quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Alarme de flattening nas treasurys é acionado


Poucas semanas depois de um discurso muito otimista de Jerome Powell, presidente do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), as taxas de juros das Treasurys voltaram abrir com força. Este novo movimento chama atenção por surgir num momento delicado.

O clima no mercado financeiro global já está mais pesado por conta do sell-off na bolsa de Xangai, além do recente nocaute sofrido pela Turquia e Argentina. Os banqueiros centrais que não estão em alerta máximo, deveriam estar.

Powell foi pego no contrapé. Durante o importante simpósio anual de política monetária do FED, realizado em Jackson Hole, o chair da autoridade monetária norte-americana passou impressão de estar com o mercado sob controle, com números de crescimento econômico, inflação e taxa de desemprego muito favoráveis na mão.

Entretanto, nesta semana, o mercado desarmou o diagnóstico otimista de Powell com o novo rali nas taxas de juros dos títulos do Tesouro norte-americano. Os números macro ainda podem ser positivos, mas os números dos negócios no mercado de bonds mostram perigo à vista.

A taxa de juros da Treasury de 2 anos, até então lateralizada e comportada, voltou abrir fortemente nos últimos dias, renovando novo recorde do ano. Até o final do mês passado, a taxa estava ancorada em 2,60% ao ano, patamar não muito confortável, porém sem apresentar risco de flattening.


Nos últimos dias, a taxa saltou 0,16 p.p. de forma rápida e agressiva, fechando o pregão desta última terça-feira aos 2,76% ao ano. A taxa de juros da Treasury de 10 anos também voltou a subir, se aproximando novamente da famosa red line dos 3% ao ano.

Gestores de Wall Street estão sempre de olho entre o spread da Treasury de 2 anos com a Treasury de 10 anos, simplesmente porque todas as recessões ocorridas desde 1960 foram precedidas por inversão clássica na curva, ou seja, taxa de juros de 2 anos em ascensão, superando a taxa de juros de 10 anos.

Prêmio mais elevado na ponta curta, comparado ao prêmio menor praticado na ponta longa, normalmente é considerado uma sinalização relevante de alerta. Tanto por um risco negativo iminente para o quadro macroeconômico, quanto por uma reação aos preços dos ativos supostamente desenquadrados dos fundamentos (na avaliação do mercado).

Pode ser mera influência do estresse na Argentina e Turquia, do pouco comentado sell-off na bolsa de Xangai, da disputa comercial entre Donald Trump e Xi Jinping, do BCE (Banco Central Europeu), que está preparando sua rota de desalavancagem, da própria expectativa para a economia norte-americana, onde alguns analistas suspeitam de superaquecimento, ou do conjunto de todos esses fatores.

Fato é que as curvas voltaram abrir, e forte, bem na espinha dorsal do sistema financeiro mundial. Com este novo movimento, o alarme de flattening nas treasurys está acionado, podendo acentuar o impacto generalizado já observado (taxas de juros mais elevadas, depreciação de moedas, mercados acionários mais voláteis) nas demais economias do planeta (tanto desenvolvidas, quanto emergentes).

O spread entre a Treasury de 2 anos (linha preta) verus Treasury de 10 anos (linha vermelha) está em apenas 0,22 p.p. A distância já foi menor no final do mês de julho, porém com a taxa de 2 anos lateralizada e a taxa de 10 anos recuando, apresentava pouco risco de flattening.


O cenário mudou drasticamente neste momento, com ambas as curvas abrindo fortemente. Além disso, a Treasury de 2 anos já consegue acumular dois meses de ganho mais forte, ratificando uma trajetória de curva consistentemente acima da Treasury de 10 anos, aumentando o risco de flattening, que se confirmado, poderá alterar a dinâmica de mercado que estávamos acostumados a observar nos últimos nove anos.

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terça-feira, 11 de setembro de 2018

A novidade da renda fixa no primeiro ETF de renda fixa


O mercado financeiro nacional comemora, muito timidamente, e com razão, o lançamento do primeiro ETF de renda fixa no Brasil. Gerenciado pelo grupo Mirae Asset Global Investments, o ETF tem objetivo de replicar o desempenho do S&P/BM&F Índice de Futuros de Taxa de Juros – DI 3 Anos ER.

Os inegáveis pontos positivos deste primeiro ETF de renda fixa estão na razoável taxa de administração (mínimo de 0,30% ao ano e máximo de 0,40% ao ano), possibilidade de negociação no mercado secundário (pregão da B3) com apenas uma única cota (atualmente negociada em R$ 10,05) e, principalmente, benefício fiscal. Não haverá incidência de come-cotas, como ocorre nos fundos de renda fixa negociados nas prateleiras de bancos e corretoras. Além disso, não haverá aplicação da tabela regressiva. A alíquota de imposto de renda será de 15%, independente do período de investimento no ETF.

Existe grande potencial para o mercado de ETFs de renda fixa crescer no Brasil. Cerca dos 4,3 trilhões de reais pertencentes à indústria de fundos no país, 1,9 trilhão está alocado em fundos da classe de renda fixa. Grande parte deste capital alocado em fundos da classe de renda fixa está sob domínio de gestores que cobram elevada taxa de administração e, ao mesmo tempo, entregam rentabilidade inferior ao CDI.

O código BM&FBovespa deste primeiro ETF de renda fixa é pouco prático e difícil de ser lembrado: FIXA-ETF01L1. Se você quiser observar o book de ofertas, ver o gráfico ou mesmo negociar este ETF, precisará digitar esta “longa senha” para passar pela porta secreta do mercado de renda fixa criada nesta segunda-feira.

Bom seria se este fosse o único ponto negativo deste primeiro ETF. A metodologia do índice de referência não tem nada a ver com a oscilação de preços dos contratos de juros futuros, nem com os preços dos títulos do Tesouro Direto, nem com o mercado de renda fixa pós-fixado. Algo inédito para muitos investidores brasileiros.

Pelo que se observa nas matérias veiculadas nas mídias especializadas em mercado financeiro, entende-se que S&P/BM&F Índice de Futuros de Taxa de Juros – DI 3 Anos ER é uma espécie de réplica da oscilação de preço do contrato de juros futuros com vencimento em 3 anos, o que está completamente errado.

O índice, calculado pela S&P, mede o retorno de uma carteira de contratos de juros futuros corrigida pelo mecanismo de excesso de retorno. De forma bem resumida e grosseira, o excesso de retorno mostra o nível de um índice subtraído pelo custo de financiamento/empréstimo (CDI) que um investidor teria ao investir neste índice.

A novidade neste ETF de renda fixa é justamente fazer a réplica de um índice de renda fixa com metodologia de excesso de retorno, algo inicialmente de difícil entendimento. O índice vai medir o retorno do DI1 de 3 anos a 2 anos e 6 meses corrigido pela Taxa DI-Cetip (CDI). Isso significa que o ETF, que precisa seguir o deslocamento do índice de referência (S&P/BM&F Índice de Futuros de Taxa de Juros – DI 3 Anos ER), vai ter uma dinâmica diferente do pós-fixado, do pré-fixado Tesouro Direto (cai de preço quando a taxa sobe) e do pré-fixado contrato futuro - DI1 (sobe de preço quando a taxa sobe).

Utilizando como exemplo o gráfico do contrato de juros futuros com vencimento em 2021, pode-se observar que no dia 20/04/2018 a taxa foi negociada aos 7,85% ao ano. No dia 14/06/2018 a taxa foi negociada aos 10,50% ao ano. Um investidor que comprou DI1F21 no dia 20/04/2018 e vendeu (liquidou) DI1F21 no dia 14/06/2018 teria embolsado lucro de quase 35% na operação. Um investidor que comprou LTN 2021 no dia 20/04/2018 e vendeu (liquidou) LTN 2021 no dia 14/06/2018 teria assumido prejuízo de quase 35% na operação.


Já no S&P/BM&F Índice de Futuros de Taxa de Juros – DI 3 Anos ER a oscilação no período foi bem diferente, conforme pode-se notar nos gráficos abaixo. Pontuação do índice de referência no dia 20/04/2018:


Pontuação do índice de referência no dia 14/06/2018:
  

A variação deste ETF de renda fixa teria sido, portanto, de pouco menos de 5% negativo neste mesmo período, justamente por conta da complicada metodologia de cálculo diferenciada.

O primeiro ETF de renda fixa pode não ter sucesso por conta da metodologia que apresenta uma novidade de cálculo que o brasileiro não está acostumado a fazer. Entretanto, o próximo ETF de renda fixa pronto para sair do forno, com apoio do Tesouro Nacional e Banco Mundial, será mais prático e de fácil entendimento.

No primeiro semestre de 2019 o Itaú Asset Managment deverá lançar o ID ETF, com taxa de administração de 0,25% ao ano e objetivo de replicar o índice IMA-B, que por sua vez representa a oscilação de preço de uma carteira composta por NTNBs. Simples, objetivo e barato.

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quinta-feira, 6 de setembro de 2018

O mito vira mártir


Jair Bolsonaro, candidato à presidência de república, conhecido como o mito pelos seus apoiadores/seguidores, acaba de se transformar em um mártir brasileiro. De forma lamentável e inadmissível, Bolsonaro foi esfaqueado na tarde desta quarta-feira durante campanha na cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais.

O profundo golpe de faca, lesionando o intestino grosso e delgado, além de uma veia abdominal, deixa o candidato à presidência em risco de vida e pode sinalizar uma tentativa de assassinato. O agressor, devidamente preso em flagrante, é um homem de 40 anos que foi filiado ao PSOL entre 2007 e 2014 e teve passagem pela polícia em 2013 por lesão corporal. O ataque teve motivações políticas e religiosas.

O evento ocorrido nesta quinta-feira gera impacto político relevante. A agressão covarde, de cunho ideológico, transforma Bolsonaro numa vítima da polarização no país. Muitos, que não admitiam pensar na hipótese de votar em Bolsonaro, provavelmente o farão por pura e simples comoção.

Diante de atentados ou atos covardes, o ser humano tende a se comover a favor da vítima e se revoltar contra o agressor. Bolsonaro entra para a história da política brasileira se tornando um mártir na eleição mais imprevisível desde o processo de redemocratização. O fato de a agressão ter partido de um ex-filiado do PSOL joga por terra o discurso de vitimização capitalizado pela esquerda.

A partir de agora, Bolsonaro terá motivos mais do que suficiente para roubar parte (ou boa parte) dos votos dos eleitores que se sentem indignados ou vitimizados, que até então pareciam refletir esse sentimento na candidatura folclórica de Lula. Além disso, os concorrentes de direita, como Geraldo Alckmin, João Amoedo e Henrique Meirelles, terão de moderar o discurso contra Bolsonaro em suas respectivas campanhas, ou focar ataques em outras figuras na tentativa de colher votos.

Nenhum político, aliás, se sentirá confortável para subir o tom ou atacar firmemente Bolsonaro após o evento desta quinta-feira, que pode ser encarado como um atentado à democracia ou um crime político. Pelo contrário, a chance de os opositores almejarem votos, neste momento, é se solidarizando com Bolsonaro.

Os cálculos de investidores e players de mercado, neste momento, não se referem à chance de Bolsonaro ir ao segundo turno, mas sim de o candidato alcançar uma vitória já em primeiro turno. Até alguns dias atrás, o risco de vitória em primeiro turno era da esquerda. Por conta disso houve uma mistura de moderação imediata após o evento e posterior alvoroço nos preços dos contratos futuros negociados após o fechamento do pregão à vista.

Eventos desta magnitude possuem elevado ganho de capital político. Muitos no mercado começam a traçar paralelo de Bolsonaro com a família Kennedy. Eleito presidente dos Estados Unidos em 1960, John Fitzgerald Kennedy (para muitos, John F. Kennedy), foi assassinado em 1963 em Dallas, no Texas, por disparos de um ex-fuzileiro naval. A disputa presidencial de 1960, contra Richard Nixon, foi considerada uma das mais disputadas da história.

O assassinato de John F. Kennedy gerou grande comoção nacional por um longo período, ao ponto de projetar seu irmão mais novo, Robert Francis Kennedy, a candidato para eleição presidencial de 1968. Robert F. Kennedy venceu as primárias do partido Democrata, se portando como forte candidato à eleição presidencial, mas não conseguiu concorrer ao pleito, pois foi assassinado por um imigrante palestino.

A tragédia da família Kennedy é um dos casos mais relevantes de comoção política no mundo. É diferente em alguns aspectos quando se compara com o caso de Bolsonaro, mas os elementos-chave são semelhantes. Cenário de polarização elevada, tentativa de assassinato, evento catalisador de sentimentos de boa parte da população e fato provocador de forte e longa exposição à mídia.

Pode transparecer muita frieza tratar sobre esses assuntos, mas é isso que os investidores e players de mercado estão estudando neste exato momento. As luzes estão acesas nos escritórios das assets. Por fim, fica o desejo de pronta recuperação a Jair Bolsonaro, o mito que virou mártir.

Esse texto não deve ser considerado uma intenção de voto pessoal, nem inclinação a determinado político ou partido, mas, talvez, um alerta para manutenção do Estado democrático de direito.

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segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Macri à la Kirchner


Mauricio Macri, quem te viu, quem te vê. Eleito presidente da Argentina em 2015, com a promessa de uma guinada liberal, uma de suas primeiras medidas era justamente acabar com as chamadas retenções, os pesados impostos cobrados sobre as exportações agrícolas.

Criado para financiar os elevados gastos ineficientes do governo Cristina Kirchner, as retenções, que chegavam a 35% para o caso da soja, eram consideradas umas das grandes travas ao crescimento sustentado de longo prazo. Apesar de a Argentina ser um dos maiores produtores de grãos do mundo, beneficiada pela qualidade do solo e alta produtividade do setor, as retenções prejudicavam sensivelmente a competitividade dos produtos agrícolas no mercado externo.

Em dezembro de 2015, Macri cumpriu sua promessa, eliminando as retenções sobre as exportações agrícolas. O objetivo era incentivar as exportações, proporcionando entrada de divisas para recomposição das reservas do Banco Central, além de impulsionar o crescimento e gerar valor agregado.

A redução da receita de curto prazo no caixa do governo, fruto da eliminação das retenções, seria compensada, a médio e longo prazo, pelo aumento dos impostos sobre os lucros das empresas do setor. Segundo projeções da Sociedade Rural Argentina, a medida tinha potencial de duplicar a produção de alimentos em 5 anos e criar mais valor aos produtos exportados. Esse processo poderia permitir que, gradualmente, a Argentina deixasse de ser uma espécie de seleiro do mundo para se transformar num supermercado do mundo.

Pressionado para apresentar melhora no quadro fiscal ao FMI (Fundo Monetário Internacional), garantindo recebimento das bilionárias parcelas de socorro financeiro, Macri vestiu a máscara do kirchnerismo e anunciou o retorno das retenções.

Afinal, é muito mais fácil fazer ajuste fiscal através do aumento de impostos, principalmente ao selecionar alguém (setor) para pagar a conta, do que aumentar imposto para todos ou simplesmente cortar gastos ineficientes. Uma tarifa de quatro pesos por dólar será cobrada para as exportações de produtos do setor primário. Para os demais produtos exportados, a tarifa a ser cobrada será de 3 pesos por dólar.

Juntamente com o pacote de aumento de impostos às exportações, Macri prometeu reduzir pela metade o número de ministérios. Esta última não passa de um enfeite, pois os ministros e funcionários serão mantidos no governo. Os ministérios que serão cortados serão convertidos em secretarias de Estado. Portanto, para efeito fiscal, nada muda com os cortes de ministérios. O ajuste fiscal virá praticamente do aumento de impostos.

Para o FMI, pouco importa se a Argentina terá de aumentar impostos ou cortar gastos. A instituição quer previsão concreta de superávit primário para acelerar a liberação das parcelas de ajuda financeira. A nova meta acertada em conjunto com o FMI tende a ficar em torno de 2,6% de déficit em 2018, equilíbrio em 2019 (zero) e superávit de 1% em 2020.

A forte virada de um déficit fiscal (atualmente cerca de 4% do PIB) para um superávit de 1% do PIB, num curto espaço de tempo, será proporcionada, principalmente, pelo efeito da taxação sobre as exportações. Uma reversão fiscal tão rápida a custa de carga tributária só reforça a fragilidade do governo, que não consegue maioria no Congresso para cortar gastos.

A Argentina gasta cerca de 70% do orçamento para preencher cheques, desde seguridade social até aos salários de servidores na ativa. Restam apenas 30% do orçamento para todo o resto. Essa conta está invertida e vai quebrar o país, mais uma vez, cedo ou tarde.

A Argentina só chegou a esse ponto catastrófico porque o Banco Central pode emitir dinheiro através das famosas Lebacs (Letras do Banco Central), coisa que, felizmente, o Banco Central do Brasil não pode fazer.

Na prática, funciona da seguinte forma. Se a Argentina gasta 10 pesos e arrecada apenas 6 pesos, tem um rombo de 4 pesos para tapar. O governo, portanto, vai ao mercado em busca de um empréstimo de 4 pesos, mas consegue captar apenas 3 pesos. Para garantir este 1 peso restante, o governo recorre ao Banco Central, que, por sua vez, emite Lebacs para captar dinheiro no mercado.

As Lebacs são interessantes do ponto de vista político, pois financiam os gastos públicos e não entram no cálculo da dívida pública, uma das ideias brilhantes do kirchnerismo. Por outro lado, a emissão de Lebacs cria inevitável efeito colateral da inflação. O resultado financeiro do Banco Central atualmente está em torno de 10 bilhões de dólares déficit/ano, o que representa 1/5 do pacote total de socorro do FMI.

É impossível acabar com a inflação mantendo as Lebacs no mercado, outra falha da atual gestão. Manter os erros do passado só aumenta a responsabilidade do fracasso do presente. Macri assumiu a Argentina na esperança apresentar um banquete liberal ao mercado, mas seu governo acabou se tornando numa salada à la Kirchner.

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quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Argentina, a segunda peça do dominó


Cerca de três semanas atrás a Turquia foi o primeiro país emergente a experimentar a fúria de um mercado vendedor, numa intensidade não observada desde o crash do subprime em 2008. Em poucos dias a lira turca estava totalmente nocauteada, chegando ao ponto de o presidente, Tayyip Erdogan, implorar em rede nacional para que seus cidadãos troquem dólares e barras de ouro debaixo dos colchões por lira turca.

A atitude desesperadora do presidente da Turquia apenas colaborou para exacerbar as adversidades macroeconômicas acumuladas no passado. Hoje a lira turca é negociada numa cotação ainda menor em relação ao dólar com aquela praticada três semanas atrás.

O mercado simplesmente atropelou sem dó nem piedade. O problema é que, ao notar os problemas evidentes na Turquia, investidores e players de mercado passaram a olhar com mais cuidado os fundamentos de outros países emergentes possivelmente em situação semelhante. Nesta análise sob lupa, a Argentina apareceu nos monitores com o sinal vermelho piscando.

Bastou alguns dias para os argentinos caírem de joelhos. O tombo do peso foi dramático, pois parecia premeditado e o governo local bem que tentou agir preventivamente na tentativa de se defender de um ataque esperado.

No dia 14 de agosto, o Comitê de Política Monetária do Banco Central da Argentina aprovou em reunião emergencial, fora do calendário, aumento da taxa básica de juros de 40% para 45% ao ano, comprometendo manter este nível até outubro/2018. Outras medidas emergenciais ortodoxas, como o plano para redução do estoque de Lebacs (Letras do Banco Central – bônus local) do mercado e melhoras na eficácia da política monetária, também foram anunciadas neste dia.

Não funcionou. A Argentina apenas comprou tempo. Nesta semana o mercado local foi arrasado, acabando, por enquanto, com qualquer possibilidade de reeleição do presidente Mauricio Macri ano que vem. O dólar alcançou o recorde de 40 pesos nesta quinta-feira, fechando o pregão a 37,96 pesos, significativamente acima dos 3,50 pesos negociados em 2008 e 8,50 pesos quando Macri assumiu o governo. Um desastre.


Mais curioso é que o mercado atacou um governo ortodoxo, que vinha fazendo o possível para ordenar a casa desarrumada deixada pela heterodoxia em excesso da era kirchnerista. Muitos especulam que a Argentina está sendo afetada pelo baixo clima de confiança entre consumidores e empresários, além da inflação galopante que Macri não conseguiu contornar, atualmente em 31,2% no acumulado dos últimos 12 meses.

São pontos relevantes que temperam a desarrumação macro local, porém o elevado endividamento, principalmente em moeda estrangeira, é o ponto crucial que atraiu a fúria do mercado. A dívida da Argentina não é considerada tão elevada para os padrões atuais (57,1% do PIB), mas o problema são as obrigações em moeda estrangeira que o governo não conseguirá honrar com a taxa de câmbio neste nível.

Macri foi a TV dias atrás pedir calma à população, afirmando que o FMI (Fundo Monetário Internacional) concedeu uma ajuda de 50 bilhões de dólares para a Argentina, considerada a maior da história. Um primeiro aporte de 15 bilhões de dólares já foi realizado, mas nada disso foi suficiente para segurar a enorme pressão vendedora sobre a moeda.

Nesta quinta-feira, o Banco Central da Argentina decidiu, em nova reunião emergencial, aumentar abruptamente a taxa básica de juros, de 45% para incríveis 60% ao ano, comprometendo mantê-la neste patamar pelo menos até dezembro/2018. A autoridade monetária também decidiu elevar em 5% as reservas mínimas para todos os depósitos das instituições financeiras, tanto à vista quanto a prazo. É uma estratégia radical para tentar combater a inflação através da redução da liquidez no mercado.

Tal como os turcos, os argentinos não reconhecem publicamente as deficiências macro e culpam a turbulência do ambiente internacional pelo choque nos preços dos ativos locais. O desequilíbrio fiscal é notadamente um grave problema observado na Turquia e Argentina.

Com a Argentina protagonizando o tombo da segunda peça do dominó, especula-se no mercado quem será a terceira peça a cair. O alvo está claramente em países emergentes com as contas desajustadas. Importante ressaltar que a avaliação dos brasileiros parece subestimar a gravidade da situação.

Embora maior parte de nossa dívida esteja denominada em moeda local, além do fato de as reservas do Banco Central do Brasil serem capazes de quitar todos os compromissos em moeda estrangeira, o que não deixa de ser um bom alívio, ainda assim somos um país com endividamento de 75% do PIB, em ascendência, sem nenhuma perspectiva para alcançar superávit fiscal, mesmo no longo prazo. Estamos brincando com a sorte. Turquia e Argentina caíram por menos.

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terça-feira, 28 de agosto de 2018

Afrouxamento monetário está com os dias contados na Europa


O BCE (Banco Central Europeu) anunciou no mês de junho/2018 a intenção de encerrar seu programa agressivo de compras mensais de ativos ainda neste ano. A partir deste mês de setembro, as compras mensais de bônus serão reduzidas para apenas 15 bilhões de euros. Em dezembro, o BCE vai realizar sua última rodada de compra mensal, para, no mês seguinte, suspender totalmente o programa.

Apesar de ter anunciado a suspensão no mês de junho, muitos analistas criticaram a postura excessivamente dovish do BCE, ao antecipar que não pretende subir a taxa básica de juros antes de setembro de 2019, além de continuar reinvestindo os títulos que forem vencendo no balanço com novas compras.

Na teoria, o BCE utilizou um discurso para dar impressão de que está tentando reduzir a distância de percurso em relação ao FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) e ao BoE (Bank of England), mas na prática a política monetária continuaria frouxa com a taxa de refinanciamento em zero, taxa de depósito interbancário negativa (em -0,4%) e 2,6 trilhões de euros sendo rolados no balanço da autoridade monetária.

O vício acomodatício do BCE pode ser explicado pelo temor de impacto da oscilação do dólar sobre o euro. O movimento de apreciação do dólar contra o euro é considerado relevante e ganhou força no mês de maio deste ano. O alívio observado nas últimas semanas ainda é insuficiente para demonstrar uma reversão de tendência e/ou fortalecimento do euro.


Há algum tempo, autoridades de bancos centrais da Alemanha e de outros países do norte da Europa estão pressionando o BCE por uma normalização das condições monetárias, até para que a instituição possa ter mais munição para enfrentar um futuro desaquecimento na economia.

Mario Draghi, presidente do BCE, também defende que não há perspectiva para começar a reversão do balanço de 2,6 trilhões de euros, porém, nesta terça-feira, o economista-chefe do BCE, Peter Praet, emitiu o primeiro sinal de que esta visão excessivamente dovish, sustentada principalmente por Draghi, pode mudar em breve.

Praet afirmou que os riscos associados à política monetária ultra expansionista do BCE precisam ser monitorados mais de perto após anos de expansão econômica, numa clara sinalização de pé no freio.

O alerta de Praet revela conscientização dentro da autoridade monetária de que os efeitos colaterais provocados pelo programa maciço de compra de ativos podem estar pesando mais do que os benefícios provocados por este. Entende-se por efeito colateral os preços inflados dos títulos da dívida soberana de vários países europeus e/ou mesmo aquecimento de alguns setores, como o mercado imobiliário.

As taxas dos títulos do tesouro norte-americano, por exemplo, que operavam em mínima histórica, subiram ao longo dos anos após o início do processo de normalização das condições monetárias, encontrando, nos últimos meses, ponto de equilíbrio no curto prazo. O mesmo movimento poderá ocorrer com as taxas dos títulos da dívida soberana na Europa quando o BCE iniciar o processo de desalavancagem.

O deslocamento das taxas dos títulos da dívida soberana norte-americana causaram impactos no mercado de renda fixa do mundo inteiro, arrastando para cima taxas de juros de países desenvolvidos e emergentes. Isso significa que existe a possibilidade de este movimento ser potencializado quando o BCE iniciar sua nova fase de política monetária, até porque, neste estágio, menos dinheiro deverá circular no sistema financeiro global.

Outro ponto que corrobora para os dias contatos do afrouxamento monetário na Europa está na substituição do presidente da autoridade monetária em 2019. Mario Draghi encerra seu mandato em outubro do próximo ano e seu possível substituto é nada mais nada menos que Jens Weidmann, chair do Bundesbank (Banco Central da Alemanha), profissional de viés reconhecidamente hawkish no mercado, por sinal um dos maiores críticos da política monetária expansionista do BCE.

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segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Donald Trump vence mais uma grande batalha


Está ficando cada vez mais difícil para a imprensa norte-americana sustentar argumentos políticos/econômicos contra o presidente Donald Trump. A Casa Branca surpreendeu o mundo novamente nesta segunda-feira ao anunciar um novo acordo comercial com o México, fruto de um movimento ousado e muito criticado no passado.

Cumprindo mais uma promessa de campanha, Trump anunciou cerca de um ano atrás a intenção de acabar com o Nafta e construir um novo acordo comercial mais favorável aos Estados Unidos. Um ano depois, após várias rodadas de negociações, os norte-americanos conseguiram chegar ao consenso com os mexicanos.

O novo pacto será conhecido como Acordo de Comércio Estados Unidos-México, substituindo o antigo Nafta. O acordo poderá ter a inclusão do Canadá, que não estava participando das rodadas de negociações. No entanto, o escritório da ministra canadense do Exterior, Chrystia Freeland, informou em nota após a notícia que sua ministra vai viajar a Washington amanhã para dar início às conversas.

Trump tem motivos de sobra para comemorar, pois o novo acordo parece ser mais favorável aos norte-americanos, além de fortalecer toda região. Entre os principais termos do novo pacto, destaque para obrigatoriedade de fabricação de 75% do conteúdo automotivo nos Estados Unidos ou México, superior aos atuais 62,50%.

O acordo também oferece mais direitos aos sindicatos mexicanos, além de exigir que 40% a 45% do conteúdo automotivo seja fabricado por trabalhadores que ganhem pelo menos 16 dólares por hora, ponto importante para frear o forte êxodo de indústrias dos Estados Unidos para o México observado nos últimos 20 anos.

Avanços também foram realizados a fim de melhorar o comércio agrícola na região. As novas regras manterão acesso livre de obrigações a bens agrícolas de ambos os lados da fronteira, eliminando barreiras não tarifárias para encorajar mais o comércio. O acordo tende a beneficiar fazendeiros norte-americanos, que operam com uma estrutura mais moderna, mecanizada e de maior escala. Por outro lado, não é tão prejudicial aos mexicanos, que vão apenas, aos poucos, fazer menos negócios com fornecedores de outros países, fora da região, para fazer mais negócios com fornecedores agrícolas norte-americanos.

Fechar acordo com os mexicanos foi importante, também, para pressionar o Canadá ainda mais, que atualmente é o segundo maior parceiro comercial dos Estados Unidos. Até então os canadenses estavam fazendo o possível para manter as condições do novo acordo semelhante ao "padrão Nafta".

Agora, com duas partes do bloco chegando ao consenso, os canadenses ficaram em desvantagem e podem sofrer uma negociação mais dura com os norte-americanos. Nas negociações que serão retomadas nesta semana, os Estados Unidos chegam para a mesa com um acordo selado na mão, restando ao Canadá fazer o possível para se manter dentro do bloco e transformá-lo numa espécie de Acordo de Comércio Estados Unidos-México-Canadá.

Apesar da necessidade de aprovação pelo Congresso dos Estados Unidos, o acordo não deixa de ser mais uma grande vitória de Donald Trump. Poucos acreditaram na possibilidade de renegociação do Nafta, concretizada hoje. Trump tinha as cartas na mão e precisou apenas pressionar para conseguir algo, a princípio, melhor para os norte-americanos.

Além disso, Trump quebra um pouco a imagem de protecionismo com o anúncio de um novo acordo comercial. Demonstra ao mundo que os Estados Unidos não querem fechar as portas para o comércio, mas sim reduzir seu enorme déficit na balança comercial e realizar transações mais justas para ambas as partes.

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sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Powell carimba nova máxima em Jackson Hole


O importante simpósio anual de política monetária do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) realizado em Jackson Hole, no estado norte-americano de Wyoming, acompanhado por banqueiros centrais do mundo inteiro, transmitiu sinal de serenidade e controle para o mercado financeiro global.

O discurso mais importante, realizado por Jerome Powell, presidente da autoridade monetária norte-americana, endossou boas condições para manutenção da estratégia extremamente gradual de normalização das condições monetárias.

De imediato, Powell descartou o risco de superaquecimento da economia, mesmo com os efeitos da reforma tributária de Donald Trump sobre o mercado de trabalho já considerado aquecido. A taxa de desemprego nos Estados Unidos gira em torno de 4% ao ano, nível mais baixo em quase duas décadas.

Alguns analistas temem que o longo período de crescimento, juntamente com o recente impulso fiscal e taxa de desemprego muito baixa, poderia superaquecer a economia, o que forçaria o Banco Central dos Estados Unidos agir emergencialmente com medidas contracionistas.

O presidente do FED não parece concordar com essa hipótese, mas também não quer interromper ou reduzir a velocidade do processo de normalização das condições monetárias (via aumentos graduais da taxa básica de juros e lenta redução do balanço da autoridade monetária).

Powell afirma que a estratégia do banco central é a melhor forma de proteger a economia, manter o mercado de trabalho mais aquecido possível e inflação sob controle. Isso significa que nada deve mudar na política monetária. Mesmo com a inflação sob controle, ancorada na meta de 2% ao ano, sem perspectiva de superá-la, Powell quer manter os aumentos graduais da taxa básica de juros, o que pode ser enxergado como uma medida preventiva, até porque a atividade não apresenta sinais de fadiga.

A estratégia do FED diverge da visão de Donald Trump, que alguns dias atrás se mostrou contrário as altas de juros. Dificilmente, político de qualquer país defenderia aumento gradual de juros num cenário de inflação ancorada na meta. Powell utilizou o simpósio em Jackson Hole para mostrar ao mundo, mais uma vez, a importância de uma economia operar com o Banco Central independente.

Previsibilidade na política monetária, economia em boa fase de expansão, baixos riscos para o futuro, reafirmação de independência e força da autoridade monetária. Wall Street foi ao delírio nesta sexta-feira, fechando mais uma semana bem positiva.

O índice S&P500 renovou máxima histórica ao atingir 2.874 pontos, aumentando ainda mais a força do movimento de recuperação de preços, iniciado no mês de abril. Mercado segue em tendência principal de alta, sem sinalização de reversão.


O fluxo também segue comprador no mercado de bonds. A taxa da Treasury de 2 anos fechou a sexta-feira aos 2,63%, abaixo do pico registrado no mês passado aos 2,69%, interrompendo o movimento de abertura observado nos últimos meses, trabalhando, agora, movimento de lateralização.

A taxa de juros da Treasury de 10 anos recuou para 2,82%, inferior à máxima do ano registrada aos 3,11%. O movimento no título do tesouro norte-americano de 10 anos também é de lateralização, interrompendo um longo período de abertura.
  

Entretanto, o clima positivo de Wall Street não está sendo replicado integralmente de forma generalizada entre as praças financeiras mundiais. As praças europeias, por exemplo, não estão em bear market, mas ainda relativamente distante de renovar máxima histórica. O mesmo quadro pode ser observado no Japão.

A bolsa de Bombay, na Índia, continua se destacando, alcançando novo recorde histórico nesta semana, aos 38.251 pontos. Nas demais praças emergentes, o cenário é mais desafiador. A bolsa de Xangai, na China, opera em bear market aos 2.729 pontos, patamar bem inferior aos 3.587 registrados no mês de janeiro deste ano.

África do Sul sofreu um duro golpe nos últimos meses. Apesar da recuperação desta semana, o mercado segue bear. Coreia do Sul ainda não opera sob o status de bear market, mas segue relativamente distante de alcançar máxima do ano. A bolsa da Rússia tenta se manter acima da média móvel simples de 200 períodos semanal, congestionada desde 2017.

México segue em recuperação intensa de preços, porém ainda abaixo da média móvel simples de 200 períodos semanal. Desde 2015, o mercado tem mostrado fortes solavancos, tanto para baixo, quanto para cima. No Brasil, o índice Bovespa segue relativamente distante da máxima do ano, vendido a curto prazo, pressionado pela formação de topo descendente na região dos 81,8k.

A segunda semana consecutiva formada por candle de pavio longo superior e/ou inferior mostra disputa muito acirrada em função da importância do patamar de 76k/75k. Acima dessa região, players posicionados na ponta comprada defendem suas posições e o mercado volta criar chances de atacar novamente os 81,8k. Porém, abaixo dos 75k, um pivot de baixa seria acionado, adicionando força à perna de descendente iniciada neste mês de agosto, abrindo espaço para manutenção e/ou abertura de posições vendidas.

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terça-feira, 21 de agosto de 2018

Está na hora de partir para o plano B


Justificadamente, o mercado financeiro nacional voltou a entrar em pânico, mais uma vez, descolado das demais praças financeiras mundiais. O motivo é mais do que conhecido pelos investidores de longa data. Não está relacionado apenas ao cenário de curto prazo provocado pelas eleições, mas sim ao conjunto da obra. A cilada macroeconômica verde e amarela.

Os primeiros sinais de aviso prévio do mercado foram emitidos ainda no mês de março deste ano, quando os contratos de juros futuros interromperam a longa trajetória de baixa, apesar de o Banco Central ter continuado cortando a taxa básica de juros.

Mesmo com a situação macro nitidamente delicada, imposta pela confirmação da impossibilidade de aprovação da reforma da previdência, a autoridade monetária optou por deixar as defesas desguarnecidas desnecessariamente, como se nada de relevante tivesse acontecido.

Cerca de dois meses depois do primeiro sinal de aviso prévio emitido pelo mercado, o câmbio estourou. Foi neste momento, no início do mês de maio, que o Banco Central anunciou intervenções mais pesadas na moeda, alegando necessidade de suavizar os movimentos.

O mercado não engoliu a desculpa esfarrapada apresentada pela autoridade monetária para intervir de forma mais pesada no câmbio. Consequência deste novo erro estratégico, o dólar furou o patamar de R$ 3,50 com violência e pegou ainda mais força. O mercado estava perdendo a paciência e o Banco Central insistindo em tapar o sol com a peneira.

Mesmo com as intervenções mais agressivas no câmbio, o Banco Central perdeu a briga com o mercado. Como um pais altamente endividado, carregado de histórias problemáticas, desarrumado na parte macro e micro, corrupto e repleto de gargalos poderia sustentar uma moeda forte/estável com uma taxa básica de juros na mínima histórica?

Mesmo depois de uma forte recessão, a economia não conseguiu encontrar boa tração de retomada, os investimentos continuam ridiculamente baixos, o desemprego segue elevado, as reformas viraram contos de fadas, o ambiente de negócio continua no mesmo lamaçal do passado e, o único alento, provocado pela queda da taxa Selic, infelizmente não se repercutiu na economia, já que as linhas de crédito continuam obscenas.

O governo pode utilizar o discurso/estratégia de melhor conveniência, mas o mercado cobra preço. Diante da apatia e/ou falta de ação, o dólar contra real renovou novo recorde do ano, alcançando 4,03.

Quando se compara o deslocamento do dólar contra real (linha preta) com o deslocamento do dólar contra cesta de principais moedas globais (linha pontilhada), pode-se notar que nos últimos dias houve um descolamento muito forte desfavorável ao real, ratificando que o nosso cenário é desafiador e as defesas podem estar desguarnecidas.


No mundo, o dólar contra cesta de moedas opera em queda de curto prazo. Contra o real, o dólar opera em forte alta de curto prazo.

Esse tipo de descasamento não é tão comum pela força do movimento observado nos últimos dias e deveria impor uma necessidade de o Banco Central partir para o plano B imediatamente: elevar a taxa básica de juros para tentar frear a forte desvalorização da moeda e acalmar o mercado.

Na circunstância atual, não há necessidade de choque de juros. Longe disso. Um movimento simbólico de 0,50 p.p., trazendo a Selic para 7% ao ano, mantendo a porta aberta para novos aumentos-defensivos no futuro, poderia ser considerado uma dosagem suficiente para acalmar os ânimos no momento.

O problema é que muito possivelmente o Banco Central vai insistir nas intervenções cambiais e evitar subir a taxa Selic no curto prazo em função suposto do peso político. O que não faz muito sentido, pois o tombo de 14,25% para 6,50% não foi replicado nem de perto na economia, basta notar que os bancos continuam operando linhas de crédito como se a Selic estivesse, ainda, em dois dígitos.

Portanto, o Banco Central finge que não precisa subir os juros, mas o mercado é soberano nas taxas futuras. O contrato de DI com vencimento em 2025 fechou esta terça-feira aos 12,17% ao ano, mostrando significativo prêmio de 5,67 p. p. sobre a taxa básica de juros.


O novo rali nos contratos de juros futuros provocou formação e fundo ascendente duplo no final do mês julho e início do mês de agosto, em 10,77% para o DI de 2025. Esse movimento reforça a tendência de alta nas taxas futuras iniciada no mês de março deste ano. Caso a máxima de junho, registrada em 12,82%, seja rompida, um longo e perigoso pivot de alta será acionado, podendo sacramentar de vez a reversão do ciclo no mercado.

Sem plano B, o alçapão no mercado tende a se manter armado, impondo uma nova dinâmica sobre os preços dos ativos locais.

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segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Presidiário presidente


A semana começou quente no mercado financeiro com as primeiras pesquisas de intenção de voto mostrando um cenário eleitoral desafiador. Circularam muitos comentários no mercado relacionado ao fraco desempenho de Geraldo Alckmin, sustentando um sentimento de decepção profunda.

A pesquisa Ibope divulgada nesta segunda-feira mostrou o candidato do PSDB com apenas 5% das intenções de voto num cenário com Lula e 7% das intenções de voto num cenário sem Lula.

Desta vez, não cabe a Alckmin justificar o seu baixo desempenho em função de não ser conhecido pela população. A pesquisa foi realizada entre os dias 17 e 19 de agosto, repercutindo as reações do público após duas rodadas de entrevistas na TV com audiência elevada (Roda Viva e Globo News) e um debate em rede nacional.

Apesar de a campanha estar apenas começando, está claro que Alckmin não consegue convencer o eleitor. O tempo de televisão parece ser sua única carta na manga. Agora está mais evidente, também, entender porque o PSDB se rendeu ao Centrão. Será necessário muita propaganda para alcançar o segundo turno.

Por outro lado, o PT tem demonstrado exatamente o oposto com o seu candidato inelegível. Lula segue disparado na liderança com 37% das intenções de voto, praticamente o dobro das intenções de voto do segundo colocado (Jair Bolsonaro). Essa simulação ainda não incorporou o cenário pró-Lula e pró-PT provocado pelo recente gesto da ONU.

O Comitê de Direitos Humanos da Organizações das Nações Unidas afirmou que o Estado brasileiro deveria garantir ao candidato do PT o exercício de todos os seus direitos políticos, inclusive disputar as eleições, mesmo que na prisão. A recomendação da ONU não tem efeito sobre a legislação brasileira, que inclusive é bastante clara sobre o aspecto da candidatura de Lula. Condenado em duas instâncias, Lula é um ficha-suja e não pode disputar as eleições. Não há como interpretar a lei de outra forma.

O gesto da ONU apenas aumentou a complexidade do quadro brasileiro, voltando a criar dúvidas entre os agentes sobre a participação ou não de Lula nas eleições. Outro ponto relevante é que a declaração da ONU reforça o discurso de vitimização utilizado pelo PT (estratégia que tem se mostrado assertiva), adicionando potencial de crescimento ainda maior nas intenções de voto para o ex-presidente.

Não por acaso, o clima no mercado local voltou a azedar. Especula-se até que ponto a lei conseguirá suportar o peso político da não candidatura de Lula. Volta-se criar, também, o desconforto com certezas do passado que se tornam incertezas no futuro. O mercado se adapta mais facilmente a uma certeza negativa do que a uma incerteza (seja positiva ou negativa).

O único ponto concreto é que as pesquisas mostram impressionante força de Lula e do PT, mesmo depois de tantos escândalos de corrupção e governos desastrosos. Ainda não é possível avaliar a capacidade de transferência de votos do Lula para Fernando Haddad, mas não se deve descartar a força de quem permitiu que a Dilma subisse a rampa do Planalto em duas ocasiões.

Por fim, se as eleições fossem realizadas hoje, os brasileiros poderiam estar elegendo um presidiário para presidente da República. Lula está prestes a alcançar mais da metade dos votos válidos, o que garantiria uma vitória em primeiro turno. Imagina o que esperar para a formação do novo Congresso, onde 80% dos deputados federais tentarão reeleição. Cada povo tem o governo que...

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sexta-feira, 17 de agosto de 2018

TCU acaba com agonia do teto de gastos


A pec do teto de gastos é considerada uma das poucas mudanças positivas que o governo Temer deixará para o futuro do país. A regra foi implementada com objetivo de limitar o crescimento exponencial das despesas do governo.

O racional é bastante simples: o governo e todas as suas esferas só poderão gastar a mesma quantia do ano anterior, corrigida pela inflação. A imposição do teto tem um prazo de 20 anos, que é o tempo necessário para reequilibrar as contas públicas da forma menos traumática possível.

Caso o teto de gastos seja descumprido, poderes ou órgãos ficarão automaticamente impedidos no exercício seguinte de reajustar salários, contratar funcionários, realizar concursos públicos ou criar novas despesas até que os gastos retornem ao limite previsto na lei.

As despesas de 2017 e 2018 estão dentro da nova lei do teto de gastos. Entretanto, para os próximos anos, o teto se tornará inviável sem aprovação da reforma da previdência, simplesmente porque os gastos com a previdência estão crescendo quase o dobro da inflação. Mantendo este ritmo, chegaremos num ponto onde as aposentadorias e pensões irão comprimir o resto do orçamento, a ponto de não sobrar dinheiro para as despesas discricionárias (não obrigatórias), como os investimentos, manutenções, obras públicas, entre outros.

Não por acaso, desde 2016, já se alertava que o teto de gastos seria insustentável sem aprovação da reforma da previdência. Sem poder alterar as despesas obrigatórias e sem recurso para as despesas discricionárias, o Brasil iria parar. O emaranhado de obras públicas paralisadas é apenas uma amostra grátis do que está para acontecer caso mudanças não sejam feitas nos próximos anos.

O “ajuste fiscal” realizado na atual gestão tem se concentrado, basicamente, nos gastos discricionários. O investimento em infra-estrutura, por exemplo, que é uma das principais válvulas de impulso ao crescimento (tática muito utilizada por economias asiáticas emergentes), praticamente inexiste no Brasil.

Gasta-se tanto dinheiro com cheques preenchidos e benefícios, que não sobra espaço no orçamento para segmentos importantes, como investimento, infra-estrutura, educação e pesquisa. Recentemente o STF (Supremo Tribunal Federal) contribuiu para a conta dos cheques preenchidos aumentar um pouco mais, ao propor reajuste salarial de 16,3%. Se aprovada, a medida cria efeito cascata em salários de vários outros servidores.

Se já estava difícil pensar na eficácia do teto de gastos sem a reforma da previdência e com essa nova onda de reajustes salariais, piorou agora que o TCU (Tribunal de Contas da União) abriu oficialmente a porteira para a boiada passar por cima do teto de gastos.

Os ministros do TCU decidiram excluir do teto de gastos da União as despesas dos órgãos públicos com a realização de concursos, desde que sejam financiadas pelas taxas de inscrição. Os ministérios da Fazenda e do Planejamento entraram com embargos contra a decisão, obviamente sem sucesso, pois está muito claro que certas camadas da população não toleram ajuste fiscal.

O ministério da Fazenda adverte que a decisão do TCU poderá representar o desmonte do teto de gastos. A avaliação está correta, já que a decisão do TCU cria uma nova forma de interpretação da lei, estratégia que pode ser utilizada por outros órgãos/setores da União.

Em nota, o ministério da Fazenda e do Planejamento mostram que a excepcionalidade criada pelo TCU pode ensejar possibilidade de construções interpretativas com o intuito de gerar outras excepcionalidades para despesas públicas custeadas a partir de receitas próprias, com potencial de efeito sistêmico elevadíssimo.

A dúvida que restava sobre a viabilidade do teto de gastos na próxima gestão parece estar chegando ao fim. Não foi preciso esperar o fim do processo eleitoral. O teto, sequer, precisa ser discutido em campanha, já está fadado ao fracasso. A agonia sobre a viabilidade ou não do teto foi, agora, substituída pela agonia sobre o valor a ser pago por nós na próxima fatura. Os zeros à direita estão aumentando.

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terça-feira, 14 de agosto de 2018

Atuações de banqueiros centrais acalmam investidores


Depois de um fechamento aterrorizante na sexta-feira da semana passada, banqueiros centrais de países emergentes altamente endividados em moeda estrangeira atuaram em seus respectivos mercados nesta semana, acalmando os ânimos mais exaltados dos investidores mundo afora.

Pouco comentada e não tão modesta, o Banco Central da Turquia anunciou no começo desta semana uma injeção de 6 bilhões de dólares no sistema financeiro local para garantir a liquidez dos bancos e reduzir o clima de aversão ao risco no mercado.

A injeção ocorrerá a partir da redução dos limites de reservas de divisas permitidas aos bancos comerciais turcos com objetivo de retirar liras do mercado, voltar a circular mais dólares no sistema e, assim, estabilizar a taxa de câmbio. A medida é difícil de ser entendida pelos populares locais, que se apegam à taxa básica de juros, porém tem potencial de impacto relevante no mercado. Criado em 2011, o mecanismo de opção de reserva determina a porcentagem de reservas financeiras que um banco turco pode se posicionar, seja em moeda estrangeira, ouro ou lira.

Além da revisão do mecanismo, contribuiu para acalmar os ânimos dos investidores o fato de que o ministro das Finanças da Turquia, Berat Albayrak, realizará teleconferência com players de mercado nesta próxima quinta-feira. Albayrak desfruta de baixa reputação por ser cunhado do presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan.

Mesmo sendo um possível fantoche, o fato de o ministro das Finanças agendar sua primeira teleconferência com players de mercado, desde que assumiu o cargo, há dois meses, pode sinalizar uma tentativa de diálogo do presidente da Turquia. Quando está na mira dos holofotes, Erdogan segue fazendo seu show midiático, atacando o mercado.

Entretanto, nos bastidores, parece rodar outro filme. Inclusive, circularam boatos de que o FMI (Fundo Monetário Internacional) foi acionado pelo governo da Turquia para uma assistência financeira ($$$). Os boatos forçaram a instituição emitir nota negando o aceno das autoridades turcas.

A atuação mitigadora do Banco Central da Turquia foi seguida por uma intervenção preventiva-surpresa do Banco Central da Argentina. Na segunda-feira, a autoridade monetária argentina elevou abruptamente sua taxa básica de juros de 40% para 45% ao ano, numa reunião de Comitê emergencial.

O Banco Central justificou sua decisão em resposta à conjuntura externa atual e ao risco de um novo impacto sobe a inflação local. O peso argentino sofreu pesada perda com a onda de aversão ao risco em praças emergentes observada recentemente. Além da decisão surpresa, a autoridade monetária foi ainda mais ousada se comprometendo manter o nível da taxa de juros até, pelo menos, outubro/2018.

Para reforçar a atuação preventiva, o Banco Central da Argentina também anunciou ontem um plano para acelerar a redução do estoque de Lebacs (Letras do Banco Central – bônus local), que faz parte dos instrumentos de implementação da política monetária. O objetivo é reduzir gradualmente o estoque de Lebacs pela metade, de 1 bilhões de pesos para cerca de 500 milhões de pesos, num movimento considerado ortodoxo.

Ao final do processo de redução gradual das Lebacs, o estoque destes instrumentos emitidos pela autoridade monetária ficará apenas sob posse de instituições financeiras locais, o que permitirá melhorar a eficácia da estratégia de política monetária e reduzir a vulnerabilidade do mercado cambial.

Refletindo as atuações dos banqueiros centrais, os preços dos ativos de risco nas principais praças financeiras mundiais repicaram para cima na segunda e terça-feira. O índice S&P500 conseguiu se manter acima da linha central de bollinger, aos 2.839 pontos, trabalhando dentro de uma tendência de alta iniciada em abril/2018.

Na Índia, a bolsa de Bombay voltou a subir após dois pregões consecutivos de baixa, iniciando nova aproximação com a máxima histórica. A bolsa mexicana fechou em alta aos 209 pontos, se mantendo acima da média móvel simples de 200 períodos diária. África do Sul trabalha formação de fundo duplo com a alta registrada nesta terça-feira.

Na Rússia, a bolsa de valores fechou em forte alta pelo segundo pregão consecutivo, respeitando a principal linha de suporte de curto e médio prazo aos 1.040 pontos. Quadro semelhante ocorreu no Brasil, com o Ibovespa fechando em alta relevante pelo segundo pregão consecutivo, formando piso (ao menos a curto prazo) aos 75.900 pontos.

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sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Colapso na Turquia é mais grave do que parece


O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, implorou, nesta sexta-feira, para que os cidadãos troquem seus dólares e barras ouro debaixo dos colchões por moeda turca. Esta não é a primeira vez que Erdogan faz esse pedido maluco e nem será a última.

Quando um líder político faz este tipo de súplica, ao mesmo tempo em que ataca o mercado financeiro em rede nacional, aclamando a população por uma luta nacional, é um forte sinal de que a vaca foi pro brejo. Incentivar os cidadãos trocar dólares ou ouro por lira turca é uma tentativa desesperadora de frear a desvalorização excessiva da moeda local, que apenas expõe as fragilidades da economia.

As reportagens na imprensa se concentraram na insignificante tensão diplomática da Turquia com os Estados Unidos. Os norte-americanos exigem a libertação de um pastor protestante detido na Turquia sob acusações de vínculos terroristas. O religioso não foi libertado pelos turcos e o aumento das tarifas sobre o aço e alumínio imposto pelos norte-americanos foi encarado como metida retaliatória, o que é inadequado.

Os Estados Unidos aumentaram as tarifas sobre o aço e alumínio da Turquia para 50% e 20%, respectivamente, simplesmente para compensar a rápida desvalorização da lira turca frente ao dólar, o que poderia criar situação de competição desleal/injusta em função do fator câmbio.

A desvalorização agressiva da lira turca é reflexo de uma série de problemas macroeconômicos não resolvidos no passado que, neste momento, estão explodindo de uma só vez. Tudo começou com a reeleição do presidente Erdogan no mês de junho, com a promessa de manter a taxa de juros baixa para induzir o crescimento econômico, mesmo aturando uma inflação mais alta.

A taxa básica de juros na Turquia está em 17,75% ao ano, ainda assim descalibrada para combater a inflação crescente que já alcança 15,85% ao ano, a maior desde a crise de 2008. A recente decisão do Banco Central da Turquia, de manter a taxa básica de juros inalterada, em meio ao cenário de forte aceleração da inflação, reforçou a percepção do mercado de falta de independência da autoridade monetária.

Possivelmente a decisão de segurar os juros veio do presidente da Turquia, cumprindo sua promessa de campanha. Erdogan perdeu a confiança do mercado e, consequentemente, os ativos de risco entraram em pânico. A taxa de juros do título de 10 anos se aproxima dos 19% ao ano e a lira turca saltou para 6,41 dólares. A moeda local era negociada na faixa de 3 dólares em 2016. Somente nesta semana, a lira turca perdeu 1,41 dólares, marcando seu pior momento desde a crise de 2008.


Essa é apenas a ponta do iceberg. A economia ainda passa por um período de baixo consumo interno, elevado déficit em conta corrente e carente de investimentos estrangeiros. Além disso, governo, empresas e famílias estão altamente endividados em moeda estrangeira.

Um estudo do Deutsche Bank mostrou que a dívida em moeda estrangeira do governo, setor financeiro e não financeiro da Turquia alcança cerca de 70% do PIB. A agência estatal de notícias Anadolu afirma que a dívida externa é de 466 bilhões de dólares, o que equivale a 53% do PIB. Mesmo que os números da agência estatal estejam corretos (ou fossem mais confiáveis), ainda assim seria uma quantia impagável com a forte desvalorização da moeda local.
  

Não por acaso a delicada situação da Turquia abateu as praças financeiras do mundo inteiro. O endividamento em moeda estrangeira da Turquia é o maior do mundo. É a primeira peça do dominó. Se a Turquia cair (entrar em default), outros países altamente endividados em moeda estrangeira como Hungria, Argentina, Polônia e Chile poderiam seguir pelo mesmo caminho, criando uma crise sistêmica global sem precedentes.

Para piorar, o Instituto de Finanças Internacionais estima que a necessidade de financiamento da Turquia para este ano é de 218 bilhões de dólares, podendo chegar a 240 bilhões de dólares, tanto para cobrir o déficit em conta corrente, quanto para pagar parcelas a vencer da dívida.

Um default na Turquia poderia impactar imediatamente, ou colocar em situação de insolvência, alguns bancos na Espanha, França e Itália. Por este motivo, vazou informação no Financial Times de que o BCE (Banco Central Europeu) está acompanhando de perto a crise na Turquia.

O sistema financeiro europeu provavelmente não suportaria um calote de tamanha proporção por parte dos turcos. Portanto, a crise na Turquia é mais grave do que parece por dois motivos básicos: (i) rápida propagação pelo sistema financeiro e (ii) contaminação em efeito dominó sobre outros países emergentes.

Se a situação começar sair de controle, banqueiros centrais e lideres políticos globais entrarão em ação para impedir um contágio maior no mercado. Já se comenta que a Turquia está sendo pressionada a impor controles de capital e pedir ajuda financeira à Rússia. Por fim, resta uma carta na manga que Erdogan resiste em não queimar: choque de juros para frear o câmbio e acalmar o mercado.

A Turquia não é nenhum cisne negro, pois já vem se arrastando há alguns meses, mas serve para relembrar que o mercado pode criar suas crises da noite para o dia, quando quiser, não por irracionalidade ou crueldade, mas simplesmente por deixar de fazer vista grossa aos problemas econômicos.

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