terça-feira, 31 de julho de 2018

BoJ se rende ao mercado e ajusta política monetária


A reunião do Comitê de Política Monetária do BoJ (Bank of Japan) encerrou nesta terça-feira apresentando novidade significativa na orientação estratégica para o futuro da política monetária no país.

A princípio, a decisão pode não ter chamado tanta atenção da imprensa, já que a taxa de depósito de curto prazo foi mantida em -0,1% e a meta para os juros dos bônus do governo japonês de 10 anos continuou inalterada em zero. Entretanto, houve incomum atraso na divulgação do comunicado e a decisão não foi unânime. 2 dois 9 membros votantes se posicionaram contra a estratégia.

O possível ponto de discórdia entre os membros, e que mostra mudança na orientação futura para a política monetária, está no aumento da margem de tolerância para oscilação da taxa do título do tesouro japonês de 10 anos. Até então, a meta a ser perseguida pelo BoJ era zero, permitindo flutuação em mais ou menos 0,1 p.p. Hoje, a meta de flutuação foi dobrada para 0,2 p.p. Ou seja, agora, o rendimento do título do Tesouro japonês pode oscilar o dobro da meta estipulada no passado.

Haruhiko Kuroda, presidente do BoJ, teve de frisar na entrevista que o movimento da autoridade monetária japonesa não pode ser encarado como aperto na política monetária. Entretanto, com a nova orientação, o BoJ inevitavelmente se tornará menos rigoroso com o patamar das taxas de juros futuros.

Havia especulação no mercado sobre mudanças na postura do BoJ, confirmadas hoje, muito em função do movimento de abertura dos juros dos títulos do tesouro de várias economias, tanto desenvolvidas, quanto emergentes.

O retorno da taxa de juros do título do Tesouro norte-americano de 10 anos para a faixa de 3% ao ano foi o movimento mais marcante, até porque é a principal referência de mercado. Porém, taxas de juros futuros de outros países também abriram forte (subiram) nestes últimos meses. Na Alemanha, a taxa de juros do título de 10 anos saltou para 0,44% ao ano. No Reino Unido, as gilts saltaram para 1,33% ao ano. Na França, a taxa de 10 anos alcançou 0,73% ao ano. No Canadá, os títulos já são negociados a 2,30% ao ano. O México está pagando 7,78% ao ano no bond de 10 anos, Rússia paga 7,74% ao ano, África do Sul 8,59% ao ano, enquanto Índia paga 7,77% ao ano. O Brasil paga 11,06% ao ano por carregar o fardo de país emergente mais endividado do planeta, além da velha e conhecida desordem macro e fiscal.

A abertura generalizada das taxas de juros futuros em várias economias revela mudança na dinâmica de mercado. São os primeiros impactos de um longo processo de desalavancagem financeira, iniciado muito lentamente nos Estados Unidos, mas que em breve deve se estender para a Europa e se fortalecer na virada da década.

O BoJ estava atrás da curva marcando pressão para manutenção do juro de 10 anos em zero, porém a briga estava ficando cara e ineficaz, além de pressionar as margens dos bancos locais. A taxa de juros do título do tesouro japonês de 10 anos levou um forte baque semanas antes da reunião de política monetária, o que só aumentou a pressão para o BoJ ceder.


De 0,025% ao ano registrado no início deste mês, a taxa de juros do título de 10 anos saltou para 0,102% ao ano, apresentando a abertura mais agressiva dos últimos anos. Com a nova meta, o BoJ pode aceitar que essa taxa possa alcançar até 0,20% ao ano, patamar não visto desde 2015, quando o mercado de bonds estava eufórico (comprador) no mundo inteiro.

Como de costume, para evitar propagar pânico no mercado, o BoJ compensou a estratégia mais hawkish para os juros futuros aumentando o calibre para compra anual de ETFs listados na bolsa de Tóquio, de 2,7 trilhões de ienes para 4,2 trilhões neste ano. Entretanto a compra total de ETFs permaneceu em 6 trilhões de ienes. Isso significa que o BoJ vai gastar mais bala a curto prazo, agindo preventivamente em função do ajuste na estratégia de política monetária.

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5 comentários:

  1. A política monetária japonesa é coisa de outro mundo considerando a do Brasil, ou será que é o contrário?

    Abs!

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    1. É muito arrojada e de outra galáxia comparando com a nossa rs... Imagine o Bacen comprando BOVA11 e NTN-F aos montes no mercado nacional, comprometido não somente em manter a taxa básica de juros negativa, como também atuar no mercado de títulos da dívida soberana local para que a taxa de juros futuros oscile dentro de uma banda de -0,20% a 0,20% ao ano.

      Abs,

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    2. muito louco o mundo financeiro.
      Blog excelente. Nao tem outro igual.
      Abc

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  2. Esse blog faz jus ao nome... Mais uma excelente análise!

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