os índices de preços. Esta fonte continua sendo ignorada pelo Banco Central. A autoridade monetária trabalha com a hipótese de deslocamento do balanço do setor público para a zona de neutralidade, avaliação totalmente desencontrada do quadro atual.

As projeções de inflação observadas no Relatório divulgado hoje mostraram por que o Banco Central reconheceu, pela primeira vez, na ata da reunião do mês de novembro, a impossibilidade de garantir a trajetória descendente do índice de preços no próximo ano. A tabela abaixo revela que o Banco Central está muito longe de atingir o seu objetivo.


A projeção de inflação parte de 5,8% no quarto trimestre de 2013, recua ligeiramente para 5,5% até o segundo trimestres de 2014, mas volta a subir para 5,7% no terceiro trimestre e encerra o ano em 5,6%. Em 2015 a taxa de inflação abrirá perigosamente pressionada em 5,7%, apresentando um pequeno recuo nos próximos trimestres, encerrando o ano em 5,4%. As projeções foram traçadas levando em consideração a manutenção da taxa de câmbio constante no horizonte de previsão em R$2,35 e a meta para a taxa Selic em 10% a.a.

Pode-se observar claramente nas projeções oficiais do próprio Banco Central a insuficiência de calibragem da taxa básica de juros para combater devidamente as pressões inflacionárias, oriundas de fontes distintas e complexas. A recente sinalização de redução do ritmo de aperto monetário mostra que a autoridade monetária vai correr o risco de manter a inflação acima e distante do centro da meta, mais uma vez, sustentando a atual complexidade do quadro doméstico para os próximos anos.

Estes entraves continuarão exercendo pressão negativa sobre o mercado de ações em 2014. Os lucros das empresas serão impactados pela recente alta da taxa básica de juros (maior custo de captação/financiamento), insustentabilidade do modelo econômico, manutenção do péssimo ambiente de negócios e crescente deterioração do cenário doméstico. Por outro lado haverá pressão positiva para um seleto grupo de empresas exportadoras de commodities, beneficiadas pelo deslocamento do câmbio e retomada da economia global. Estes ativos tendem a continuar atraindo fluxo dos fundos de ações. A atenção dos gestores seguirá voltada às boas empresas com receitas em dólar e despesas em reais.

O saldo final provocado pela atuação destas duas fontes distintas poderá resultar na permanência de um mercado travado no próximo ano, não se distorcendo da tendência ligeiramente baixista de longo prazo, apresentando alternâncias entre pernadas de curto prazo significativas de alta e de baixa. Portanto, a estratégia recomendada para 2014 continuará sendo praticamente a mesma utilizada neste e nos últimos anos: aproveitar, dentro do possível, o direcional dos movimentos técnicos de curto prazo. O ambiente interno desfavorável inviabiliza a manutenção de um movimento direcional ascendente no longo prazo e dificulta bastante o stock picking (seleção de ações) para investidores pessoa física.

No curto prazo o índice Bovespa trabalha dentro de um movimento de recuperação, apoiado pela perspectiva de manutenção da postura acomodatícia do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) por um período de tempo superior ao que se esperava anteriormente. A permanência da Federal Funds Rate (taxa básica de juros) em níveis historicamente baixos por mais dois anos, pelo menos, contribuirá para reduzir a volatilidade e o clima de aversão ao risco nos mercados globais, mas não constituiu fator de melhora na economia doméstica ou no valuation das empresas brasileiras.  Portanto, altas provocadas pelo affair do FED tendem a ser insustentáveis ao longo do tempo, por conta da distorção de deslocamento direcional entre preços e fundamentos, abrindo espaço, na sequência, para novas correções de preço.

O ponto de sustentação do atual movimento de recuperação do índice Bovespa está na região de suporte psicológico dos 50k, marcado por uma formação de fundo e possível reversão pelos candles no gráfico semanal, abrindo espaço para manutenção deste movimento no curto prazo.


No mercado de renda fixa podemos observar um pequeno movimento corretivo de curto prazo, influenciado, especialmente, pela expectativa de interrupção do ciclo de aperto monetário no primeiro trimestre de 2014. O target para a taxa Selic está mais visível, gira em torno de 10,5% e 10,75%. A digestão destes dados pelo mercado provoca um inevitável acerto dos excessos praticados nas curvas de juros futuros, principalmente nos contratos de curto prazo.

Entretanto, não há perspectiva de estabilidade na curva para o médio e longo prazo, tanto por fatores oriundos de pressões internas (fiscal, endividamento e inflação), quanto por fatores oriundos de pressões externas.

As pressões internas já foram detalhadas nesta análise. As pressões externas serão examinadas na sequência.

Embora as políticas monetárias dos principais banqueiros centrais mundiais permaneçam, ainda, altamente expansionistas, o mercado da dívida soberana já está adiantando um importante momento de transição: o início de um bull market das taxas de juros a nível global.


O gráfico acima mostra a movimentação da taxa de juros do título de 10 anos do Tesouro norte-americano. O movimento ascendente iniciado no final de 2012 ganhou força e rompeu a LTB de 1981, marcando, tecnicamente, o fim de uma era de três décadas de bear market dos Treasuries (títulos do Tesouro norte-americano).

A inversão relevante na tendência de longo prazo das taxas de juros nos Estados Unidos respinga sobre os demais títulos da dívida soberana, especialmente em países emergentes, onde os ativos apresentam maior presença de fatores de risco. O aumento da remuneração dos títulos do Tesouro norte-americano provoca uma inevitável atração de capital, obrigando os demais países a subirem seus respectivos prêmios de risco (alta dos juros), a fim de manter a atratividade de seus ativos e impedir uma fuga em massa de capitais.

O bull market das taxas de juros globais ganhará mais consistência quando a Federal Funds Rate começar a subir nos Estados Unidos, marcando o início da fase crítica de desalavancagem do sistema. Por este motivo recomenda-se manter total distância de posicionamentos em títulos de médio e longo prazo.

As únicas opções continuam sendo a LTN 2016 (atualmente paga um juro pré-fixado de 11,88% ao ano) e LFT 2017 (título pós-fixado, atualizado diariamente). Não há título de curto prazo atrelado à inflação disponível para compra, portanto esta opção continua descartada. Priorizar posicionamentos parciais e crescentes no título pré-fixado de curto prazo somente nos momentos de tensão/disparada das taxas. Já a posição pretendente no título pós-fixado pode ser montada de imediato. O momento permite um balanceamento da carteira de renda fixa de, no mínimo, R$ 2,00 de pré-fixado para cada R$ 1,00 de pós-fixado.


Ao comprar LFT 2017 e LTN 2016, o investidor aproveitará o ciclo de alta dos juros por meio de um título pós-fixado (LFT 2017) e se beneficiará com os excessos do mercado por meio de um título pré-fixado (LTN 2016). O timming de compra do título pré-fixado é o que garantirá a boa rentabilidade da carteira de renda fixa.

No mercado de câmbio permanece a perspectiva de valorização do dólar para o próximo ano. A depreciação do real não é uma consequência única e exclusiva do tapering e/ou normalização futura das condições monetárias nos Estados Unidos. A reversão da trajetória da taxa de câmbio começou há dois anos, justamente quando surgiram os primeiros escorregões e sinais de esgotamento da atual política econômica.


A crescente deterioração do quadro doméstico é um dos principais fatores responsáveis por sustentar o movimento de valorização do dólar frente ao real. A inobservância de ações corretivas do Estado no sentido de mitigar este processo permite a manutenção da tendência de alta da taxa de câmbio.

No mercado de commodities pode-se observar relativa estabilidade dos preços nos últimos 12 meses, trabalhando dentro de uma congestão de médio prazo. Este movimento faz parte do ciclo de correção iniciado em 2011, consequência do super ciclo de alta das commodities constatado na década passada.


Não há perspectiva de retorno dos preços aos picos verificados em 2011, mesmo diante de um cenário de reaquecimento da economia global. Isso porque o excesso de oferta presenciado no ambiente global possui plenas condições de atender e/ou acompanhar o reaquecimento da demanda.

Especial atenção para o ouro. O estouro da bolha nas commodities metálicas jogou a cotação para os níveis mínimos atingidos na crise de 2008, conforme podemos observar no gráfico abaixo.


O movimento de pânico de baixa ainda não chegou ao fim, tende a ser sustentado pela decepção da manada, inflação abaixo da meta de 2% nos Estados Unidos e manutenção da política monetária expansionista por um período de tempo superior ao que se esperava anteriormente. Mas com os preços depreciados pelo estouro da bolha, o ouro se tornará a principal válvula de escape (mecanismo de fuga) em 2015/2016, quando o mercado provavelmente começará a precificar o choque provocado pela elevação da Federal Funds Rate.

O mercado continua exigindo alto grau de adaptabilidade do investidor perante as constantes e corriqueiras mudanças de temperatura. As opções são restritas e de curta duração. Hora o clima está positivo e ensolarado, abrindo espaço para todos descerem à praia. Hora o clima está frio e negativo, exigindo cautela dentro de casa. Mas aquela nuvem carregada no horizonte, mais conhecida como desalavancagem do sistema, se aproxima lentamente. A alternância constante de temperatura, provocada pelo choque de correntes de ar quente e frio, pode provocar uma tempestade.

Investidores precisam estar preparados para enfrentarem esta adversidade, que, diferente de 2008, será provocada pelos próprios banqueiros centrais. A primeira gota daquela nuvem carregada no horizonte cairá quando o FED sinalizar o aumento da taxa básica de juros. Entretanto, o clima de temor e incerteza pode e deve ser encarado de frente pelo investidor, com posicionamentos corretos e/ou defensivos. O mais importante é que estaremos aqui, faça chuva ou faça sol, ajudando no que for possível, o tempo todo. Contem conosco sempre que precisarem!

Desejo a todos um ótimo Natal e um ano novo repleto de saúde, felicidade, sucesso e bons negócios! Obrigado a todos vocês leitores e comentaristas, grandes responsáveis pela manutenção deste excelente espaço de discussões sobre o mercado financeiro nacional e internacional.

Grande abraço e até mais!

Sucesso a todos e bons investimentos!

As análises apresentadas são de caráter informativo, onde as opiniões pessoais do autor não representam recomendações de investimento financeiro de qualquer natureza. Portanto, o autor se isenta de qualquer responsabilidade com referência a ganhos ou perdas obtidas no mercado financeiro, baseadas ou não nas informações aqui fornecidas. Embora as informações aqui contidas foram obtidas através de fontes consideradas seguras e fidedignas, o autor responsável pela elaboração deste conteúdo não responde pela veracidade ou qualidade das informações.
Conheça o meu eBook Muito prazer, Sr. Mercado

Entenda a dinâmica do mercado de capitais e descubra como é simples e fácil investir com sucesso na bolsa. Saiba mais sobre o livro clicando aqui.