terça-feira, 28 de agosto de 2018

Afrouxamento monetário está com os dias contados na Europa


O BCE (Banco Central Europeu) anunciou no mês de junho/2018 a intenção de encerrar seu programa agressivo de compras mensais de ativos ainda neste ano. A partir deste mês de setembro, as compras mensais de bônus serão reduzidas para apenas 15 bilhões de euros. Em dezembro, o BCE vai realizar sua última rodada de compra mensal, para, no mês seguinte, suspender totalmente o programa.

Apesar de ter anunciado a suspensão no mês de junho, muitos analistas criticaram a postura excessivamente dovish do BCE, ao antecipar que não pretende subir a taxa básica de juros antes de setembro de 2019, além de continuar reinvestindo os títulos que forem vencendo no balanço com novas compras.

Na teoria, o BCE utilizou um discurso para dar impressão de que está tentando reduzir a distância de percurso em relação ao FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) e ao BoE (Bank of England), mas na prática a política monetária continuaria frouxa com a taxa de refinanciamento em zero, taxa de depósito interbancário negativa (em -0,4%) e 2,6 trilhões de euros sendo rolados no balanço da autoridade monetária.

O vício acomodatício do BCE pode ser explicado pelo temor de impacto da oscilação do dólar sobre o euro. O movimento de apreciação do dólar contra o euro é considerado relevante e ganhou força no mês de maio deste ano. O alívio observado nas últimas semanas ainda é insuficiente para demonstrar uma reversão de tendência e/ou fortalecimento do euro.


Há algum tempo, autoridades de bancos centrais da Alemanha e de outros países do norte da Europa estão pressionando o BCE por uma normalização das condições monetárias, até para que a instituição possa ter mais munição para enfrentar um futuro desaquecimento na economia.

Mario Draghi, presidente do BCE, também defende que não há perspectiva para começar a reversão do balanço de 2,6 trilhões de euros, porém, nesta terça-feira, o economista-chefe do BCE, Peter Praet, emitiu o primeiro sinal de que esta visão excessivamente dovish, sustentada principalmente por Draghi, pode mudar em breve.

Praet afirmou que os riscos associados à política monetária ultra expansionista do BCE precisam ser monitorados mais de perto após anos de expansão econômica, numa clara sinalização de pé no freio.

O alerta de Praet revela conscientização dentro da autoridade monetária de que os efeitos colaterais provocados pelo programa maciço de compra de ativos podem estar pesando mais do que os benefícios provocados por este. Entende-se por efeito colateral os preços inflados dos títulos da dívida soberana de vários países europeus e/ou mesmo aquecimento de alguns setores, como o mercado imobiliário.

As taxas dos títulos do tesouro norte-americano, por exemplo, que operavam em mínima histórica, subiram ao longo dos anos após o início do processo de normalização das condições monetárias, encontrando, nos últimos meses, ponto de equilíbrio no curto prazo. O mesmo movimento poderá ocorrer com as taxas dos títulos da dívida soberana na Europa quando o BCE iniciar o processo de desalavancagem.

O deslocamento das taxas dos títulos da dívida soberana norte-americana causaram impactos no mercado de renda fixa do mundo inteiro, arrastando para cima taxas de juros de países desenvolvidos e emergentes. Isso significa que existe a possibilidade de este movimento ser potencializado quando o BCE iniciar sua nova fase de política monetária, até porque, neste estágio, menos dinheiro deverá circular no sistema financeiro global.

Outro ponto que corrobora para os dias contatos do afrouxamento monetário na Europa está na substituição do presidente da autoridade monetária em 2019. Mario Draghi encerra seu mandato em outubro do próximo ano e seu possível substituto é nada mais nada menos que Jens Weidmann, chair do Bundesbank (Banco Central da Alemanha), profissional de viés reconhecidamente hawkish no mercado, por sinal um dos maiores críticos da política monetária expansionista do BCE.

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4 comentários:

  1. Olá FI, será que isso poderia ser o "tiro de morte" do Euro? Porque muitos comentam que boa parte dessa politica monetária "ultra frouxa" se deve a necessidade de o BCE dar "cobertura" ao financiamento dos países com grandes déficits fiscais na Europa.

    Será que o BCE estaria com medo de "fechar a torneira" e acabar levando as economias mais vulneráveis a bancarrota? Especialmente agora que, além de tudo, a Itália tem uma coalização no governo abertamente contra a União Europeia e, de certo modo, contra o próprio Euro também?

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    1. É uma boa reflexão e os comentários são prudentes. Pessoalmente discordo de que poderia ser um tiro de morte do euro, pois as grandes potências conseguem se sobrepor em termos de competitividade comercial dentro da zona do euro. Portanto, por mais que seja doloroso suportar alguns países problemáticos dentro do bloco, ainda é mais vantajoso para as grandes potências lutar (e bancar $$$) pela manutenção da zona do euro, mesmo com o desgaste da tentativa de colocar certa ordem na casa. Além disso, lentamente os países membros estão avançando para uma união bancária, que se concretizada no futuro, poderá aumentar a força da zona do euro e reduzir alguns problemas.

      Com relação à cobertura do BCE, concordo plenamente. Não há menor condição de países como Portugal, Espanha e Itália conseguirem captar recurso em condições normais de mercado praticando taxas próximas aos níveis atuais. Os números são surreais:
      - Portugal possui endividamento de 126% PIB, pagando 1,91% ao ano no título soberano de 10 anos.
      - Espanha possui endividamento de 98% PIB, pagando 1,40% ao ano no título soberano de 10 anos
      - Itália possui endividamento de 132% PIB, pagando 3,13% ao ano no título soberano de 10 anos
      Em todos esses três países pode-se notar endividamento muito elevado para um prêmio significativamente baixo, nitidamente sustentado artificialmente pelo BCE. Se as taxas de juros retornarem para perto de 7% ao ano, nível observado em 2012 (quando estourou a crise da dívida pública do euro), a dívida se torna impagável. Não por acaso os mercados europeus entraram em pânico nesta época. Como os países não possuem flexibilidade nem moeda própria, resta basicamente dois cenários de 8 ou 80 (default ou socorro financeiro). Por enquanto, os europeus continuam enxergando o socorro financeiro como opção menos pior a ser tomada, até para evitar uma propagação pelo sistema financeiro, e consequentemente na economia, num cenário de default parcial. Quem está socorrendo hoje tem ciência de que o risco de default só aumenta no futuro. A estratégia não é fugir do default, mas sim ganhar tempo. Limpar dívidas curtas, emitir dívidas longas e basicamente torcer para que seja feito ajuste fiscal para quando as longas vencerem, daqui algumas décadas, ser possível estimar solvência destes países.

      Outra aposta ousada para o futuro está no avanço no conceito de bail in atualmente discutido na Europa. O bail out (que bem resumidamente nada mais é do que injeção de capital do governo nas instituições com objetivo de interromper uma crise ou mantê-las solventes) ficou muito desgastado globalmente desde o crash do subprime. A população passou a questionar porque tanto dinheiro recolhido de impostos foi injetado nas instituições financeiras para salvá-las (muitas vezes fruto de irresponsabilidade). Desde então vem crescendo a tese de bail in, que bem resumidamente é a injeção de capital dos investidores/detentores de títulos das instituições financeiras com objetivo de mantê-las solventes.

      Uma espécie de teste/piloto de bail in ocorreu na crise do Chipre. Ao invés de o socorro partir do governo, como de costume, para salvar as instituições financeiras da falência, o socorro partiu de depositantes, detentores de títulos e acionistas das instituições financeiras. Esse assunto foi pouco comentado e não há muitos detalhes sobre como procedeu a reestruturação dos bancos a partir do bail in.

      Abs,

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  2. Olá Robson,

    Quando o BCE entrar na nova fase, o Brasil ficará ainda mais pressionado não?

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    1. Pode haver alguma pressão de efeito psicológico no momento de interrupção do programa de compras, que seria um driver negativo fora do nosso controle, porém possível de ser contornado pela comunicação do BCE (basta seguir o passo a passo do FED). Porém, quando a desalavancagem estiver em curso, seja via aumento das taxas de juros, seja pela redução do balanço da autoridade monetária, o impacto é inevitável. Menos dinheiro circulando no sistema, maior será a seletividade do fluxo de capitais. Ou seja, os custos de captação de recursos tendem a refletir melhor (ou de forma mais eficaz) os fundamentos macroeconômicos.

      Abs,

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