quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Argentina, a segunda peça do dominó


Cerca de três semanas atrás a Turquia foi o primeiro país emergente a experimentar a fúria de um mercado vendedor, numa intensidade não observada desde o crash do subprime em 2008. Em poucos dias a lira turca estava totalmente nocauteada, chegando ao ponto de o presidente, Tayyip Erdogan, implorar em rede nacional para que seus cidadãos troquem dólares e barras de ouro debaixo dos colchões por lira turca.

A atitude desesperadora do presidente da Turquia apenas colaborou para exacerbar as adversidades macroeconômicas acumuladas no passado. Hoje a lira turca é negociada numa cotação ainda menor em relação ao dólar com aquela praticada três semanas atrás.

O mercado simplesmente atropelou sem dó nem piedade. O problema é que, ao notar os problemas evidentes na Turquia, investidores e players de mercado passaram a olhar com mais cuidado os fundamentos de outros países emergentes possivelmente em situação semelhante. Nesta análise sob lupa, a Argentina apareceu nos monitores com o sinal vermelho piscando.

Bastou alguns dias para os argentinos caírem de joelhos. O tombo do peso foi dramático, pois parecia premeditado e o governo local bem que tentou agir preventivamente na tentativa de se defender de um ataque esperado.

No dia 14 de agosto, o Comitê de Política Monetária do Banco Central da Argentina aprovou em reunião emergencial, fora do calendário, aumento da taxa básica de juros de 40% para 45% ao ano, comprometendo manter este nível até outubro/2018. Outras medidas emergenciais ortodoxas, como o plano para redução do estoque de Lebacs (Letras do Banco Central – bônus local) do mercado e melhoras na eficácia da política monetária, também foram anunciadas neste dia.

Não funcionou. A Argentina apenas comprou tempo. Nesta semana o mercado local foi arrasado, acabando, por enquanto, com qualquer possibilidade de reeleição do presidente Mauricio Macri ano que vem. O dólar alcançou o recorde de 40 pesos nesta quinta-feira, fechando o pregão a 37,96 pesos, significativamente acima dos 3,50 pesos negociados em 2008 e 8,50 pesos quando Macri assumiu o governo. Um desastre.


Mais curioso é que o mercado atacou um governo ortodoxo, que vinha fazendo o possível para ordenar a casa desarrumada deixada pela heterodoxia em excesso da era kirchnerista. Muitos especulam que a Argentina está sendo afetada pelo baixo clima de confiança entre consumidores e empresários, além da inflação galopante que Macri não conseguiu contornar, atualmente em 31,2% no acumulado dos últimos 12 meses.

São pontos relevantes que temperam a desarrumação macro local, porém o elevado endividamento, principalmente em moeda estrangeira, é o ponto crucial que atraiu a fúria do mercado. A dívida da Argentina não é considerada tão elevada para os padrões atuais (57,1% do PIB), mas o problema são as obrigações em moeda estrangeira que o governo não conseguirá honrar com a taxa de câmbio neste nível.

Macri foi a TV dias atrás pedir calma à população, afirmando que o FMI (Fundo Monetário Internacional) concedeu uma ajuda de 50 bilhões de dólares para a Argentina, considerada a maior da história. Um primeiro aporte de 15 bilhões de dólares já foi realizado, mas nada disso foi suficiente para segurar a enorme pressão vendedora sobre a moeda.

Nesta quinta-feira, o Banco Central da Argentina decidiu, em nova reunião emergencial, aumentar abruptamente a taxa básica de juros, de 45% para incríveis 60% ao ano, comprometendo mantê-la neste patamar pelo menos até dezembro/2018. A autoridade monetária também decidiu elevar em 5% as reservas mínimas para todos os depósitos das instituições financeiras, tanto à vista quanto a prazo. É uma estratégia radical para tentar combater a inflação através da redução da liquidez no mercado.

Tal como os turcos, os argentinos não reconhecem publicamente as deficiências macro e culpam a turbulência do ambiente internacional pelo choque nos preços dos ativos locais. O desequilíbrio fiscal é notadamente um grave problema observado na Turquia e Argentina.

Com a Argentina protagonizando o tombo da segunda peça do dominó, especula-se no mercado quem será a terceira peça a cair. O alvo está claramente em países emergentes com as contas desajustadas. Importante ressaltar que a avaliação dos brasileiros parece subestimar a gravidade da situação.

Embora maior parte de nossa dívida esteja denominada em moeda local, além do fato de as reservas do Banco Central do Brasil serem capazes de quitar todos os compromissos em moeda estrangeira, o que não deixa de ser um bom alívio, ainda assim somos um país com endividamento de 75% do PIB, em ascendência, sem nenhuma perspectiva para alcançar superávit fiscal, mesmo no longo prazo. Estamos brincando com a sorte. Turquia e Argentina caíram por menos.

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terça-feira, 28 de agosto de 2018

Afrouxamento monetário está com os dias contados na Europa


O BCE (Banco Central Europeu) anunciou no mês de junho/2018 a intenção de encerrar seu programa agressivo de compras mensais de ativos ainda neste ano. A partir deste mês de setembro, as compras mensais de bônus serão reduzidas para apenas 15 bilhões de euros. Em dezembro, o BCE vai realizar sua última rodada de compra mensal, para, no mês seguinte, suspender totalmente o programa.

Apesar de ter anunciado a suspensão no mês de junho, muitos analistas criticaram a postura excessivamente dovish do BCE, ao antecipar que não pretende subir a taxa básica de juros antes de setembro de 2019, além de continuar reinvestindo os títulos que forem vencendo no balanço com novas compras.

Na teoria, o BCE utilizou um discurso para dar impressão de que está tentando reduzir a distância de percurso em relação ao FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) e ao BoE (Bank of England), mas na prática a política monetária continuaria frouxa com a taxa de refinanciamento em zero, taxa de depósito interbancário negativa (em -0,4%) e 2,6 trilhões de euros sendo rolados no balanço da autoridade monetária.

O vício acomodatício do BCE pode ser explicado pelo temor de impacto da oscilação do dólar sobre o euro. O movimento de apreciação do dólar contra o euro é considerado relevante e ganhou força no mês de maio deste ano. O alívio observado nas últimas semanas ainda é insuficiente para demonstrar uma reversão de tendência e/ou fortalecimento do euro.


Há algum tempo, autoridades de bancos centrais da Alemanha e de outros países do norte da Europa estão pressionando o BCE por uma normalização das condições monetárias, até para que a instituição possa ter mais munição para enfrentar um futuro desaquecimento na economia.

Mario Draghi, presidente do BCE, também defende que não há perspectiva para começar a reversão do balanço de 2,6 trilhões de euros, porém, nesta terça-feira, o economista-chefe do BCE, Peter Praet, emitiu o primeiro sinal de que esta visão excessivamente dovish, sustentada principalmente por Draghi, pode mudar em breve.

Praet afirmou que os riscos associados à política monetária ultra expansionista do BCE precisam ser monitorados mais de perto após anos de expansão econômica, numa clara sinalização de pé no freio.

O alerta de Praet revela conscientização dentro da autoridade monetária de que os efeitos colaterais provocados pelo programa maciço de compra de ativos podem estar pesando mais do que os benefícios provocados por este. Entende-se por efeito colateral os preços inflados dos títulos da dívida soberana de vários países europeus e/ou mesmo aquecimento de alguns setores, como o mercado imobiliário.

As taxas dos títulos do tesouro norte-americano, por exemplo, que operavam em mínima histórica, subiram ao longo dos anos após o início do processo de normalização das condições monetárias, encontrando, nos últimos meses, ponto de equilíbrio no curto prazo. O mesmo movimento poderá ocorrer com as taxas dos títulos da dívida soberana na Europa quando o BCE iniciar o processo de desalavancagem.

O deslocamento das taxas dos títulos da dívida soberana norte-americana causaram impactos no mercado de renda fixa do mundo inteiro, arrastando para cima taxas de juros de países desenvolvidos e emergentes. Isso significa que existe a possibilidade de este movimento ser potencializado quando o BCE iniciar sua nova fase de política monetária, até porque, neste estágio, menos dinheiro deverá circular no sistema financeiro global.

Outro ponto que corrobora para os dias contatos do afrouxamento monetário na Europa está na substituição do presidente da autoridade monetária em 2019. Mario Draghi encerra seu mandato em outubro do próximo ano e seu possível substituto é nada mais nada menos que Jens Weidmann, chair do Bundesbank (Banco Central da Alemanha), profissional de viés reconhecidamente hawkish no mercado, por sinal um dos maiores críticos da política monetária expansionista do BCE.

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segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Donald Trump vence mais uma grande batalha


Está ficando cada vez mais difícil para a imprensa norte-americana sustentar argumentos políticos/econômicos contra o presidente Donald Trump. A Casa Branca surpreendeu o mundo novamente nesta segunda-feira ao anunciar um novo acordo comercial com o México, fruto de um movimento ousado e muito criticado no passado.

Cumprindo mais uma promessa de campanha, Trump anunciou cerca de um ano atrás a intenção de acabar com o Nafta e construir um novo acordo comercial mais favorável aos Estados Unidos. Um ano depois, após várias rodadas de negociações, os norte-americanos conseguiram chegar ao consenso com os mexicanos.

O novo pacto será conhecido como Acordo de Comércio Estados Unidos-México, substituindo o antigo Nafta. O acordo poderá ter a inclusão do Canadá, que não estava participando das rodadas de negociações. No entanto, o escritório da ministra canadense do Exterior, Chrystia Freeland, informou em nota após a notícia que sua ministra vai viajar a Washington amanhã para dar início às conversas.

Trump tem motivos de sobra para comemorar, pois o novo acordo parece ser mais favorável aos norte-americanos, além de fortalecer toda região. Entre os principais termos do novo pacto, destaque para obrigatoriedade de fabricação de 75% do conteúdo automotivo nos Estados Unidos ou México, superior aos atuais 62,50%.

O acordo também oferece mais direitos aos sindicatos mexicanos, além de exigir que 40% a 45% do conteúdo automotivo seja fabricado por trabalhadores que ganhem pelo menos 16 dólares por hora, ponto importante para frear o forte êxodo de indústrias dos Estados Unidos para o México observado nos últimos 20 anos.

Avanços também foram realizados a fim de melhorar o comércio agrícola na região. As novas regras manterão acesso livre de obrigações a bens agrícolas de ambos os lados da fronteira, eliminando barreiras não tarifárias para encorajar mais o comércio. O acordo tende a beneficiar fazendeiros norte-americanos, que operam com uma estrutura mais moderna, mecanizada e de maior escala. Por outro lado, não é tão prejudicial aos mexicanos, que vão apenas, aos poucos, fazer menos negócios com fornecedores de outros países, fora da região, para fazer mais negócios com fornecedores agrícolas norte-americanos.

Fechar acordo com os mexicanos foi importante, também, para pressionar o Canadá ainda mais, que atualmente é o segundo maior parceiro comercial dos Estados Unidos. Até então os canadenses estavam fazendo o possível para manter as condições do novo acordo semelhante ao "padrão Nafta".

Agora, com duas partes do bloco chegando ao consenso, os canadenses ficaram em desvantagem e podem sofrer uma negociação mais dura com os norte-americanos. Nas negociações que serão retomadas nesta semana, os Estados Unidos chegam para a mesa com um acordo selado na mão, restando ao Canadá fazer o possível para se manter dentro do bloco e transformá-lo numa espécie de Acordo de Comércio Estados Unidos-México-Canadá.

Apesar da necessidade de aprovação pelo Congresso dos Estados Unidos, o acordo não deixa de ser mais uma grande vitória de Donald Trump. Poucos acreditaram na possibilidade de renegociação do Nafta, concretizada hoje. Trump tinha as cartas na mão e precisou apenas pressionar para conseguir algo, a princípio, melhor para os norte-americanos.

Além disso, Trump quebra um pouco a imagem de protecionismo com o anúncio de um novo acordo comercial. Demonstra ao mundo que os Estados Unidos não querem fechar as portas para o comércio, mas sim reduzir seu enorme déficit na balança comercial e realizar transações mais justas para ambas as partes.

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sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Powell carimba nova máxima em Jackson Hole


O importante simpósio anual de política monetária do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) realizado em Jackson Hole, no estado norte-americano de Wyoming, acompanhado por banqueiros centrais do mundo inteiro, transmitiu sinal de serenidade e controle para o mercado financeiro global.

O discurso mais importante, realizado por Jerome Powell, presidente da autoridade monetária norte-americana, endossou boas condições para manutenção da estratégia extremamente gradual de normalização das condições monetárias.

De imediato, Powell descartou o risco de superaquecimento da economia, mesmo com os efeitos da reforma tributária de Donald Trump sobre o mercado de trabalho já considerado aquecido. A taxa de desemprego nos Estados Unidos gira em torno de 4% ao ano, nível mais baixo em quase duas décadas.

Alguns analistas temem que o longo período de crescimento, juntamente com o recente impulso fiscal e taxa de desemprego muito baixa, poderia superaquecer a economia, o que forçaria o Banco Central dos Estados Unidos agir emergencialmente com medidas contracionistas.

O presidente do FED não parece concordar com essa hipótese, mas também não quer interromper ou reduzir a velocidade do processo de normalização das condições monetárias (via aumentos graduais da taxa básica de juros e lenta redução do balanço da autoridade monetária).

Powell afirma que a estratégia do banco central é a melhor forma de proteger a economia, manter o mercado de trabalho mais aquecido possível e inflação sob controle. Isso significa que nada deve mudar na política monetária. Mesmo com a inflação sob controle, ancorada na meta de 2% ao ano, sem perspectiva de superá-la, Powell quer manter os aumentos graduais da taxa básica de juros, o que pode ser enxergado como uma medida preventiva, até porque a atividade não apresenta sinais de fadiga.

A estratégia do FED diverge da visão de Donald Trump, que alguns dias atrás se mostrou contrário as altas de juros. Dificilmente, político de qualquer país defenderia aumento gradual de juros num cenário de inflação ancorada na meta. Powell utilizou o simpósio em Jackson Hole para mostrar ao mundo, mais uma vez, a importância de uma economia operar com o Banco Central independente.

Previsibilidade na política monetária, economia em boa fase de expansão, baixos riscos para o futuro, reafirmação de independência e força da autoridade monetária. Wall Street foi ao delírio nesta sexta-feira, fechando mais uma semana bem positiva.

O índice S&P500 renovou máxima histórica ao atingir 2.874 pontos, aumentando ainda mais a força do movimento de recuperação de preços, iniciado no mês de abril. Mercado segue em tendência principal de alta, sem sinalização de reversão.


O fluxo também segue comprador no mercado de bonds. A taxa da Treasury de 2 anos fechou a sexta-feira aos 2,63%, abaixo do pico registrado no mês passado aos 2,69%, interrompendo o movimento de abertura observado nos últimos meses, trabalhando, agora, movimento de lateralização.

A taxa de juros da Treasury de 10 anos recuou para 2,82%, inferior à máxima do ano registrada aos 3,11%. O movimento no título do tesouro norte-americano de 10 anos também é de lateralização, interrompendo um longo período de abertura.
  

Entretanto, o clima positivo de Wall Street não está sendo replicado integralmente de forma generalizada entre as praças financeiras mundiais. As praças europeias, por exemplo, não estão em bear market, mas ainda relativamente distante de renovar máxima histórica. O mesmo quadro pode ser observado no Japão.

A bolsa de Bombay, na Índia, continua se destacando, alcançando novo recorde histórico nesta semana, aos 38.251 pontos. Nas demais praças emergentes, o cenário é mais desafiador. A bolsa de Xangai, na China, opera em bear market aos 2.729 pontos, patamar bem inferior aos 3.587 registrados no mês de janeiro deste ano.

África do Sul sofreu um duro golpe nos últimos meses. Apesar da recuperação desta semana, o mercado segue bear. Coreia do Sul ainda não opera sob o status de bear market, mas segue relativamente distante de alcançar máxima do ano. A bolsa da Rússia tenta se manter acima da média móvel simples de 200 períodos semanal, congestionada desde 2017.

México segue em recuperação intensa de preços, porém ainda abaixo da média móvel simples de 200 períodos semanal. Desde 2015, o mercado tem mostrado fortes solavancos, tanto para baixo, quanto para cima. No Brasil, o índice Bovespa segue relativamente distante da máxima do ano, vendido a curto prazo, pressionado pela formação de topo descendente na região dos 81,8k.

A segunda semana consecutiva formada por candle de pavio longo superior e/ou inferior mostra disputa muito acirrada em função da importância do patamar de 76k/75k. Acima dessa região, players posicionados na ponta comprada defendem suas posições e o mercado volta criar chances de atacar novamente os 81,8k. Porém, abaixo dos 75k, um pivot de baixa seria acionado, adicionando força à perna de descendente iniciada neste mês de agosto, abrindo espaço para manutenção e/ou abertura de posições vendidas.

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terça-feira, 21 de agosto de 2018

Está na hora de partir para o plano B


Justificadamente, o mercado financeiro nacional voltou a entrar em pânico, mais uma vez, descolado das demais praças financeiras mundiais. O motivo é mais do que conhecido pelos investidores de longa data. Não está relacionado apenas ao cenário de curto prazo provocado pelas eleições, mas sim ao conjunto da obra. A cilada macroeconômica verde e amarela.

Os primeiros sinais de aviso prévio do mercado foram emitidos ainda no mês de março deste ano, quando os contratos de juros futuros interromperam a longa trajetória de baixa, apesar de o Banco Central ter continuado cortando a taxa básica de juros.

Mesmo com a situação macro nitidamente delicada, imposta pela confirmação da impossibilidade de aprovação da reforma da previdência, a autoridade monetária optou por deixar as defesas desguarnecidas desnecessariamente, como se nada de relevante tivesse acontecido.

Cerca de dois meses depois do primeiro sinal de aviso prévio emitido pelo mercado, o câmbio estourou. Foi neste momento, no início do mês de maio, que o Banco Central anunciou intervenções mais pesadas na moeda, alegando necessidade de suavizar os movimentos.

O mercado não engoliu a desculpa esfarrapada apresentada pela autoridade monetária para intervir de forma mais pesada no câmbio. Consequência deste novo erro estratégico, o dólar furou o patamar de R$ 3,50 com violência e pegou ainda mais força. O mercado estava perdendo a paciência e o Banco Central insistindo em tapar o sol com a peneira.

Mesmo com as intervenções mais agressivas no câmbio, o Banco Central perdeu a briga com o mercado. Como um pais altamente endividado, carregado de histórias problemáticas, desarrumado na parte macro e micro, corrupto e repleto de gargalos poderia sustentar uma moeda forte/estável com uma taxa básica de juros na mínima histórica?

Mesmo depois de uma forte recessão, a economia não conseguiu encontrar boa tração de retomada, os investimentos continuam ridiculamente baixos, o desemprego segue elevado, as reformas viraram contos de fadas, o ambiente de negócio continua no mesmo lamaçal do passado e, o único alento, provocado pela queda da taxa Selic, infelizmente não se repercutiu na economia, já que as linhas de crédito continuam obscenas.

O governo pode utilizar o discurso/estratégia de melhor conveniência, mas o mercado cobra preço. Diante da apatia e/ou falta de ação, o dólar contra real renovou novo recorde do ano, alcançando 4,03.

Quando se compara o deslocamento do dólar contra real (linha preta) com o deslocamento do dólar contra cesta de principais moedas globais (linha pontilhada), pode-se notar que nos últimos dias houve um descolamento muito forte desfavorável ao real, ratificando que o nosso cenário é desafiador e as defesas podem estar desguarnecidas.


No mundo, o dólar contra cesta de moedas opera em queda de curto prazo. Contra o real, o dólar opera em forte alta de curto prazo.

Esse tipo de descasamento não é tão comum pela força do movimento observado nos últimos dias e deveria impor uma necessidade de o Banco Central partir para o plano B imediatamente: elevar a taxa básica de juros para tentar frear a forte desvalorização da moeda e acalmar o mercado.

Na circunstância atual, não há necessidade de choque de juros. Longe disso. Um movimento simbólico de 0,50 p.p., trazendo a Selic para 7% ao ano, mantendo a porta aberta para novos aumentos-defensivos no futuro, poderia ser considerado uma dosagem suficiente para acalmar os ânimos no momento.

O problema é que muito possivelmente o Banco Central vai insistir nas intervenções cambiais e evitar subir a taxa Selic no curto prazo em função suposto do peso político. O que não faz muito sentido, pois o tombo de 14,25% para 6,50% não foi replicado nem de perto na economia, basta notar que os bancos continuam operando linhas de crédito como se a Selic estivesse, ainda, em dois dígitos.

Portanto, o Banco Central finge que não precisa subir os juros, mas o mercado é soberano nas taxas futuras. O contrato de DI com vencimento em 2025 fechou esta terça-feira aos 12,17% ao ano, mostrando significativo prêmio de 5,67 p. p. sobre a taxa básica de juros.


O novo rali nos contratos de juros futuros provocou formação e fundo ascendente duplo no final do mês julho e início do mês de agosto, em 10,77% para o DI de 2025. Esse movimento reforça a tendência de alta nas taxas futuras iniciada no mês de março deste ano. Caso a máxima de junho, registrada em 12,82%, seja rompida, um longo e perigoso pivot de alta será acionado, podendo sacramentar de vez a reversão do ciclo no mercado.

Sem plano B, o alçapão no mercado tende a se manter armado, impondo uma nova dinâmica sobre os preços dos ativos locais.

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segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Presidiário presidente


A semana começou quente no mercado financeiro com as primeiras pesquisas de intenção de voto mostrando um cenário eleitoral desafiador. Circularam muitos comentários no mercado relacionado ao fraco desempenho de Geraldo Alckmin, sustentando um sentimento de decepção profunda.

A pesquisa Ibope divulgada nesta segunda-feira mostrou o candidato do PSDB com apenas 5% das intenções de voto num cenário com Lula e 7% das intenções de voto num cenário sem Lula.

Desta vez, não cabe a Alckmin justificar o seu baixo desempenho em função de não ser conhecido pela população. A pesquisa foi realizada entre os dias 17 e 19 de agosto, repercutindo as reações do público após duas rodadas de entrevistas na TV com audiência elevada (Roda Viva e Globo News) e um debate em rede nacional.

Apesar de a campanha estar apenas começando, está claro que Alckmin não consegue convencer o eleitor. O tempo de televisão parece ser sua única carta na manga. Agora está mais evidente, também, entender porque o PSDB se rendeu ao Centrão. Será necessário muita propaganda para alcançar o segundo turno.

Por outro lado, o PT tem demonstrado exatamente o oposto com o seu candidato inelegível. Lula segue disparado na liderança com 37% das intenções de voto, praticamente o dobro das intenções de voto do segundo colocado (Jair Bolsonaro). Essa simulação ainda não incorporou o cenário pró-Lula e pró-PT provocado pelo recente gesto da ONU.

O Comitê de Direitos Humanos da Organizações das Nações Unidas afirmou que o Estado brasileiro deveria garantir ao candidato do PT o exercício de todos os seus direitos políticos, inclusive disputar as eleições, mesmo que na prisão. A recomendação da ONU não tem efeito sobre a legislação brasileira, que inclusive é bastante clara sobre o aspecto da candidatura de Lula. Condenado em duas instâncias, Lula é um ficha-suja e não pode disputar as eleições. Não há como interpretar a lei de outra forma.

O gesto da ONU apenas aumentou a complexidade do quadro brasileiro, voltando a criar dúvidas entre os agentes sobre a participação ou não de Lula nas eleições. Outro ponto relevante é que a declaração da ONU reforça o discurso de vitimização utilizado pelo PT (estratégia que tem se mostrado assertiva), adicionando potencial de crescimento ainda maior nas intenções de voto para o ex-presidente.

Não por acaso, o clima no mercado local voltou a azedar. Especula-se até que ponto a lei conseguirá suportar o peso político da não candidatura de Lula. Volta-se criar, também, o desconforto com certezas do passado que se tornam incertezas no futuro. O mercado se adapta mais facilmente a uma certeza negativa do que a uma incerteza (seja positiva ou negativa).

O único ponto concreto é que as pesquisas mostram impressionante força de Lula e do PT, mesmo depois de tantos escândalos de corrupção e governos desastrosos. Ainda não é possível avaliar a capacidade de transferência de votos do Lula para Fernando Haddad, mas não se deve descartar a força de quem permitiu que a Dilma subisse a rampa do Planalto em duas ocasiões.

Por fim, se as eleições fossem realizadas hoje, os brasileiros poderiam estar elegendo um presidiário para presidente da República. Lula está prestes a alcançar mais da metade dos votos válidos, o que garantiria uma vitória em primeiro turno. Imagina o que esperar para a formação do novo Congresso, onde 80% dos deputados federais tentarão reeleição. Cada povo tem o governo que...

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sexta-feira, 17 de agosto de 2018

TCU acaba com agonia do teto de gastos


A pec do teto de gastos é considerada uma das poucas mudanças positivas que o governo Temer deixará para o futuro do país. A regra foi implementada com objetivo de limitar o crescimento exponencial das despesas do governo.

O racional é bastante simples: o governo e todas as suas esferas só poderão gastar a mesma quantia do ano anterior, corrigida pela inflação. A imposição do teto tem um prazo de 20 anos, que é o tempo necessário para reequilibrar as contas públicas da forma menos traumática possível.

Caso o teto de gastos seja descumprido, poderes ou órgãos ficarão automaticamente impedidos no exercício seguinte de reajustar salários, contratar funcionários, realizar concursos públicos ou criar novas despesas até que os gastos retornem ao limite previsto na lei.

As despesas de 2017 e 2018 estão dentro da nova lei do teto de gastos. Entretanto, para os próximos anos, o teto se tornará inviável sem aprovação da reforma da previdência, simplesmente porque os gastos com a previdência estão crescendo quase o dobro da inflação. Mantendo este ritmo, chegaremos num ponto onde as aposentadorias e pensões irão comprimir o resto do orçamento, a ponto de não sobrar dinheiro para as despesas discricionárias (não obrigatórias), como os investimentos, manutenções, obras públicas, entre outros.

Não por acaso, desde 2016, já se alertava que o teto de gastos seria insustentável sem aprovação da reforma da previdência. Sem poder alterar as despesas obrigatórias e sem recurso para as despesas discricionárias, o Brasil iria parar. O emaranhado de obras públicas paralisadas é apenas uma amostra grátis do que está para acontecer caso mudanças não sejam feitas nos próximos anos.

O “ajuste fiscal” realizado na atual gestão tem se concentrado, basicamente, nos gastos discricionários. O investimento em infra-estrutura, por exemplo, que é uma das principais válvulas de impulso ao crescimento (tática muito utilizada por economias asiáticas emergentes), praticamente inexiste no Brasil.

Gasta-se tanto dinheiro com cheques preenchidos e benefícios, que não sobra espaço no orçamento para segmentos importantes, como investimento, infra-estrutura, educação e pesquisa. Recentemente o STF (Supremo Tribunal Federal) contribuiu para a conta dos cheques preenchidos aumentar um pouco mais, ao propor reajuste salarial de 16,3%. Se aprovada, a medida cria efeito cascata em salários de vários outros servidores.

Se já estava difícil pensar na eficácia do teto de gastos sem a reforma da previdência e com essa nova onda de reajustes salariais, piorou agora que o TCU (Tribunal de Contas da União) abriu oficialmente a porteira para a boiada passar por cima do teto de gastos.

Os ministros do TCU decidiram excluir do teto de gastos da União as despesas dos órgãos públicos com a realização de concursos, desde que sejam financiadas pelas taxas de inscrição. Os ministérios da Fazenda e do Planejamento entraram com embargos contra a decisão, obviamente sem sucesso, pois está muito claro que certas camadas da população não toleram ajuste fiscal.

O ministério da Fazenda adverte que a decisão do TCU poderá representar o desmonte do teto de gastos. A avaliação está correta, já que a decisão do TCU cria uma nova forma de interpretação da lei, estratégia que pode ser utilizada por outros órgãos/setores da União.

Em nota, o ministério da Fazenda e do Planejamento mostram que a excepcionalidade criada pelo TCU pode ensejar possibilidade de construções interpretativas com o intuito de gerar outras excepcionalidades para despesas públicas custeadas a partir de receitas próprias, com potencial de efeito sistêmico elevadíssimo.

A dúvida que restava sobre a viabilidade do teto de gastos na próxima gestão parece estar chegando ao fim. Não foi preciso esperar o fim do processo eleitoral. O teto, sequer, precisa ser discutido em campanha, já está fadado ao fracasso. A agonia sobre a viabilidade ou não do teto foi, agora, substituída pela agonia sobre o valor a ser pago por nós na próxima fatura. Os zeros à direita estão aumentando.

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terça-feira, 14 de agosto de 2018

Atuações de banqueiros centrais acalmam investidores


Depois de um fechamento aterrorizante na sexta-feira da semana passada, banqueiros centrais de países emergentes altamente endividados em moeda estrangeira atuaram em seus respectivos mercados nesta semana, acalmando os ânimos mais exaltados dos investidores mundo afora.

Pouco comentada e não tão modesta, o Banco Central da Turquia anunciou no começo desta semana uma injeção de 6 bilhões de dólares no sistema financeiro local para garantir a liquidez dos bancos e reduzir o clima de aversão ao risco no mercado.

A injeção ocorrerá a partir da redução dos limites de reservas de divisas permitidas aos bancos comerciais turcos com objetivo de retirar liras do mercado, voltar a circular mais dólares no sistema e, assim, estabilizar a taxa de câmbio. A medida é difícil de ser entendida pelos populares locais, que se apegam à taxa básica de juros, porém tem potencial de impacto relevante no mercado. Criado em 2011, o mecanismo de opção de reserva determina a porcentagem de reservas financeiras que um banco turco pode se posicionar, seja em moeda estrangeira, ouro ou lira.

Além da revisão do mecanismo, contribuiu para acalmar os ânimos dos investidores o fato de que o ministro das Finanças da Turquia, Berat Albayrak, realizará teleconferência com players de mercado nesta próxima quinta-feira. Albayrak desfruta de baixa reputação por ser cunhado do presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan.

Mesmo sendo um possível fantoche, o fato de o ministro das Finanças agendar sua primeira teleconferência com players de mercado, desde que assumiu o cargo, há dois meses, pode sinalizar uma tentativa de diálogo do presidente da Turquia. Quando está na mira dos holofotes, Erdogan segue fazendo seu show midiático, atacando o mercado.

Entretanto, nos bastidores, parece rodar outro filme. Inclusive, circularam boatos de que o FMI (Fundo Monetário Internacional) foi acionado pelo governo da Turquia para uma assistência financeira ($$$). Os boatos forçaram a instituição emitir nota negando o aceno das autoridades turcas.

A atuação mitigadora do Banco Central da Turquia foi seguida por uma intervenção preventiva-surpresa do Banco Central da Argentina. Na segunda-feira, a autoridade monetária argentina elevou abruptamente sua taxa básica de juros de 40% para 45% ao ano, numa reunião de Comitê emergencial.

O Banco Central justificou sua decisão em resposta à conjuntura externa atual e ao risco de um novo impacto sobe a inflação local. O peso argentino sofreu pesada perda com a onda de aversão ao risco em praças emergentes observada recentemente. Além da decisão surpresa, a autoridade monetária foi ainda mais ousada se comprometendo manter o nível da taxa de juros até, pelo menos, outubro/2018.

Para reforçar a atuação preventiva, o Banco Central da Argentina também anunciou ontem um plano para acelerar a redução do estoque de Lebacs (Letras do Banco Central – bônus local), que faz parte dos instrumentos de implementação da política monetária. O objetivo é reduzir gradualmente o estoque de Lebacs pela metade, de 1 bilhões de pesos para cerca de 500 milhões de pesos, num movimento considerado ortodoxo.

Ao final do processo de redução gradual das Lebacs, o estoque destes instrumentos emitidos pela autoridade monetária ficará apenas sob posse de instituições financeiras locais, o que permitirá melhorar a eficácia da estratégia de política monetária e reduzir a vulnerabilidade do mercado cambial.

Refletindo as atuações dos banqueiros centrais, os preços dos ativos de risco nas principais praças financeiras mundiais repicaram para cima na segunda e terça-feira. O índice S&P500 conseguiu se manter acima da linha central de bollinger, aos 2.839 pontos, trabalhando dentro de uma tendência de alta iniciada em abril/2018.

Na Índia, a bolsa de Bombay voltou a subir após dois pregões consecutivos de baixa, iniciando nova aproximação com a máxima histórica. A bolsa mexicana fechou em alta aos 209 pontos, se mantendo acima da média móvel simples de 200 períodos diária. África do Sul trabalha formação de fundo duplo com a alta registrada nesta terça-feira.

Na Rússia, a bolsa de valores fechou em forte alta pelo segundo pregão consecutivo, respeitando a principal linha de suporte de curto e médio prazo aos 1.040 pontos. Quadro semelhante ocorreu no Brasil, com o Ibovespa fechando em alta relevante pelo segundo pregão consecutivo, formando piso (ao menos a curto prazo) aos 75.900 pontos.

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sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Colapso na Turquia é mais grave do que parece


O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, implorou, nesta sexta-feira, para que os cidadãos troquem seus dólares e barras ouro debaixo dos colchões por moeda turca. Esta não é a primeira vez que Erdogan faz esse pedido maluco e nem será a última.

Quando um líder político faz este tipo de súplica, ao mesmo tempo em que ataca o mercado financeiro em rede nacional, aclamando a população por uma luta nacional, é um forte sinal de que a vaca foi pro brejo. Incentivar os cidadãos trocar dólares ou ouro por lira turca é uma tentativa desesperadora de frear a desvalorização excessiva da moeda local, que apenas expõe as fragilidades da economia.

As reportagens na imprensa se concentraram na insignificante tensão diplomática da Turquia com os Estados Unidos. Os norte-americanos exigem a libertação de um pastor protestante detido na Turquia sob acusações de vínculos terroristas. O religioso não foi libertado pelos turcos e o aumento das tarifas sobre o aço e alumínio imposto pelos norte-americanos foi encarado como metida retaliatória, o que é inadequado.

Os Estados Unidos aumentaram as tarifas sobre o aço e alumínio da Turquia para 50% e 20%, respectivamente, simplesmente para compensar a rápida desvalorização da lira turca frente ao dólar, o que poderia criar situação de competição desleal/injusta em função do fator câmbio.

A desvalorização agressiva da lira turca é reflexo de uma série de problemas macroeconômicos não resolvidos no passado que, neste momento, estão explodindo de uma só vez. Tudo começou com a reeleição do presidente Erdogan no mês de junho, com a promessa de manter a taxa de juros baixa para induzir o crescimento econômico, mesmo aturando uma inflação mais alta.

A taxa básica de juros na Turquia está em 17,75% ao ano, ainda assim descalibrada para combater a inflação crescente que já alcança 15,85% ao ano, a maior desde a crise de 2008. A recente decisão do Banco Central da Turquia, de manter a taxa básica de juros inalterada, em meio ao cenário de forte aceleração da inflação, reforçou a percepção do mercado de falta de independência da autoridade monetária.

Possivelmente a decisão de segurar os juros veio do presidente da Turquia, cumprindo sua promessa de campanha. Erdogan perdeu a confiança do mercado e, consequentemente, os ativos de risco entraram em pânico. A taxa de juros do título de 10 anos se aproxima dos 19% ao ano e a lira turca saltou para 6,41 dólares. A moeda local era negociada na faixa de 3 dólares em 2016. Somente nesta semana, a lira turca perdeu 1,41 dólares, marcando seu pior momento desde a crise de 2008.


Essa é apenas a ponta do iceberg. A economia ainda passa por um período de baixo consumo interno, elevado déficit em conta corrente e carente de investimentos estrangeiros. Além disso, governo, empresas e famílias estão altamente endividados em moeda estrangeira.

Um estudo do Deutsche Bank mostrou que a dívida em moeda estrangeira do governo, setor financeiro e não financeiro da Turquia alcança cerca de 70% do PIB. A agência estatal de notícias Anadolu afirma que a dívida externa é de 466 bilhões de dólares, o que equivale a 53% do PIB. Mesmo que os números da agência estatal estejam corretos (ou fossem mais confiáveis), ainda assim seria uma quantia impagável com a forte desvalorização da moeda local.
  

Não por acaso a delicada situação da Turquia abateu as praças financeiras do mundo inteiro. O endividamento em moeda estrangeira da Turquia é o maior do mundo. É a primeira peça do dominó. Se a Turquia cair (entrar em default), outros países altamente endividados em moeda estrangeira como Hungria, Argentina, Polônia e Chile poderiam seguir pelo mesmo caminho, criando uma crise sistêmica global sem precedentes.

Para piorar, o Instituto de Finanças Internacionais estima que a necessidade de financiamento da Turquia para este ano é de 218 bilhões de dólares, podendo chegar a 240 bilhões de dólares, tanto para cobrir o déficit em conta corrente, quanto para pagar parcelas a vencer da dívida.

Um default na Turquia poderia impactar imediatamente, ou colocar em situação de insolvência, alguns bancos na Espanha, França e Itália. Por este motivo, vazou informação no Financial Times de que o BCE (Banco Central Europeu) está acompanhando de perto a crise na Turquia.

O sistema financeiro europeu provavelmente não suportaria um calote de tamanha proporção por parte dos turcos. Portanto, a crise na Turquia é mais grave do que parece por dois motivos básicos: (i) rápida propagação pelo sistema financeiro e (ii) contaminação em efeito dominó sobre outros países emergentes.

Se a situação começar sair de controle, banqueiros centrais e lideres políticos globais entrarão em ação para impedir um contágio maior no mercado. Já se comenta que a Turquia está sendo pressionada a impor controles de capital e pedir ajuda financeira à Rússia. Por fim, resta uma carta na manga que Erdogan resiste em não queimar: choque de juros para frear o câmbio e acalmar o mercado.

A Turquia não é nenhum cisne negro, pois já vem se arrastando há alguns meses, mas serve para relembrar que o mercado pode criar suas crises da noite para o dia, quando quiser, não por irracionalidade ou crueldade, mas simplesmente por deixar de fazer vista grossa aos problemas econômicos.

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terça-feira, 7 de agosto de 2018

Está aberta a temporada da boataria eleitoral


A terça-feira marcante deste dia 07 de agosto de 2018 abriu a temporada da boataria eleitoral. A praça brasileira amanheceu positiva, com bolsa em alta (voltando a se aproximar dos 82.000 pontos), dólar vendido (testando o piso de curto prazo dos R$ 3,70) e juros futuros colados na mínima do mês.

No cenário externo, o humor seguia positivo, sem nenhuma novidade relevante. Tudo parecia corroborar por mais um dia rotineiro, já que o mercado vem de uma sequência de seis semanas consecutivas de valorização nos preços dos ativos de risco locais.

Entretanto, a partir das 14h15 o cenário passou a mudar drasticamente. Em poucos minutos a bolsa despencou para 79.900 pontos, o dólar disparou para R$ 3,77 e os juros futuros inverteram fortemente o direcional, passando a abrir no intraday. Muitos investidores começaram correr atrás de notícias, pois algo pesado estava impactando o mercado. Foi neste momento que pode ser constatado o início da temporada da boataria eleitoral.

O que parece ter sido o primeiro boato a circular no mercado, talvez o mais forte, está relacionado ao resultado da pesquisa de intenção de voto da CNT/MDA desfavorável ao candidato de centro-direita (queridinho do mercado) Geraldo Alckmin. Os números serão divulgados amanhã e refletem apenas o universo de eleitores do estado de São Paulo. Portanto, se confirmado o boato, um desempenho negativo em seu próprio estado seria um grande revés para Alckmin, que até então vinha numa ascendente na avaliação do mercado, por conta das alianças com os partidos do Centrão (leia-se mais tempo de televisão).

Supostamente para reforçar o viés negativo do primeiro boato, passou a circular um novo boato no mercado sobre a possibilidade de homologação de delação premiada do ex-presidente da Dersa (Desenvolvimento Rodoviário S.A.), Laurence Casagrande Lourenço, contra Alckmin. Há uma investigação em curso da Operação Pedra no Caminho, que mira fraudes em obras do Rodoanel Trecho Norte.

E já que a lógica parecia ser empurrar o mercado para baixo, começaram a circular até mesmo notícias sem lógica, como a possibilidade de o ex-presidente e candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, ser liberado para fazer entrevista pela internet mesmo estando preso. WTF?

Em suma, fato é que o mercado brasileiro passou por forte volatilidade na tarde desta terça-feira e movimentos semelhantes poderão ocorrer nos próximos dias/semanas/meses, até que se defina quem subirá a rampa do Planalto, como se um simples nome fosse um divisor de águas para o nosso futuro.

Com discussões de tão baixo nível, até mesmo no ambiente de mercado, juntamente com uma população viciada no Estado grande, talvez a reforma que estará em jogo no próximo ano não será a da previdência, mas sim a reforma do Teto de Gastos, pronta para ser devorada pelo próximo Congresso se não conseguirmos eleger 308 heróis.

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segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Xing lings shorteados


As atuais condições de mercado permanecem boas no mundo inteiro. O humor positivo predomina nos preços dos ativos de risco nas principais praças financeiras, mas existe uma exceção. Alguém ficou fora desta última festa.

Levando uma baita tapa, com “T” de Trump, Xangai sucumbe solitariamente ao bear market. Muitos sabem que a economia xing ling tem seus sérios problemas, mas ninguém ousava em atacar. Mr. Green, ou Luis Stuhlberger para os mais formais, o genial gestor do fundo Verde, foi um dos poucos corajosos no mundo a carregar o peso de apostar contra China no passado.

Stuhlberger apontava muito bem os problemas da China em suas cartas mensais, mas na época travou uma dura batalha contra as intervenções do Banco Popular e acabou anunciando sua rendição recentemente, talvez por certa pressão dos novos cotistas batizados (acostumados) na era da renda fixa ou do próprio mercado de hedge funds brasileiro que ficou mais competitivo e imediatista.

Muitos questionaram as posições contra China montadas pelo Mr. Green. Ao contrário do que se imagina, não eram tão arriscadas ao ponto de colocar em risco o patrimônio do fundo, porém permitiam ganho satisfatório caso o mercado se deslocasse conforme o racional. O simples fato de perder para o CDI durante algum tempo causou rebeldia em parte dos cotistas.

Inclusive, de forma geral, os gestores de multimercados macro estão sofrendo pressão para entregar o padrão de retorno que o órfão da renda fixa brasileira estava acostumado a receber no passado. O fundo Verde sofreu duras críticas por ter entregado 5,25% de retorno em 2017, diante de um CDI de 9,95%, embora o resultado não tenha feito diferença alguma ao retorno acumulado do fundo desde o início até o fim de 2017: 14.612,59% do Verde versus 1.904,99% do CDI.

Especula-se que o Mr. Green perdeu a mão, mas na verdade o gestor pode ter perdido a paciência. O mercado provou que a tese contra a China estava correta. A bolsa de Xangai alcançou 3.587 pontos no mês de janeiro deste ano e hoje opera aos 2.705 pontos, renovando mínima de 2016, completamente shorteada.


A imagem acima mostra que o bear market da China se destoa totalmente do bull market de Wall Street e do resto do mundo. A linha pontilhada revela o desempenho do S&P500, enquanto a linha preta mostra o desempenho da bolsa de Xangai.

Quem está levando a pior na guerra comercial? Quem tem menos a perder e mais a ganhar? Quem está mais vulnerável e com mais problemas internos? A discrepância entre as duas bolsas de valores responde essas perguntas.

Muito se discute na mídia sobre as armas que a China poderia utilizar para combater os ataques de Donald Trump. Porém existe pouca margem de manobra para um contra ataque de mesmo nível, até porque com tantas complexidades internas, Donald Trump é o menor dos problemas xing lings. Não por acaso, no mundo dos negócios, ao menos por enquanto, está claro quem está ganhando e quem está perdendo.

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quinta-feira, 2 de agosto de 2018

BoE se descola do BCE e aumenta novamente taxa básica de juros


O Bank of England (autoridade monetária britânica) elevou a taxa básica de juros nesta quinta-feira de 0,50% para 0,75% ao ano. Este é o segundo aumento registrado em menos de 12 meses. Em novembro do ano passado, o BoE subiu a taxa básica de juros de 0,25% para 0,50%, no primeiro gesto de aperto monetário desde o estouro da crise do subprime.

A autoridade monetária britânica também antecipou que novos aumentos poderão surgir nos próximos anos, porém em ritmo bastante gradativo. O aumento da taxa básica de juros britânica está mais lento do que o aumento observado na federal funds rate (taxa básica de juros norte-americana). É como se o FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) estivesse se movendo em velocidade de tartaruga e o BoE em velocidade de lesma.

Entretanto, dois dos principais banqueiros centrais mundiais já estão trabalhando estratégia de aperto nas condições monetárias. O BCE (Banco Central Europeu) se prepara para iniciar o processo de reversão na taxa básica de juros em meados de 2019 e BoJ (Bank of Japan) está fora da rota, sem perspectiva de aperto nas condições monetárias.

Ao contrário do terror propagado pela imprensa há alguns anos, o BoE não parece tão preocupado com o Brexit em curso, caso contrário não estaria subindo sua taxa básica de juros. A economia também segue trajetória de retomada satisfatória, inclusive a projeção do PIB britânico subiu para 1,8% em 2019. Para este ano, espera-se crescimento de 1,4%.

O aumento na taxa básica de juros britânica poderá prejudicar milhões de famílias que possuem hipotecas, porém há dois possíveis elementos positivos na jogada do BoE: (i) impor um freio ao mercado imobiliário local, agindo preventivamente contra um aquecimento exagerado no setor e (ii) ajudará a poupança dos britânicos ou dos investidores estrangeiros que aplicam em títulos públicos e privados no Reino Unido, pois o aumento da taxa básica de juros provocará aumento na rentabilidade dos títulos, deixando-os mais atrativos em relação aos seus pares.

Este segundo ponto pode ser uma cartada tática importante para o cenário pós-Brexit. O quadro político e econômico pode até impor obstáculos às relações comerciais entre diferentes países, mas no mercado financeiro não existem fronteiras. Quando a divisão política estiver estabelecida, poupadores de toda a Europa, principalmente alemães, tendem a não permanecer com o capital dentro do círculo da União Europeia caso as taxas locais estejam (bem) mais baixas do que as praticadas no Reino Unido.

Portanto, o BoE pode estar preparando terreno para disputar fluxo de capital no pós-Brexit. O processo de elevação da taxa básica de juros impõe força para que os rendimentos dos títulos locais também subam. Como o BCE ainda não começou a subir sua taxa básica de juros, o Reino Unido larga na frente e, ainda, pode remunerar melhor o capital no overnight das instituições financeiras locais, outra importante ferramenta para impedir a temida fuga dos bancos de investimento para outras praças.

Por fim, o BoE deu outro importante passo ao replicar a estratégia adotada pelo FED sobre a taxa neutra de longo prazo. Na reunião encerrada nesta quinta-feira, o BoE publicou pela primeira vez sua estimativa para o ponto de equilíbrio na taxa básica de juros, nível capaz de manter a inflação ancorada na meta e permitir a economia crescer a plena capacidade.

É muito difícil calcular juros neutro (equilíbrio) de longo prazo com exatidão, mas a divulgação da taxa neutra por parte de uma autoridade monetária é uma importante ferramenta para guiar as expectativas do mercado e deixar o horizonte mais claro aos investidores. O BoE estima que o juro neutro nominal esteja entre 2% a 3% ao ano, algo parecido com os 3% cravados do FED.

Cientes da estimativa de juro neutro, os investidores conseguem traçar melhor um panorama de mercado em suas carteiras e se sentem mais confortáveis para tomarem decisões de alocação de capital.

No Brasil, a prática da autoridade monetária ainda não alcançou tal nível de excelência. Não existe, sequer, cenário concreto para a taxa básica de juros de curto prazo ou para as próximas decisões do Copom, basta observar o histórico dos últimos quatro meses ou mesmo a montanha russa dos últimos dez anos.

Os investidores apenas perderam tempo ao ler o comunicado da última reunião do Banco Central do Brasil, encerrada ontem. Não houve sinalização de movimentação/estratégia para as próximas reuniões, nem muito menos para o próximo ano, que dirá para o início da próxima década. O nosso cálculo de juro neutro parece ser mais complexo do que entender a fórmula E=mc2 de Albert Einstein, isso porque nunca tivemos nos pouco mais de 500 anos de história planejamento de longo prazo. Agimos para solucionar problemas de curto prazo e torcemos para que o mercado seja generoso no longo prazo.

Nos Estados Unidos, o FED decidiu manter sua taxa básica de juros inalterada entre 1,75% a 2% ao ano, mantendo seu cronograma de política monetária esboçado há duas gerações atrás. O movimento iniciou com a sinalização (antecipação) na gestão Bernanke, se concretizou na administração Yellen e prossegue na gestão Powell. Um aperto monetário lento, gradual, sem surpresas, em direção ao juro neutro de 3% no longo prazo.

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