quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Argentina, a segunda peça do dominó


Cerca de três semanas atrás a Turquia foi o primeiro país emergente a experimentar a fúria de um mercado vendedor, numa intensidade não observada desde o crash do subprime em 2008. Em poucos dias a lira turca estava totalmente nocauteada, chegando ao ponto de o presidente, Tayyip Erdogan, implorar em rede nacional para que seus cidadãos troquem dólares e barras de ouro debaixo dos colchões por lira turca.

A atitude desesperadora do presidente da Turquia apenas colaborou para exacerbar as adversidades macroeconômicas acumuladas no passado. Hoje a lira turca é negociada numa cotação ainda menor em relação ao dólar com aquela praticada três semanas atrás.

O mercado simplesmente atropelou sem dó nem piedade. O problema é que, ao notar os problemas evidentes na Turquia, investidores e players de mercado passaram a olhar com mais cuidado os fundamentos de outros países emergentes possivelmente em situação semelhante. Nesta análise sob lupa, a Argentina apareceu nos monitores com o sinal vermelho piscando.

Bastou alguns dias para os argentinos caírem de joelhos. O tombo do peso foi dramático, pois parecia premeditado e o governo local bem que tentou agir preventivamente na tentativa de se defender de um ataque esperado.

No dia 14 de agosto, o Comitê de Política Monetária do Banco Central da Argentina aprovou em reunião emergencial, fora do calendário, aumento da taxa básica de juros de 40% para 45% ao ano, comprometendo manter este nível até outubro/2018. Outras medidas emergenciais ortodoxas, como o plano para redução do estoque de Lebacs (Letras do Banco Central – bônus local) do mercado e melhoras na eficácia da política monetária, também foram anunciadas neste dia.

Não funcionou. A Argentina apenas comprou tempo. Nesta semana o mercado local foi arrasado, acabando, por enquanto, com qualquer possibilidade de reeleição do presidente Mauricio Macri ano que vem. O dólar alcançou o recorde de 40 pesos nesta quinta-feira, fechando o pregão a 37,96 pesos, significativamente acima dos 3,50 pesos negociados em 2008 e 8,50 pesos quando Macri assumiu o governo. Um desastre.


Mais curioso é que o mercado atacou um governo ortodoxo, que vinha fazendo o possível para ordenar a casa desarrumada deixada pela heterodoxia em excesso da era kirchnerista. Muitos especulam que a Argentina está sendo afetada pelo baixo clima de confiança entre consumidores e empresários, além da inflação galopante que Macri não conseguiu contornar, atualmente em 31,2% no acumulado dos últimos 12 meses.

São pontos relevantes que temperam a desarrumação macro local, porém o elevado endividamento, principalmente em moeda estrangeira, é o ponto crucial que atraiu a fúria do mercado. A dívida da Argentina não é considerada tão elevada para os padrões atuais (57,1% do PIB), mas o problema são as obrigações em moeda estrangeira que o governo não conseguirá honrar com a taxa de câmbio neste nível.

Macri foi a TV dias atrás pedir calma à população, afirmando que o FMI (Fundo Monetário Internacional) concedeu uma ajuda de 50 bilhões de dólares para a Argentina, considerada a maior da história. Um primeiro aporte de 15 bilhões de dólares já foi realizado, mas nada disso foi suficiente para segurar a enorme pressão vendedora sobre a moeda.

Nesta quinta-feira, o Banco Central da Argentina decidiu, em nova reunião emergencial, aumentar abruptamente a taxa básica de juros, de 45% para incríveis 60% ao ano, comprometendo mantê-la neste patamar pelo menos até dezembro/2018. A autoridade monetária também decidiu elevar em 5% as reservas mínimas para todos os depósitos das instituições financeiras, tanto à vista quanto a prazo. É uma estratégia radical para tentar combater a inflação através da redução da liquidez no mercado.

Tal como os turcos, os argentinos não reconhecem publicamente as deficiências macro e culpam a turbulência do ambiente internacional pelo choque nos preços dos ativos locais. O desequilíbrio fiscal é notadamente um grave problema observado na Turquia e Argentina.

Com a Argentina protagonizando o tombo da segunda peça do dominó, especula-se no mercado quem será a terceira peça a cair. O alvo está claramente em países emergentes com as contas desajustadas. Importante ressaltar que a avaliação dos brasileiros parece subestimar a gravidade da situação.

Embora maior parte de nossa dívida esteja denominada em moeda local, além do fato de as reservas do Banco Central do Brasil serem capazes de quitar todos os compromissos em moeda estrangeira, o que não deixa de ser um bom alívio, ainda assim somos um país com endividamento de 75% do PIB, em ascendência, sem nenhuma perspectiva para alcançar superávit fiscal, mesmo no longo prazo. Estamos brincando com a sorte. Turquia e Argentina caíram por menos.

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8 comentários:

  1. Quando alguém me pergunta, a um mês das eleições, se eu já conheço as propostas do Amoedo, fico pensando em que País esse pessoal vive...

    As propostas do Amoedo tem tanto valor neste momento quanto o diploma honoris causa do Lula. Não há nem porque perder tempo discutindo se são boas ou não, se são copiadas ou não, se são óbvias ou não. São inúteis.
    Amoedo e seus 31 eleitores/missionários se acham parte de um movimento de renovação, uma novidade na Política. No entanto, nada é mais antigo na política do que subestimar o adversário. Estão menosprezando o poder e a influência que a esquerda tem, e a disposição dela de levar seu plano de controle político e social adiante.

    A esta altura, Amoedo já deveria ter deixado seu orgulho (e seus 2% de votos) de lado, e buscado união com o único candidato capaz de combater o inimigo que ambos têm em comum. Se ele acha que sua birra em concorrer é mais importante do que a urgência de evitar outro governo de esquerda, então não está preparado para ser presidente. Simples assim.

    Bolsonaro não é a melhor opção, é a única. Dizer ser contra o projeto esquerdista, mas não votar nele, ou deixar pra votar nele só no 2° turno, é não ter noção do que está em jogo. E se ainda não percebeu isso, você merece mais 8 anos de PT.

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    1. Slow down!
      Não construa cercas, faça pontes.
      Viva o Novo!

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    2. Anon, Bolsonaro é a única opção. Estão brincando com o Brasil e vão colocar socialista-tucanopetista d novo no poder. Difícil explicar isso pro pessoal do dito "novo.

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    3. Tá copiando e colando... Vi esse mesmo comentário no Linkedin do Vitor Bellizia.
      Bolsonaro não é opção, vai ter gente votando no PT a contragosto só pra não eleger o Bolsonaro. Não dá pra esquecer que o Haddad tem uma imagem em SP que transcende o PT, tendo apelo para muitos não-petistas.

      FI, nesse cenário o Brasil tende a continuar um excelente país para os fãs da renda fixa.

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    4. Sim, a taxa Selic já é considerada uma taxa fake no mercado, basta observar o nível de prêmio dos prefixados ou indexados ao IPCA.

      Abs,

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  2. Bom dia, FI. Grato pelo trabalho!

    A democracia de coalizão no Brasil está fadada ao fracasso! A reforma política não foi realizada, logo, teremos mais um presidente refém desta estrutura. A renovação política não ocorrerá ao avaliar o quadro de candidatos e as pesquisas eleitorais. Teremos 3/4 dos políticos atuais em campanha! Neste ambiente tóxico surgem as promessas habituais de mudança, todavia, teremos mais quatro anos auspiciosos.

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    1. Errata: "auspiciosos".

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    2. Obrigado eu pelo comentário. Infelizmente, bem possível que sim.

      Abs,

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