domingo, 22 de julho de 2018

Geraldo Alckmin, o establishment


Um grande choque de otimismo adicional atingiu o mercado financeiro brasileiro desde o final da tarde de quinta-feira. O Ibovespa saiu de 76.000 pontos na tarde do dia 19/06/2018 para fechar a semana no dia seguinte aos 78.571 pontos. O dólar recuou para R$ 3,77 acelerando o movimento corretivo de curto prazo. Os contratos de juros futuros da ponta curta voltaram para 6,70% (praticamente zerando o prêmio sobre a taxa básica de juros) enquanto os contratos futuros da ponta longa fecharam a sexta-feira abaixo do patamar de 11%, cerca de 2 p. p. inferior ao pico registrado mês passado.

A força compradora dominante observada na praça brasileira desde a tarde de quinta-feira se destoou um pouco do fluxo global, que apesar de ser comprador, ocorre em menor intensidade. Essa discrepância de força levou o Ibovespa superar o desempenho do iShares MSCI Emerging Markets, um dos ETFs de mercados emergentes mais famosos no mundo.


No gráfico acima, pode-se notar o espaço existente entre Ibovespa (linha pontilhada) versus MSCI Emerging Markets (linha preta), denunciando que no curto prazo o Ibovespa vem desempenhando bem melhor do que os seus pares emergentes.

Os descolamentos não são incomuns, mas analisar o GAP entre ambos os índices é importante para constatar ruídos regionais, ou mesmo esperar por mais alargamento ou fechamento entre as duas linhas. Analisando o histórico, o espaço para mais alargamento parece limitado, porém isso não significa que um fechamento ocorrerá no curto prazo.

É importante entender que essa diferença de desempenho de curto prazo do Ibovespa versus MSCI Emerging Markets tem um nome/driver: Geraldo Alckmin. O mercado nacional explodiu de felicidade (vide upside nos preços dos ativos de risco) a partir do momento em que começaram a surgir os primeiros rumores de que o pré-candidato do PSDB conseguiu fechar aliança com o famoso Centrão, o que lhe garantirá cerca de 40% de todo o tempo de televisão destinado à campanha presidencial.

O mercado pode ter agido positivamente por impulso, já que o Ciro Gomes, atualmente o nome mais forte da esquerda, estava quase fechando acordo com o Centrão para abocanhar todo esse tempo de televisão na campanha do primeiro turno. O contra-ataque de Alckmin para conseguir apoio do Centrão na reta final deu certo e surpreendeu.

Analisando os fatos recentes, com a poeira mais baixa, talvez a jogada de Alckmin não tenha sido tão boa quanto parece. A aliança com o Centrão mostra que PSDB está fazendo a política velha, aquela que o mundo não aguenta mais e criou brecha para vários outsiders assumirem o poder.

Bom lembrar que o Centrão foi criado anos atrás pelo Eduardo Cunha. Formado por um grupo significativo de parlamentares de diversos partidos, o Centrão consegue barrar qualquer pauta relevante no Congresso. O último presidente que resolveu comprar briga com o Centrão sofreu impeachment. Além disso, o Centrão está manchado por escândalos de corrupção, busca por cargos, verbas e vantagens próprias. É a política velha, ineficaz e corrupta que tem provocado total descontentamento da população.

O fato de Alckmin se aliar ao establishment político pode revelar, mais uma vez, falta de estratégia do PSDB. Atualmente em grande desvantagem nas pesquisas de intenção de voto, Alckmin vai dar as mãos (e se tornar refém) ao establishment em troca de alguns milhões do fundo partidário e tempo de TV para conseguir se deslanchar e chegar ao segundo turno. Estratégia muito arriscada nos dias atuais e nem um pouco ousada/criativa.

A população quer mudança, algo novo, e o PSDB chega para a disputa com uma tática velha. A população é fortemente influenciada pelas redes sociais (vide efeito das últimas greves) e o PSDB aposta no tempo de TV em plena era do Netflix e Wahtsapp. A população está furiosa com o Centão e o PSDB se torna o Centro do Centrão. O mundo está elegendo outsidiers e o PSDB veste a camisa do establishment.

O ônus da aliança com o Centrão parece ser maior do que o bônus proporcionado pelo fundo partidário e tempo de TV. Alckmin, pouco carismático e com histórico político no mínimo conturbado, perde totalmente o discurso de outsider e se firma inegavelmente como o candidato do establishment, da velha política brasileira.

O mercado de capitais aceita/compra o establishment, porém a população demonstra nas pesquisas um grande desejo por mudança. Jair Bolsonaro, oficializado hoje candidato do PSL à Presidência da República, líder nas pesquisas de intenção de voto com ausência do Lula, pode até se fortalecer com a guinada de Alckmin ao establishment.

Bolsonaro é o candidato mais forte, até o momento, a carregar uma imagem de anti-establishment. Um candidato muito perigoso, de um partido nanico/inexpressivo, com agenda imprevisível, que vai roubar votos de ambos os lados, principalmente da direita decepcionada com a velha política.

O candidato do PSL não fechou aliança com nenhum outro partido e se aproveita desse fato para bater no seu concorrente. “Eu queria agradecer ao Geraldo Alckmin por ter juntado a nata do que há de pior do Brasil ao seu lado”. Essa frase marcou o lançamento da candidatura de Jair Bolsonaro na tarde deste domingo, além de sinalizar mais uma campanha de erros estratégicos do PSDB.

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20 comentários:

  1. Quero acreditar que a TV não é mais tão influenciadora de votos... vamos ver.

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    1. Terá certa influência, mas não tanto quanto no passado. Essa será a primeira eleição presidencial na era da epidemia do whatsapp. Há quatro anos atrás existia a ferramenta, mas não tão explorada/utilizada quanto nos dias atuais.

      Abs!

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  2. Acredito que o único capaz de colocar o Brasil de volta nos trilhos seja o Alckmin. Ele compôs uma excelente equipe econômica.

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    1. Talvez Alckmin + uns 350 iluminados rs... Para o Brasil voltar aos trilhos precisamos de um presidente comprometido com a agenda de reformas e 2/3 do Congresso para aprová-las.

      Abs,

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  3. FI, sou bem descrente com qualquer governo devido ao congresso. Posso estar pensando errado, mas não vejo nenhum governo funcionando com esse atual sistema.

    Espero estar errado.

    Abraço!

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    1. Sim, a reforma política era algo para ser feito no início desta década. Perdemos o timing da mudança e o sistema praticamente colapsou.

      Abs,

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  4. Fator redes sociais conta, mas TV ainda é o fator mais relevante na campanha.

    Pré campanha no município de SP dava Russomano e Haddad. Mas depois que a campanha começou, Dória que já era conhecido e tinha mais tempo de TV dos candidatos, ganhou de lavada no primeiro turno.

    Acho que o PSDB tem menos a perder com a aliança. No final das contas, infelizmente o eleitor não faz essa ligação sobre alianças.

    Embora o maior oponente de Ciro seja ele mesmo, eu acho que pegam muito no pé por ser de esquerda. Fez governos fiscalmente responsáveis e não me vem nenhum escândalo de corrupção em mente. Esse aceno com o Centrão já é um sinal positivo que o executivo não se isolaria, como Dilma fez.

    Vamos ver. Na economia, eu vejo os cenários Alckmin e Ciro como positivos. Bolsonaro seria engolido pelo Congresso.

    Embora eu tenha divagado sobre os candidatos a presidência, sou da mesma opinião que o colega "Investidor Inglês": com tanto poder para o Centrão e possivelmente as mesmas figurinhas ganhando, não vejo um cenário positivo no longo prazo, independente de qual for o futuro presidente.

    Perdemos muito tempo divagando sobre candidatos a presidência e acabamos aceitando esse circo no Congresso Nacional.

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    1. Tinha respondido o outro comentário acima sem antes ter lido o seu. Acho que o ponto central para o nosso futuro será a formação do novo Congresso. Vamos ter de eleger uma geração de parlamentares dispostos a sacrificar mandatos/reeleição/carreira, etc, para colocar a casa em ordem.

      Abs,

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  5. O povão que decide as eleições não faz a menor ideia do que é Centrão, Direita ou Esquerda.

    Melhor cenário: Bolsonaro eleito.

    Cenário "meh": Bolsonaro x Alckmin no 2º turno

    Cenário péssimo: Alckmin x Coroné Ciro Gomes, Coroné eleito.

    Cenário Venezuela Tupiniquim: Coroné x alguém do PT

    A Marina faz uma graça mas nunca chega longe na hora do vamo ver, isso é um fato. O resto, vão bater como podem no Bolsonaro (sendo todos de esquerda), e no final das contas apoiar o Coroné ou algum fantoche do PT caso apareça (Haddad por exemplo)

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    1. A Marina é perigosa, só não foi para o segundo turno porque o PT enxergou maior ameaça Dilma x Marina do que Dilma x Aécio, não por acaso bateram forte na Marina no primeiro turno. Nas pesquisas de 2014 Marina passou um bom tempo na frente do Aécio, começou a cair quando virou alvo da campanha do PT.

      Abs,

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  6. Bom dia, Robson.

    *Off topic

    Na plataforma XP existem títulos privados com a opção de dois indexadores? Uma espécie de swap? Em caso afirmativo, quais instituições (bancos) realizam este tipo de emissão mais "frequentemente"? O texto disponível no sítio do grupo XP apresentou de forma incompleta este tipo de investimento.

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    1. Se eu entendi bem a pergunta, swap chegando montado na plataforma (site), não. Via mesa de operações, sim, o investidor pode montar operações de swap. Precisando de maiores detalhes, meu e-mail está à disposição ( robson@jb3assessoria.com.br ).

      Abs,

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  7. Geraldo Alckmin é preparado e experiente. É o melhor para o Brasil.

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    1. Vamos ver a opinião do povo nas próximas pesquisas.

      Abs,

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    2. O mais preparado pra deixar o PCC entrar em nossa casa de vez. Lembra em 2006 quando ele teve de pedir perdão de joelhos pro Marcola pra parar aquela chacina no estado inteiro???


      Fleury e Maluf, últimos governadores com bolas desse estado.

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  8. Torço para vitória de Bolsonaro. A indicação de Paulo Guedes e demais nomes de peso na economia mais a militância exigente dele que exigirá um programa ecônomico condizente são indícios fortes de uma virada econômica para o país. Respeito quem pensa diferente. Abraços.

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    1. Guedes é uma figura de peso no mercado e com histórico invejável. Seria bom se ele participasse mais dos debates.

      Abs,

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  9. Alckmin? Aquele que teve a proeza de ter MENOS votos no 2º turno em 2006 do que no primeiro? Porra PSDB!

    VOLTA MÁRIO COVAS! COVAS PRESIDENTE!

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  10. Eu vou votar e Geraldo Alckmin, pois deixou um legado de trabalho no estado de São Paulo que será aproveitado por muitas gerações.

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    1. Dr. Paulo Maluf deixou um legado muito, mas muito maior para o povo de São Paulo que este senhor, que desde 1998 está construindo o Rodoanel e até agora não terminou. Obrigado pelo Poupatempo e...só!

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