sexta-feira, 17 de agosto de 2018

TCU acaba com agonia do teto de gastos


A pec do teto de gastos é considerada uma das poucas mudanças positivas que o governo Temer deixará para o futuro do país. A regra foi implementada com objetivo de limitar o crescimento exponencial das despesas do governo.

O racional é bastante simples: o governo e todas as suas esferas só poderão gastar a mesma quantia do ano anterior, corrigida pela inflação. A imposição do teto tem um prazo de 20 anos, que é o tempo necessário para reequilibrar as contas públicas da forma menos traumática possível.

Caso o teto de gastos seja descumprido, poderes ou órgãos ficarão automaticamente impedidos no exercício seguinte de reajustar salários, contratar funcionários, realizar concursos públicos ou criar novas despesas até que os gastos retornem ao limite previsto na lei.

As despesas de 2017 e 2018 estão dentro da nova lei do teto de gastos. Entretanto, para os próximos anos, o teto se tornará inviável sem aprovação da reforma da previdência, simplesmente porque os gastos com a previdência estão crescendo quase o dobro da inflação. Mantendo este ritmo, chegaremos num ponto onde as aposentadorias e pensões irão comprimir o resto do orçamento, a ponto de não sobrar dinheiro para as despesas discricionárias (não obrigatórias), como os investimentos, manutenções, obras públicas, entre outros.

Não por acaso, desde 2016, já se alertava que o teto de gastos seria insustentável sem aprovação da reforma da previdência. Sem poder alterar as despesas obrigatórias e sem recurso para as despesas discricionárias, o Brasil iria parar. O emaranhado de obras públicas paralisadas é apenas uma amostra grátis do que está para acontecer caso mudanças não sejam feitas nos próximos anos.

O “ajuste fiscal” realizado na atual gestão tem se concentrado, basicamente, nos gastos discricionários. O investimento em infra-estrutura, por exemplo, que é uma das principais válvulas de impulso ao crescimento (tática muito utilizada por economias asiáticas emergentes), praticamente inexiste no Brasil.

Gasta-se tanto dinheiro com cheques preenchidos e benefícios, que não sobra espaço no orçamento para segmentos importantes, como investimento, infra-estrutura, educação e pesquisa. Recentemente o STF (Supremo Tribunal Federal) contribuiu para a conta dos cheques preenchidos aumentar um pouco mais, ao propor reajuste salarial de 16,3%. Se aprovada, a medida cria efeito cascata em salários de vários outros servidores.

Se já estava difícil pensar na eficácia do teto de gastos sem a reforma da previdência e com essa nova onda de reajustes salariais, piorou agora que o TCU (Tribunal de Contas da União) abriu oficialmente a porteira para a boiada passar por cima do teto de gastos.

Os ministros do TCU decidiram excluir do teto de gastos da União as despesas dos órgãos públicos com a realização de concursos, desde que sejam financiadas pelas taxas de inscrição. Os ministérios da Fazenda e do Planejamento entraram com embargos contra a decisão, obviamente sem sucesso, pois está muito claro que certas camadas da população não toleram ajuste fiscal.

O ministério da Fazenda adverte que a decisão do TCU poderá representar o desmonte do teto de gastos. A avaliação está correta, já que a decisão do TCU cria uma nova forma de interpretação da lei, estratégia que pode ser utilizada por outros órgãos/setores da União.

Em nota, o ministério da Fazenda e do Planejamento mostram que a excepcionalidade criada pelo TCU pode ensejar possibilidade de construções interpretativas com o intuito de gerar outras excepcionalidades para despesas públicas custeadas a partir de receitas próprias, com potencial de efeito sistêmico elevadíssimo.

A dúvida que restava sobre a viabilidade do teto de gastos na próxima gestão parece estar chegando ao fim. Não foi preciso esperar o fim do processo eleitoral. O teto, sequer, precisa ser discutido em campanha, já está fadado ao fracasso. A agonia sobre a viabilidade ou não do teto foi, agora, substituída pela agonia sobre o valor a ser pago por nós na próxima fatura. Os zeros à direita estão aumentando.

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terça-feira, 14 de agosto de 2018

Atuações de banqueiros centrais acalmam investidores


Depois de um fechamento aterrorizante na sexta-feira da semana passada, banqueiros centrais de países emergentes altamente endividados em moeda estrangeira atuaram em seus respectivos mercados nesta semana, acalmando os ânimos mais exaltados dos investidores mundo afora.

Pouco comentada e não tão modesta, o Banco Central da Turquia anunciou no começo desta semana uma injeção de 6 bilhões de dólares no sistema financeiro local para garantir a liquidez dos bancos e reduzir o clima de aversão ao risco no mercado.

A injeção ocorrerá a partir da redução dos limites de reservas de divisas permitidas aos bancos comerciais turcos com objetivo de retirar liras do mercado, voltar a circular mais dólares no sistema e, assim, estabilizar a taxa de câmbio. A medida é difícil de ser entendida pelos populares locais, que se apegam à taxa básica de juros, porém tem potencial de impacto relevante no mercado. Criado em 2011, o mecanismo de opção de reserva determina a porcentagem de reservas financeiras que um banco turco pode se posicionar, seja em moeda estrangeira, ouro ou lira.

Além da revisão do mecanismo, contribuiu para acalmar os ânimos dos investidores o fato de que o ministro das Finanças da Turquia, Berat Albayrak, realizará teleconferência com players de mercado nesta próxima quinta-feira. Albayrak desfruta de baixa reputação por ser cunhado do presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan.

Mesmo sendo um possível fantoche, o fato de o ministro das Finanças agendar sua primeira teleconferência com players de mercado, desde que assumiu o cargo, há dois meses, pode sinalizar uma tentativa de diálogo do presidente da Turquia. Quando está na mira dos holofotes, Erdogan segue fazendo seu show midiático, atacando o mercado.

Entretanto, nos bastidores, parece rodar outro filme. Inclusive, circularam boatos de que o FMI (Fundo Monetário Internacional) foi acionado pelo governo da Turquia para uma assistência financeira ($$$). Os boatos forçaram a instituição emitir nota negando o aceno das autoridades turcas.

A atuação mitigadora do Banco Central da Turquia foi seguida por uma intervenção preventiva-surpresa do Banco Central da Argentina. Na segunda-feira, a autoridade monetária argentina elevou abruptamente sua taxa básica de juros de 40% para 45% ao ano, numa reunião de Comitê emergencial.

O Banco Central justificou sua decisão em resposta à conjuntura externa atual e ao risco de um novo impacto sobe a inflação local. O peso argentino sofreu pesada perda com a onda de aversão ao risco em praças emergentes observada recentemente. Além da decisão surpresa, a autoridade monetária foi ainda mais ousada se comprometendo manter o nível da taxa de juros até, pelo menos, outubro/2018.

Para reforçar a atuação preventiva, o Banco Central da Argentina também anunciou ontem um plano para acelerar a redução do estoque de Lebacs (Letras do Banco Central – bônus local), que faz parte dos instrumentos de implementação da política monetária. O objetivo é reduzir gradualmente o estoque de Lebacs pela metade, de 1 bilhões de pesos para cerca de 500 milhões de pesos, num movimento considerado ortodoxo.

Ao final do processo de redução gradual das Lebacs, o estoque destes instrumentos emitidos pela autoridade monetária ficará apenas sob posse de instituições financeiras locais, o que permitirá melhorar a eficácia da estratégia de política monetária e reduzir a vulnerabilidade do mercado cambial.

Refletindo as atuações dos banqueiros centrais, os preços dos ativos de risco nas principais praças financeiras mundiais repicaram para cima na segunda e terça-feira. O índice S&P500 conseguiu se manter acima da linha central de bollinger, aos 2.839 pontos, trabalhando dentro de uma tendência de alta iniciada em abril/2018.

Na Índia, a bolsa de Bombay voltou a subir após dois pregões consecutivos de baixa, iniciando nova aproximação com a máxima histórica. A bolsa mexicana fechou em alta aos 209 pontos, se mantendo acima da média móvel simples de 200 períodos diária. África do Sul trabalha formação de fundo duplo com a alta registrada nesta terça-feira.

Na Rússia, a bolsa de valores fechou em forte alta pelo segundo pregão consecutivo, respeitando a principal linha de suporte de curto e médio prazo aos 1.040 pontos. Quadro semelhante ocorreu no Brasil, com o Ibovespa fechando em alta relevante pelo segundo pregão consecutivo, formando piso (ao menos a curto prazo) aos 75.900 pontos.

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sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Colapso na Turquia é mais grave do que parece


O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, implorou, nesta sexta-feira, para que os cidadãos troquem seus dólares e barras ouro debaixo dos colchões por moeda turca. Esta não é a primeira vez que Erdogan faz esse pedido maluco e nem será a última.

Quando um líder político faz este tipo de súplica, ao mesmo tempo em que ataca o mercado financeiro em rede nacional, aclamando a população por uma luta nacional, é um forte sinal de que a vaca foi pro brejo. Incentivar os cidadãos trocar dólares ou ouro por lira turca é uma tentativa desesperadora de frear a desvalorização excessiva da moeda local, que apenas expõe as fragilidades da economia.

As reportagens na imprensa se concentraram na insignificante tensão diplomática da Turquia com os Estados Unidos. Os norte-americanos exigem a libertação de um pastor protestante detido na Turquia sob acusações de vínculos terroristas. O religioso não foi libertado pelos turcos e o aumento das tarifas sobre o aço e alumínio imposto pelos norte-americanos foi encarado como metida retaliatória, o que é inadequado.

Os Estados Unidos aumentaram as tarifas sobre o aço e alumínio da Turquia para 50% e 20%, respectivamente, simplesmente para compensar a rápida desvalorização da lira turca frente ao dólar, o que poderia criar situação de competição desleal/injusta em função do fator câmbio.

A desvalorização agressiva da lira turca é reflexo de uma série de problemas macroeconômicos não resolvidos no passado que, neste momento, estão explodindo de uma só vez. Tudo começou com a reeleição do presidente Erdogan no mês de junho, com a promessa de manter a taxa de juros baixa para induzir o crescimento econômico, mesmo aturando uma inflação mais alta.

A taxa básica de juros na Turquia está em 17,75% ao ano, ainda assim descalibrada para combater a inflação crescente que já alcança 15,85% ao ano, a maior desde a crise de 2008. A recente decisão do Banco Central da Turquia, de manter a taxa básica de juros inalterada, em meio ao cenário de forte aceleração da inflação, reforçou a percepção do mercado de falta de independência da autoridade monetária.

Possivelmente a decisão de segurar os juros veio do presidente da Turquia, cumprindo sua promessa de campanha. Erdogan perdeu a confiança do mercado e, consequentemente, os ativos de risco entraram em pânico. A taxa de juros do título de 10 anos se aproxima dos 19% ao ano e a lira turca saltou para 6,41 dólares. A moeda local era negociada na faixa de 3 dólares em 2016. Somente nesta semana, a lira turca perdeu 1,41 dólares, marcando seu pior momento desde a crise de 2008.


Essa é apenas a ponta do iceberg. A economia ainda passa por um período de baixo consumo interno, elevado déficit em conta corrente e carente de investimentos estrangeiros. Além disso, governo, empresas e famílias estão altamente endividados em moeda estrangeira.

Um estudo do Deutsche Bank mostrou que a dívida em moeda estrangeira do governo, setor financeiro e não financeiro da Turquia alcança cerca de 70% do PIB. A agência estatal de notícias Anadolu afirma que a dívida externa é de 466 bilhões de dólares, o que equivale a 53% do PIB. Mesmo que os números da agência estatal estejam corretos (ou fossem mais confiáveis), ainda assim seria uma quantia impagável com a forte desvalorização da moeda local.
  

Não por acaso a delicada situação da Turquia abateu as praças financeiras do mundo inteiro. O endividamento em moeda estrangeira da Turquia é o maior do mundo. É a primeira peça do dominó. Se a Turquia cair (entrar em default), outros países altamente endividados em moeda estrangeira como Hungria, Argentina, Polônia e Chile poderiam seguir pelo mesmo caminho, criando uma crise sistêmica global sem precedentes.

Para piorar, o Instituto de Finanças Internacionais estima que a necessidade de financiamento da Turquia para este ano é de 218 bilhões de dólares, podendo chegar a 240 bilhões de dólares, tanto para cobrir o déficit em conta corrente, quanto para pagar parcelas a vencer da dívida.

Um default na Turquia poderia impactar imediatamente, ou colocar em situação de insolvência, alguns bancos na Espanha, França e Itália. Por este motivo, vazou informação no Financial Times de que o BCE (Banco Central Europeu) está acompanhando de perto a crise na Turquia.

O sistema financeiro europeu provavelmente não suportaria um calote de tamanha proporção por parte dos turcos. Portanto, a crise na Turquia é mais grave do que parece por dois motivos básicos: (i) rápida propagação pelo sistema financeiro e (ii) contaminação em efeito dominó sobre outros países emergentes.

Se a situação começar sair de controle, banqueiros centrais e lideres políticos globais entrarão em ação para impedir um contágio maior no mercado. Já se comenta que a Turquia está sendo pressionada a impor controles de capital e pedir ajuda financeira à Rússia. Por fim, resta uma carta na manga que Erdogan resiste em não queimar: choque de juros para frear o câmbio e acalmar o mercado.

A Turquia não é nenhum cisne negro, pois já vem se arrastando há alguns meses, mas serve para relembrar que o mercado pode criar suas crises da noite para o dia, quando quiser, não por irracionalidade ou crueldade, mas simplesmente por deixar de fazer vista grossa aos problemas econômicos.

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terça-feira, 7 de agosto de 2018

Está aberta a temporada da boataria eleitoral


A terça-feira marcante deste dia 07 de agosto de 2018 abriu a temporada da boataria eleitoral. A praça brasileira amanheceu positiva, com bolsa em alta (voltando a se aproximar dos 82.000 pontos), dólar vendido (testando o piso de curto prazo dos R$ 3,70) e juros futuros colados na mínima do mês.

No cenário externo, o humor seguia positivo, sem nenhuma novidade relevante. Tudo parecia corroborar por mais um dia rotineiro, já que o mercado vem de uma sequência de seis semanas consecutivas de valorização nos preços dos ativos de risco locais.

Entretanto, a partir das 14h15 o cenário passou a mudar drasticamente. Em poucos minutos a bolsa despencou para 79.900 pontos, o dólar disparou para R$ 3,77 e os juros futuros inverteram fortemente o direcional, passando a abrir no intraday. Muitos investidores começaram correr atrás de notícias, pois algo pesado estava impactando o mercado. Foi neste momento que pode ser constatado o início da temporada da boataria eleitoral.

O que parece ter sido o primeiro boato a circular no mercado, talvez o mais forte, está relacionado ao resultado da pesquisa de intenção de voto da CNT/MDA desfavorável ao candidato de centro-direita (queridinho do mercado) Geraldo Alckmin. Os números serão divulgados amanhã e refletem apenas o universo de eleitores do estado de São Paulo. Portanto, se confirmado o boato, um desempenho negativo em seu próprio estado seria um grande revés para Alckmin, que até então vinha numa ascendente na avaliação do mercado, por conta das alianças com os partidos do Centrão (leia-se mais tempo de televisão).

Supostamente para reforçar o viés negativo do primeiro boato, passou a circular um novo boato no mercado sobre a possibilidade de homologação de delação premiada do ex-presidente da Dersa (Desenvolvimento Rodoviário S.A.), Laurence Casagrande Lourenço, contra Alckmin. Há uma investigação em curso da Operação Pedra no Caminho, que mira fraudes em obras do Rodoanel Trecho Norte.

E já que a lógica parecia ser empurrar o mercado para baixo, começaram a circular até mesmo notícias sem lógica, como a possibilidade de o ex-presidente e candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, ser liberado para fazer entrevista pela internet mesmo estando preso. WTF?

Em suma, fato é que o mercado brasileiro passou por forte volatilidade na tarde desta terça-feira e movimentos semelhantes poderão ocorrer nos próximos dias/semanas/meses, até que se defina quem subirá a rampa do Planalto, como se um simples nome fosse um divisor de águas para o nosso futuro.

Com discussões de tão baixo nível, até mesmo no ambiente de mercado, juntamente com uma população viciada no Estado grande, talvez a reforma que estará em jogo no próximo ano não será a da previdência, mas sim a reforma do Teto de Gastos, pronta para ser devorada pelo próximo Congresso se não conseguirmos eleger 308 heróis.

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segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Xing lings shorteados


As atuais condições de mercado permanecem boas no mundo inteiro. O humor positivo predomina nos preços dos ativos de risco nas principais praças financeiras, mas existe uma exceção. Alguém ficou fora desta última festa.

Levando uma baita tapa, com “T” de Trump, Xangai sucumbe solitariamente ao bear market. Muitos sabem que a economia xing ling tem seus sérios problemas, mas ninguém ousava em atacar. Mr. Green, ou Luis Stuhlberger para os mais formais, o genial gestor do fundo Verde, foi um dos poucos corajosos no mundo a carregar o peso de apostar contra China no passado.

Stuhlberger apontava muito bem os problemas da China em suas cartas mensais, mas na época travou uma dura batalha contra as intervenções do Banco Popular e acabou anunciando sua rendição recentemente, talvez por certa pressão dos novos cotistas batizados (acostumados) na era da renda fixa ou do próprio mercado de hedge funds brasileiro que ficou mais competitivo e imediatista.

Muitos questionaram as posições contra China montadas pelo Mr. Green. Ao contrário do que se imagina, não eram tão arriscadas ao ponto de colocar em risco o patrimônio do fundo, porém permitiam ganho satisfatório caso o mercado se deslocasse conforme o racional. O simples fato de perder para o CDI durante algum tempo causou rebeldia em parte dos cotistas.

Inclusive, de forma geral, os gestores de multimercados macro estão sofrendo pressão para entregar o padrão de retorno que o órfão da renda fixa brasileira estava acostumado a receber no passado. O fundo Verde sofreu duras críticas por ter entregado 5,25% de retorno em 2017, diante de um CDI de 9,95%, embora o resultado não tenha feito diferença alguma ao retorno acumulado do fundo desde o início até o fim de 2017: 14.612,59% do Verde versus 1.904,99% do CDI.

Especula-se que o Mr. Green perdeu a mão, mas na verdade o gestor pode ter perdido a paciência. O mercado provou que a tese contra a China estava correta. A bolsa de Xangai alcançou 3.587 pontos no mês de janeiro deste ano e hoje opera aos 2.705 pontos, renovando mínima de 2016, completamente shorteada.


A imagem acima mostra que o bear market da China se destoa totalmente do bull market de Wall Street e do resto do mundo. A linha pontilhada revela o desempenho do S&P500, enquanto a linha preta mostra o desempenho da bolsa de Xangai.

Quem está levando a pior na guerra comercial? Quem tem menos a perder e mais a ganhar? Quem está mais vulnerável e com mais problemas internos? A discrepância entre as duas bolsas de valores responde essas perguntas.

Muito se discute na mídia sobre as armas que a China poderia utilizar para combater os ataques de Donald Trump. Porém existe pouca margem de manobra para um contra ataque de mesmo nível, até porque com tantas complexidades internas, Donald Trump é o menor dos problemas xing lings. Não por acaso, no mundo dos negócios, ao menos por enquanto, está claro quem está ganhando e quem está perdendo.

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quinta-feira, 2 de agosto de 2018

BoE se descola do BCE e aumenta novamente taxa básica de juros


O Bank of England (autoridade monetária britânica) elevou a taxa básica de juros nesta quinta-feira de 0,50% para 0,75% ao ano. Este é o segundo aumento registrado em menos de 12 meses. Em novembro do ano passado, o BoE subiu a taxa básica de juros de 0,25% para 0,50%, no primeiro gesto de aperto monetário desde o estouro da crise do subprime.

A autoridade monetária britânica também antecipou que novos aumentos poderão surgir nos próximos anos, porém em ritmo bastante gradativo. O aumento da taxa básica de juros britânica está mais lento do que o aumento observado na federal funds rate (taxa básica de juros norte-americana). É como se o FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) estivesse se movendo em velocidade de tartaruga e o BoE em velocidade de lesma.

Entretanto, dois dos principais banqueiros centrais mundiais já estão trabalhando estratégia de aperto nas condições monetárias. O BCE (Banco Central Europeu) se prepara para iniciar o processo de reversão na taxa básica de juros em meados de 2019 e BoJ (Bank of Japan) está fora da rota, sem perspectiva de aperto nas condições monetárias.

Ao contrário do terror propagado pela imprensa há alguns anos, o BoE não parece tão preocupado com o Brexit em curso, caso contrário não estaria subindo sua taxa básica de juros. A economia também segue trajetória de retomada satisfatória, inclusive a projeção do PIB britânico subiu para 1,8% em 2019. Para este ano, espera-se crescimento de 1,4%.

O aumento na taxa básica de juros britânica poderá prejudicar milhões de famílias que possuem hipotecas, porém há dois possíveis elementos positivos na jogada do BoE: (i) impor um freio ao mercado imobiliário local, agindo preventivamente contra um aquecimento exagerado no setor e (ii) ajudará a poupança dos britânicos ou dos investidores estrangeiros que aplicam em títulos públicos e privados no Reino Unido, pois o aumento da taxa básica de juros provocará aumento na rentabilidade dos títulos, deixando-os mais atrativos em relação aos seus pares.

Este segundo ponto pode ser uma cartada tática importante para o cenário pós-Brexit. O quadro político e econômico pode até impor obstáculos às relações comerciais entre diferentes países, mas no mercado financeiro não existem fronteiras. Quando a divisão política estiver estabelecida, poupadores de toda a Europa, principalmente alemães, tendem a não permanecer com o capital dentro do círculo da União Europeia caso as taxas locais estejam (bem) mais baixas do que as praticadas no Reino Unido.

Portanto, o BoE pode estar preparando terreno para disputar fluxo de capital no pós-Brexit. O processo de elevação da taxa básica de juros impõe força para que os rendimentos dos títulos locais também subam. Como o BCE ainda não começou a subir sua taxa básica de juros, o Reino Unido larga na frente e, ainda, pode remunerar melhor o capital no overnight das instituições financeiras locais, outra importante ferramenta para impedir a temida fuga dos bancos de investimento para outras praças.

Por fim, o BoE deu outro importante passo ao replicar a estratégia adotada pelo FED sobre a taxa neutra de longo prazo. Na reunião encerrada nesta quinta-feira, o BoE publicou pela primeira vez sua estimativa para o ponto de equilíbrio na taxa básica de juros, nível capaz de manter a inflação ancorada na meta e permitir a economia crescer a plena capacidade.

É muito difícil calcular juros neutro (equilíbrio) de longo prazo com exatidão, mas a divulgação da taxa neutra por parte de uma autoridade monetária é uma importante ferramenta para guiar as expectativas do mercado e deixar o horizonte mais claro aos investidores. O BoE estima que o juro neutro nominal esteja entre 2% a 3% ao ano, algo parecido com os 3% cravados do FED.

Cientes da estimativa de juro neutro, os investidores conseguem traçar melhor um panorama de mercado em suas carteiras e se sentem mais confortáveis para tomarem decisões de alocação de capital.

No Brasil, a prática da autoridade monetária ainda não alcançou tal nível de excelência. Não existe, sequer, cenário concreto para a taxa básica de juros de curto prazo ou para as próximas decisões do Copom, basta observar o histórico dos últimos quatro meses ou mesmo a montanha russa dos últimos dez anos.

Os investidores apenas perderam tempo ao ler o comunicado da última reunião do Banco Central do Brasil, encerrada ontem. Não houve sinalização de movimentação/estratégia para as próximas reuniões, nem muito menos para o próximo ano, que dirá para o início da próxima década. O nosso cálculo de juro neutro parece ser mais complexo do que entender a fórmula E=mc2 de Albert Einstein, isso porque nunca tivemos nos pouco mais de 500 anos de história planejamento de longo prazo. Agimos para solucionar problemas de curto prazo e torcemos para que o mercado seja generoso no longo prazo.

Nos Estados Unidos, o FED decidiu manter sua taxa básica de juros inalterada entre 1,75% a 2% ao ano, mantendo seu cronograma de política monetária esboçado há duas gerações atrás. O movimento iniciou com a sinalização (antecipação) na gestão Bernanke, se concretizou na administração Yellen e prossegue na gestão Powell. Um aperto monetário lento, gradual, sem surpresas, em direção ao juro neutro de 3% no longo prazo.

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terça-feira, 31 de julho de 2018

BoJ se rende ao mercado e ajusta política monetária


A reunião do Comitê de Política Monetária do BoJ (Bank of Japan) encerrou nesta terça-feira apresentando novidade significativa na orientação estratégica para o futuro da política monetária no país.

A princípio, a decisão pode não ter chamado tanta atenção da imprensa, já que a taxa de depósito de curto prazo foi mantida em -0,1% e a meta para os juros dos bônus do governo japonês de 10 anos continuou inalterada em zero. Entretanto, houve incomum atraso na divulgação do comunicado e a decisão não foi unânime. 2 dois 9 membros votantes se posicionaram contra a estratégia.

O possível ponto de discórdia entre os membros, e que mostra mudança na orientação futura para a política monetária, está no aumento da margem de tolerância para oscilação da taxa do título do tesouro japonês de 10 anos. Até então, a meta a ser perseguida pelo BoJ era zero, permitindo flutuação em mais ou menos 0,1 p.p. Hoje, a meta de flutuação foi dobrada para 0,2 p.p. Ou seja, agora, o rendimento do título do Tesouro japonês pode oscilar o dobro da meta estipulada no passado.

Haruhiko Kuroda, presidente do BoJ, teve de frisar na entrevista que o movimento da autoridade monetária japonesa não pode ser encarado como aperto na política monetária. Entretanto, com a nova orientação, o BoJ inevitavelmente se tornará menos rigoroso com o patamar das taxas de juros futuros.

Havia especulação no mercado sobre mudanças na postura do BoJ, confirmadas hoje, muito em função do movimento de abertura dos juros dos títulos do tesouro de várias economias, tanto desenvolvidas, quanto emergentes.

O retorno da taxa de juros do título do Tesouro norte-americano de 10 anos para a faixa de 3% ao ano foi o movimento mais marcante, até porque é a principal referência de mercado. Porém, taxas de juros futuros de outros países também abriram forte (subiram) nestes últimos meses. Na Alemanha, a taxa de juros do título de 10 anos saltou para 0,44% ao ano. No Reino Unido, as gilts saltaram para 1,33% ao ano. Na França, a taxa de 10 anos alcançou 0,73% ao ano. No Canadá, os títulos já são negociados a 2,30% ao ano. O México está pagando 7,78% ao ano no bond de 10 anos, Rússia paga 7,74% ao ano, África do Sul 8,59% ao ano, enquanto Índia paga 7,77% ao ano. O Brasil paga 11,06% ao ano por carregar o fardo de país emergente mais endividado do planeta, além da velha e conhecida desordem macro e fiscal.

A abertura generalizada das taxas de juros futuros em várias economias revela mudança na dinâmica de mercado. São os primeiros impactos de um longo processo de desalavancagem financeira, iniciado muito lentamente nos Estados Unidos, mas que em breve deve se estender para a Europa e se fortalecer na virada da década.

O BoJ estava atrás da curva marcando pressão para manutenção do juro de 10 anos em zero, porém a briga estava ficando cara e ineficaz, além de pressionar as margens dos bancos locais. A taxa de juros do título do tesouro japonês de 10 anos levou um forte baque semanas antes da reunião de política monetária, o que só aumentou a pressão para o BoJ ceder.


De 0,025% ao ano registrado no início deste mês, a taxa de juros do título de 10 anos saltou para 0,102% ao ano, apresentando a abertura mais agressiva dos últimos anos. Com a nova meta, o BoJ pode aceitar que essa taxa possa alcançar até 0,20% ao ano, patamar não visto desde 2015, quando o mercado de bonds estava eufórico (comprador) no mundo inteiro.

Como de costume, para evitar propagar pânico no mercado, o BoJ compensou a estratégia mais hawkish para os juros futuros aumentando o calibre para compra anual de ETFs listados na bolsa de Tóquio, de 2,7 trilhões de ienes para 4,2 trilhões neste ano. Entretanto a compra total de ETFs permaneceu em 6 trilhões de ienes. Isso significa que o BoJ vai gastar mais bala a curto prazo, agindo preventivamente em função do ajuste na estratégia de política monetária.

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sexta-feira, 27 de julho de 2018

Soluço das techs se restringe a Wall Street


Os investidores norte-americanos estão assustados com mais uma forte onda vendedora abatendo algumas ações populares do setor de tecnologia e internet. Como na última ocasião, a nova crise começou com o carro-chefe das famosas FAANGs (Facebook, Amazon, Apple, Netflix e Google).

Nesta última quinta-feira, as ações do Facebook mergulharam para os 174 dólares, após registrar máxima recorde aos 218 dólares no dia anterior. Em um único dia, o Facebook perdeu cerca de 120 bilhões de dólares em valor de mercado. Essa frase assustou muitos investidores norte-americanos que adoram operar FAANGs e também ajudou vários sites de notícias angariar page views ($$$) com um assunto a princípio chocante.

Curioso, mas não tanto, notar que, no resto do planeta, o ambiente predominante nas últimas semanas observado no mercado de capitais se manteve. Ou seja, clima otimista, fluxo comprador em ativos de risco. Mais uma semana positiva. Nada mudou com o novo soluço das techs.

Ao observar o histórico das ações do Facebook, pode-se notar que a perda de 120 bilhões de dólares em valor de mercado é considerada dinheiro de pinga, por incrível que pareça. O papel era negociado a 44 dólares cerca de 5 anos atrás.


Continua sendo um bom negócio até mesmo para os investidores que entraram atrasados na festa em 2018. Mesmo com a queda desta semana, as ações do Facebook continuam sendo negociadas acima da mínima registrada no mês de março deste ano.

As ações do Twitter, outra tech muito utilizada nas operações de curto prazo dos investidores norte-americanos, despencaram para 34 dólares nesta sexta-feira, após alcançar 44 dólares na última quarta-feira.

A forte queda das ações do Facebook e Twitter foi motivada por balanços trimestrais decepcionantes. Embora o mundo virtual possa estar passando por um mau momento, o mundo real da economia norte-americana segue de vento em popa.

O PIB (Produto Interno Bruto) dos Estados Unidos cresceu à taxa anualizada de 4,1% no segundo trimestre de 2018, registrando o melhor ritmo de crescimento dos últimos quatro anos. Donald Trump, que completou um ano de mandato no mês de janeiro deste ano, tem motivo de sobra para comemorar. Triunfou sob o pessimismo da imprensa local, foi eficaz ao implementar uma agenda econômica polêmica e conseguiu manter o clima positivo na economia mesmo com movimentos ousados no campo geopolítico e, principalmente, nas relações comerciais com outros países.

Trump afirmou nesta sexta-feira, com razão, que os Estados Unidos são a inveja econômica do mundo. Taxa de desemprego em apenas 3,9% (mínima histórica), inflação ancorada na meta de 2% e PIB robusto. Os três principais elementos econômicos que afetam diretamente as vidas das famílias (e elegem presidentes) rodam, ao mesmo tempo, no melhor cenário possível.

Se existe algum ponto positivo de estar no grupo dos invejosos é que, ao menos, a robustez da maior economia do planeta tende a puxar para cima o crescimento de vários outros países. Não por acaso, o humor positivo prevaleceu em várias praças financeiras mundiais nesta semana, tanto as desenvolvidas, quanto as emergentes.

Wall Street sacudiu com as techs, pois são ações populares muito utilizadas por investidores locais. De qualquer forma, o soluço não tirou o brilho do movimento de recuperação do S&P500, iniciado no mês de abril deste ano. Já o mundo respira aliviado com os Estados Unidos, até porque a potência número 2 (China) tem se concentrado em apagar incêndios dentro de casa. Ao menos uma grande economia parece estar indo bem.

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domingo, 22 de julho de 2018

Geraldo Alckmin, o establishment


Um grande choque de otimismo adicional atingiu o mercado financeiro brasileiro desde o final da tarde de quinta-feira. O Ibovespa saiu de 76.000 pontos na tarde do dia 19/06/2018 para fechar a semana no dia seguinte aos 78.571 pontos. O dólar recuou para R$ 3,77 acelerando o movimento corretivo de curto prazo. Os contratos de juros futuros da ponta curta voltaram para 6,70% (praticamente zerando o prêmio sobre a taxa básica de juros) enquanto os contratos futuros da ponta longa fecharam a sexta-feira abaixo do patamar de 11%, cerca de 2 p. p. inferior ao pico registrado mês passado.

A força compradora dominante observada na praça brasileira desde a tarde de quinta-feira se destoou um pouco do fluxo global, que apesar de ser comprador, ocorre em menor intensidade. Essa discrepância de força levou o Ibovespa superar o desempenho do iShares MSCI Emerging Markets, um dos ETFs de mercados emergentes mais famosos no mundo.


No gráfico acima, pode-se notar o espaço existente entre Ibovespa (linha pontilhada) versus MSCI Emerging Markets (linha preta), denunciando que no curto prazo o Ibovespa vem desempenhando bem melhor do que os seus pares emergentes.

Os descolamentos não são incomuns, mas analisar o GAP entre ambos os índices é importante para constatar ruídos regionais, ou mesmo esperar por mais alargamento ou fechamento entre as duas linhas. Analisando o histórico, o espaço para mais alargamento parece limitado, porém isso não significa que um fechamento ocorrerá no curto prazo.

É importante entender que essa diferença de desempenho de curto prazo do Ibovespa versus MSCI Emerging Markets tem um nome/driver: Geraldo Alckmin. O mercado nacional explodiu de felicidade (vide upside nos preços dos ativos de risco) a partir do momento em que começaram a surgir os primeiros rumores de que o pré-candidato do PSDB conseguiu fechar aliança com o famoso Centrão, o que lhe garantirá cerca de 40% de todo o tempo de televisão destinado à campanha presidencial.

O mercado pode ter agido positivamente por impulso, já que o Ciro Gomes, atualmente o nome mais forte da esquerda, estava quase fechando acordo com o Centrão para abocanhar todo esse tempo de televisão na campanha do primeiro turno. O contra-ataque de Alckmin para conseguir apoio do Centrão na reta final deu certo e surpreendeu.

Analisando os fatos recentes, com a poeira mais baixa, talvez a jogada de Alckmin não tenha sido tão boa quanto parece. A aliança com o Centrão mostra que PSDB está fazendo a política velha, aquela que o mundo não aguenta mais e criou brecha para vários outsiders assumirem o poder.

Bom lembrar que o Centrão foi criado anos atrás pelo Eduardo Cunha. Formado por um grupo significativo de parlamentares de diversos partidos, o Centrão consegue barrar qualquer pauta relevante no Congresso. O último presidente que resolveu comprar briga com o Centrão sofreu impeachment. Além disso, o Centrão está manchado por escândalos de corrupção, busca por cargos, verbas e vantagens próprias. É a política velha, ineficaz e corrupta que tem provocado total descontentamento da população.

O fato de Alckmin se aliar ao establishment político pode revelar, mais uma vez, falta de estratégia do PSDB. Atualmente em grande desvantagem nas pesquisas de intenção de voto, Alckmin vai dar as mãos (e se tornar refém) ao establishment em troca de alguns milhões do fundo partidário e tempo de TV para conseguir se deslanchar e chegar ao segundo turno. Estratégia muito arriscada nos dias atuais e nem um pouco ousada/criativa.

A população quer mudança, algo novo, e o PSDB chega para a disputa com uma tática velha. A população é fortemente influenciada pelas redes sociais (vide efeito das últimas greves) e o PSDB aposta no tempo de TV em plena era do Netflix e Wahtsapp. A população está furiosa com o Centão e o PSDB se torna o Centro do Centrão. O mundo está elegendo outsidiers e o PSDB veste a camisa do establishment.

O ônus da aliança com o Centrão parece ser maior do que o bônus proporcionado pelo fundo partidário e tempo de TV. Alckmin, pouco carismático e com histórico político no mínimo conturbado, perde totalmente o discurso de outsider e se firma inegavelmente como o candidato do establishment, da velha política brasileira.

O mercado de capitais aceita/compra o establishment, porém a população demonstra nas pesquisas um grande desejo por mudança. Jair Bolsonaro, oficializado hoje candidato do PSL à Presidência da República, líder nas pesquisas de intenção de voto com ausência do Lula, pode até se fortalecer com a guinada de Alckmin ao establishment.

Bolsonaro é o candidato mais forte, até o momento, a carregar uma imagem de anti-establishment. Um candidato muito perigoso, de um partido nanico/inexpressivo, com agenda imprevisível, que vai roubar votos de ambos os lados, principalmente da direita decepcionada com a velha política.

O candidato do PSL não fechou aliança com nenhum outro partido e se aproveita desse fato para bater no seu concorrente. “Eu queria agradecer ao Geraldo Alckmin por ter juntado a nata do que há de pior do Brasil ao seu lado”. Essa frase marcou o lançamento da candidatura de Jair Bolsonaro na tarde deste domingo, além de sinalizar mais uma campanha de erros estratégicos do PSDB.

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terça-feira, 17 de julho de 2018

Incertezas macro não tiram o sono de Jerome Powell


Durante sabatina ao Comitê Bancário do Senado dos Estados Unidos, o presidente do FED (Federal Reserve), Jerome Powell, adotou um tom mais otimista e traçou um cenário de poucas dúvidas sobre a trajetória de longo prazo para a economia norte-americana.

Powell foi fuzilado em vários temas polêmicos, como os impactos de uma guerra comercial, aceleração da inflação em torno da meta de 2% a ser perseguida pelo FED, achatamento na curva de juros futuros norte-americana, pacote tributário (aprovado ano passado), entre outros.

Nenhuma dessas variáveis parece estar tirando o sono de Jerome Powell. O presidente do FED afirmou que, em seu cenário base, a economia norte-americana está a caminho de vários anos de mercado de trabalho forte com inflação ancorada na meta de 2%.

Powell minimizou a guerra comercial, tema em forte discussão no mercado financeiro global, se limitando a dizer que deve avaliar o impacto das tarifas comerciais impostas pelo governo Donald Trump quando, de fato (e se), a economia for afetada pelo protecionismo. A postura de Powell pode sinalizar brecha para os Estados Unidos se defenderem elevando tarifas em alguns produtos-táticos, sem causar impacto significativo na economia ou no próprio saldo da balança comercial. Ou seja, pode-se esperar uma redução do déficit na balança, mas, a princípio, nada muito relevante.

Sobre a inflação, ponto chave para a estratégia de política monetária, Powell disse que ainda não é possível declarar vitória sobre o alcance da meta de 2%. O núcleo de inflação (índice de preço preferido pelo FED) alcançou a meta de 2% recentemente no mês de maio, entretanto, o presidente do FED não demonstrou tanta confiança no processo de aceleração da inflação.

Na avaliação do presidente do FED, a inflação subiu nos últimos meses influenciada pela alta mais agressiva nos preços de energia, que por sinal já começaram movimento de correção. Para ser possível declarar cumprimento da meta de inflação, Powell disse que o núcleo deve continuar exatamente em torno de 2% nos próximos meses.

Caso a correção nos preços de energia se materialize nos próximos meses, a inflação poderá apresentar leve recuo abaixo da meta, permitindo ampla manutenção do viés dovish na autoridade monetária norte-americana. Powell se mostrou confiante sobre a manutenção da inflação ancorada na meta de 2%, ao mesmo tempo em que a economia roda ao pleno emprego. Esse cenário cenário-base, na visão dele, pode perdurar por vários anos.

Indagado sobre o achatamento nas Treasurys, o presidente do FED se limitou a dizer que o movimento recente nas taxas de juros não o incomoda. É possível que Powell tenha identificado pressão maior para o fechamento das curvas nos próximos meses, ao invés de enxergar pressão para as curvas voltarem a abrir.

Importante ressaltar que o próprio discurso em tom otimista do presidente do FED é uma variável de influência importante não somente para que a ponta longa continue fechada, seguindo o movimento das últimas semanas, como para que a ponta curta pare de abrir e comece a fechar também.

Por fim, a quase pouco comentada estratégia de desalavancagem do balanço-monstro do FED, já em curso, está funcionando muito bem e sem problemas, na avaliação de Powell. Neste ponto o presidente do FED está com certa razão, até porque a redução da exposição em Treausrys e títulos lastreados em hipotecas tem sido muito pequena até o momento.

Aliás, enquanto a inflação permanecer ancorada na meta de 2%, Powell continuará com a razão na mão. Sem pressa para subir os juros (mantendo o ritmo de aperto em conta-gotas muito gradualista) e sem pressa para reduzir o balanço, talvez até mesmo o mercado continue na mão do FED por mais algum tempo.

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segunda-feira, 16 de julho de 2018

Fim da farra nas commodities


Sumidos do mercados de ações, bonds e moedas, os ursos estão mais concentrados, recentemente, no mercado de commodities. O call macro para abertura de posições vendidas começou no mês passado quando os países membros da Opep e a Rússia concordaram em aumentar a produção de petróleo.

A produção estava artificialmente reduzida há mais de um ano, quando os maiores produtores de petróleo do mundo entraram em acordo para forçar o aumento do preço do barril. O esforço no corte de produção funcionou e foi potencializado pela redução mais pesada na produção da Venezuela, Líbia e Angola (por motivos políticos e econômicos locais).

O cenário ficou propício para uma alta significativa no preço do barril de petróleo. O barril do tipo Light, negociado nos Estados Unidos, saiu de 42,05 dólares em junho do ano passado para uma máxima de 75,27 dólares neste ano. O barril do tipo Brent, negociado no Reino Unido, saiu de 44,35 dólares para uma máxima de 79,56 neste ano.

  
A arrancada no preço do barril de petróleo beneficiou os grandes países exportadores, mas também criou desgaste no ambiente macro global, especialmente com os Estados Unidos. Os norte-americanos pressionavam por um aumento de produção na Opep, acusando a Organização de manter preços artificialmente altos.

A Arábia Saudita, aliada dos Estados Unidos e uma das maiores produtoras de petróleo, já estava “convencida” a aumentar a produção. Havia um impasse apenas com o Irã, que foi vencido na reunião do mês passado. Desde o início deste mês, os países membros da Opep estão autorizados a produzir mais um milhão de barris de petróleo por dia, o que equivale a 1% da produção mundial.

Além disso, surgiram relatos de que a Arábia Saudita estaria oferecendo petróleo extra a alguns países na Ásia, aumentando a percepção de um possível aumento brusco no nível de oferta de petróleo no mercado, que até alguns meses atrás operava com déficit de oferta.

Outro destaque está no fortalecimento do presidente russo, Vladimir Putin, no cenário geopolítico. Putin aproveitou a copa do mundo para se encontrar com o príncipe saudita Mohammed Bin Salman, onde possivelmente articulou estratégias para calibrar a oferta de petróleo no mercado, atendendo desejos de várias lideranças políticas mundiais, incluindo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Ao assumir o papel de articuladora para o recente aumento da oferta de petróleo, a Rússia tenta retomar espaço, credibilidade e poder de influência, principalmente no mundo ocidental, onde a imagem estava mais desgastada.

Um forte gesto de retribuição foi emitido hoje por Donald Trump, ao afirmar que não vê motivo para acreditar mais em suas próprias agências de inteligência sobre uma suposta interferência da Rússia nas eleições presidenciais norte-americanas.

Putin e Trump se reuniram hoje em Helsinque, na Finlândia. Os dois líderes sinalizaram que podem trabalhar em conjunto para regular os mercados de petróleo e gás, reforçando o desejo das duas potências para redução dos preços do petróleo.

O gesto inesperado entre os dois líderes aumentou ainda mais a pressão vendedora sobre o barril de petróleo. Somente nesta segunda-feira, tanto o barril do Light, quanto o do Brent, tombaram mais de 4%.

A queda brusca no barril de petróleo está criando pânico no mercado de commodities e arrastando outras matérias-primas para baixo. O índice CRB Jefferies Reuters, uma das principais referências no segmento de commodities, perdeu a média móvel simples de 200 períodos diária.


A perda de uma importante média acompanhada por vários gestores e traders globais ratifica o cenário de mercado bearish para as commodities já constatado algumas semanas atrás através da perda de um importante canal de alta, com clássico movimento de pullback (círculo preto) no mesmo ponto da formação de um topo descendente dentro de um canal de baixa criado recentemente.

Com o movimento desta semana, o índice CRB detona mais um pivot de baixa com ausência de regiões de suporte relevante. Apesar de Putin já ter expressado conforto com o preço do barril do Brent em 60,00 dólares é impossível, neste momento, estimar ponto de equilíbrio no mercado de commodities.

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sexta-feira, 13 de julho de 2018

Por que o mercado não reagiu ao achatamento das Treasurys?


À primeira vista, o achatamento da curva de juros futuros norte-americano poderia estar, neste momento, emitindo um sinal de alerta. Players de mercado estão sempre de olho no spread da Treasury de 2 anos com a Treasury de 10 anos, pois todas as recessões ocorridas desde 1960 nos Estados Unidos foram precedidas por inversão/achatamento na curva dos juros futuros, ou seja, taxa de juros de 2 anos maior do que a taxa de juros de 10 anos.

O fato de o mercado exigir prêmio mais alto para emprestar dinheiro ao Tesouro norte-americano num prazo de 2 anos, ao mesmo tempo em que exige prêmio mais baixo para emprestar dinheiro ao Tesouro norte-americano num prazo de 10 anos, é um forte sinal de que as perspectivas para o cenário de curto prazo estão muito ruins. Ao exigir mais prêmio no título da ponta curta, o mercado pode estar projetando uma deterioração nos fundamentos macroeconômicos ou mesmo uma fase de recessão na economia.

A inversão da curva ainda não ocorreu. Isso significa que a Treasury de 2 anos está pagando juros inferior à Treasury de 10 anos. Entretanto, a diferença de prêmio entre os dois títulos do Tesouro norte-americano caiu para apenas 0,24 pontos percentuais nesta sexta-feira, registrando o menor spread em mais de uma década.

O spread entre a Treasury de 2 anos com a Treasury de 10 anos já foi mais de 2 pontos percentuais em 2014, ou seja, no passado não tão distante, a Treasury de 2 anos pagava cerca de 2 pontos percentuais a menos que a Treasury de 10 anos.


O gráfico acima revela a força do deslocamento da taxa de juros da Treasury de 2 anos (linha preta) versus taxa de juros da Treasury de 10 anos (linha pontilhada). Apesar de ambas as curvas estarem abertas, a Treasury de 2 anos atacou com mais força, chegando ultrapassar a intensidade do movimento observado na Treasury de 10 anos.

Ao contrário do que se esperava, a redução do spread para apenas 0,24 pontos percentuais não afetou o mercado. Pelo contrário, o clima de otimismo observado nas principais praças financeiras mundiais voltou a melhorar, relembrando o início pujante de 2018.

Utilizando o mesmo gráfico, porém com zoom, para focar no movimento de curto prazo, é possível entender porque o mercado não está preocupado com a redução do spread entre as Treasurys.


O ponto central continua sobre a intensidade do movimento. A Treasury de 2 anos, que vinha numa forte e preocupante arrancada, ao menos parou de abrir e está lateralizada desde o mês de maio deste ano (círculo verde). Isso significa que o mercado paga hoje praticamente o mesmo prêmio que pagava em maio para comprar Treasury de 2 anos.

Já a Treasury de 10 anos (reta azul) está fechada a curto prazo. Após registrar pico em 3,11% no mês de maio, a taxa da Treasury de 10 anos não somente parou de subir como voltou a cair, hoje sendo negociada aos 2,83%.

Portanto, apesar de o spread ter recuado para apenas 0,24 pontos percentuais, o mercado enxerga como positivo o fato de a Treasury de 2 anos ter parado de subir, hoje estagnada. Além disso, pode-se notar que a redução do spread observada desde maio ocorreu totalmente em função do fechamento da Treasury de 10 anos, hoje negociada num patamar ligeiramente inferior ao nível de longo prazo da FFR (Federal Funds Rate).

O fechamento da Treasury de 10 anos pode ser explicado pela calmaria de momento natural na política monetária do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), onde a comunicação muito antecipada, juntamente com uma abordagem gradualista, sem surpresas de percurso, tem evitado prolongação dos ciclos de tensão/volatilidade nos juros futuros locais.

Além disso, joga a favor a avaliação de Wall Street (explicada no último post) sobre a guerra comercial de Donald Trump, muito diferente do que se comenta pela imprensa. O ambiente positivo de Wall Street já contaminou grande parte das praças financeiras mundiais.

Nikkei, no Japão, fechou a semana em forte alta, recuperando quase toda a perda registrada no mês passado. Na China, a bolsa de Xangai saiu de 2.700 pontos registrados na semana anterior para fechar esta sexta-feira aos 2.831 pontos. A bolsa de Bombay, na Índia, alcançou nova máxima em 2018 e renovou recorde. Rússia fechou em alta pela quarta semana consecutiva, retomando patamar de preço registrado no mês de maio. México opera em forte rali no curto prazo, saindo de 185 pontos para 207 pontos nesta sexta-feira, mesmo com vitória nas eleições presidenciais de um candidato de esquerda.

No Brasil, o Ibovespa fechou em alta pela terceira semana consecutiva, na máxima do mês de julho, acompanhando a dinâmica observada em várias outras bolsas de valores mundo afora. Nos Estados Unidos, o índice S&P500 inicia rompimento dos 2.800 pontos, fechando em forte alta pela segunda semana consecutiva. Nasdaq está fazendo seu show à parte, renovando máxima do ano e alcançando mais um recorde histórico. Os touros estão de volta, ao menos por enquanto.

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terça-feira, 10 de julho de 2018

Wall Street compra guerra comercial de Donald Trump


Há algumas semanas o noticiário macro global é dominado pelo notório desgaste comercial entre Estados Unidos e China. As ameaças de Donald Trump de implementação de tarifas de importação estão começando a sair do papel, com elevado potencial de impacto em diversas economias, principalmente na China.

As retaliações, principalmente por parte dos chineses (as mais esperadas), por enquanto são consideradas modestas, o que tem deixado players de mercado menos pessimistas ou até mesmo otimistas. A paciência dos chineses será testada novamente com a possibilidade de surgimento de uma nova lista negra norte-americana de imposição de tarifas sobre 200 bilhões de dólares em produtos made in China.

Enquanto as retaliações continuarem modestas ou desproporcionais ao calibre da artilharia protecionista de Donald Trump, é possível entender que o momento atual, apesar de extremamente delicado, ainda possa ser encarado como uma disputa comercial caliente, mas não ao ponto de alcançar o status de uma guerra comercial total.

Curioso, mas não tanto, notar que Wall Street não se abalou com o acirramento comercial de Donald Trump com o resto do mundo. Pelo contrário, o ambiente no mercado norte-americano é consideravelmente positivo. O índice S&P500 continua se apoiando acima da média móvel simples de 200 períodos diária, formando fundos ascendentes desde o mês de abril/2018, já iniciando teste sobre a principal linha de resistência, localizada aos 2.800 pontos.


A recuperação do S&P500 está limpando posições vendidas em aberto na praça, o que pode aumentar a chance de rompimento ascendente da importante linha de resistência nos próximos dias/semanas. Este cenário reforçaria ainda mais o status de um mercado norte-americano comprador, ao menos a curto prazo, em pleno acirramento da disputa comercial, onde grande parte dos analistas consideram prejudicial aos negócios e a economia.

As Treasurys da ponta longa também deram uma trégua. A referência (taxa de juros do título do Tesouro norte-americano de 10 anos) apresenta fechamento da curva à curtíssimo prazo, atualmente negociada aos 2,87% ao ano, após testar o nível de 3,11% no mês de maio/2018. O recuo no rendimento da Treasury de 10 ano demonstra supremacia de um mercado comprador no curto prazo.
  

Aliado ao cenário de bolsa comprada e juros fechando, o dólar contra cesta de moedas globais segue fortalecido. Este pode ser um sinal de que o fluxo de capitais está apostando numa eventual vitória dos Estados Unidos após o desfecho dessa disputa comercial, justamente o contrário do que se observa no noticiário.

Alguns investidores norte-americanos já começam a traçar um paralelo (exagerado) da situação atual com o momento Reagan da década de 1980, onde o então presidente Ronald Reagan comprou uma disputa armamentista arriscada com a União Soviética. Na época, os Estados Unidos tinha uma situação econômica e fiscal melhor para se sobrepor à União Soviética, induzindo os russos ao limite.

Novamente, os norte-americanos estariam em vantagem ao comprar uma disputa, desta vez tarifária, com a superpotência rival China. Além do gigantesco déficit comercial desfavorável aos norte-americanos (o que facilita a compra de uma disputa, por já estar em ampla desvantagem), os chineses se meteram num cheque-mate por estarem entupidos de títulos do Tesouro norte-americano.

Qualquer impacto nos Estados Unidos poderia afetar significativamente as reservas internacionais chinesas, que, por sinal, é justamente o colchão que blinda a economia da China, ao menos por enquanto, de uma crise de crédito no sistema financeiro local. Os chineses precisam manter muita bala na agulha para mostrar ao mercado que a economia está sob controle, mesmo diante das aberrações de cidades fantasmas e negócios improdutivos que não quebram.

Na verdade, qualquer país que comprar uma disputa comercial contra os Estados Unidos corre sério risco de sair perdendo. A economia norte-americana é menos dependente dos mercados externos, altamente diversificada, possui mão de obra qualificada, mercado consumidor mais robusto, detentora da impressora da moeda de troca global e o fluxo ainda corre como nunca no mercado da dívida soberana local, considerado o mais líquido do mundo.

Outro ponto responsável por elevar o ânimo de Wall Street em plena disputa comercial está relacionado ao rompimento de um viés mais hawkish observado nos comunicados do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) nos últimos meses. As incertezas sobre as relações comercias podem forçar o FED revisar seu plano de desalavancagem financeira, voltando para uma abordagem mais dovish, ou mesmo interrompendo temporariamente o processo (tanto de alta da taxa básica de juros, quanto da redução do balanço).

O que poderia soar como negativo à economia global tem sido motivo de celebração, ao menos por enquanto, em Wall Street.

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