quinta-feira, 2 de agosto de 2018

BoE se descola do BCE e aumenta novamente taxa básica de juros


O Bank of England (autoridade monetária britânica) elevou a taxa básica de juros nesta quinta-feira de 0,50% para 0,75% ao ano. Este é o segundo aumento registrado em menos de 12 meses. Em novembro do ano passado, o BoE subiu a taxa básica de juros de 0,25% para 0,50%, no primeiro gesto de aperto monetário desde o estouro da crise do subprime.

A autoridade monetária britânica também antecipou que novos aumentos poderão surgir nos próximos anos, porém em ritmo bastante gradativo. O aumento da taxa básica de juros britânica está mais lento do que o aumento observado na federal funds rate (taxa básica de juros norte-americana). É como se o FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) estivesse se movendo em velocidade de tartaruga e o BoE em velocidade de lesma.

Entretanto, dois dos principais banqueiros centrais mundiais já estão trabalhando estratégia de aperto nas condições monetárias. O BCE (Banco Central Europeu) se prepara para iniciar o processo de reversão na taxa básica de juros em meados de 2019 e BoJ (Bank of Japan) está fora da rota, sem perspectiva de aperto nas condições monetárias.

Ao contrário do terror propagado pela imprensa há alguns anos, o BoE não parece tão preocupado com o Brexit em curso, caso contrário não estaria subindo sua taxa básica de juros. A economia também segue trajetória de retomada satisfatória, inclusive a projeção do PIB britânico subiu para 1,8% em 2019. Para este ano, espera-se crescimento de 1,4%.

O aumento na taxa básica de juros britânica poderá prejudicar milhões de famílias que possuem hipotecas, porém há dois possíveis elementos positivos na jogada do BoE: (i) impor um freio ao mercado imobiliário local, agindo preventivamente contra um aquecimento exagerado no setor e (ii) ajudará a poupança dos britânicos ou dos investidores estrangeiros que aplicam em títulos públicos e privados no Reino Unido, pois o aumento da taxa básica de juros provocará aumento na rentabilidade dos títulos, deixando-os mais atrativos em relação aos seus pares.

Este segundo ponto pode ser uma cartada tática importante para o cenário pós-Brexit. O quadro político e econômico pode até impor obstáculos às relações comerciais entre diferentes países, mas no mercado financeiro não existem fronteiras. Quando a divisão política estiver estabelecida, poupadores de toda a Europa, principalmente alemães, tendem a não permanecer com o capital dentro do círculo da União Europeia caso as taxas locais estejam (bem) mais baixas do que as praticadas no Reino Unido.

Portanto, o BoE pode estar preparando terreno para disputar fluxo de capital no pós-Brexit. O processo de elevação da taxa básica de juros impõe força para que os rendimentos dos títulos locais também subam. Como o BCE ainda não começou a subir sua taxa básica de juros, o Reino Unido larga na frente e, ainda, pode remunerar melhor o capital no overnight das instituições financeiras locais, outra importante ferramenta para impedir a temida fuga dos bancos de investimento para outras praças.

Por fim, o BoE deu outro importante passo ao replicar a estratégia adotada pelo FED sobre a taxa neutra de longo prazo. Na reunião encerrada nesta quinta-feira, o BoE publicou pela primeira vez sua estimativa para o ponto de equilíbrio na taxa básica de juros, nível capaz de manter a inflação ancorada na meta e permitir a economia crescer a plena capacidade.

É muito difícil calcular juros neutro (equilíbrio) de longo prazo com exatidão, mas a divulgação da taxa neutra por parte de uma autoridade monetária é uma importante ferramenta para guiar as expectativas do mercado e deixar o horizonte mais claro aos investidores. O BoE estima que o juro neutro nominal esteja entre 2% a 3% ao ano, algo parecido com os 3% cravados do FED.

Cientes da estimativa de juro neutro, os investidores conseguem traçar melhor um panorama de mercado em suas carteiras e se sentem mais confortáveis para tomarem decisões de alocação de capital.

No Brasil, a prática da autoridade monetária ainda não alcançou tal nível de excelência. Não existe, sequer, cenário concreto para a taxa básica de juros de curto prazo ou para as próximas decisões do Copom, basta observar o histórico dos últimos quatro meses ou mesmo a montanha russa dos últimos dez anos.

Os investidores apenas perderam tempo ao ler o comunicado da última reunião do Banco Central do Brasil, encerrada ontem. Não houve sinalização de movimentação/estratégia para as próximas reuniões, nem muito menos para o próximo ano, que dirá para o início da próxima década. O nosso cálculo de juro neutro parece ser mais complexo do que entender a fórmula E=mc2 de Albert Einstein, isso porque nunca tivemos nos pouco mais de 500 anos de história planejamento de longo prazo. Agimos para solucionar problemas de curto prazo e torcemos para que o mercado seja generoso no longo prazo.

Nos Estados Unidos, o FED decidiu manter sua taxa básica de juros inalterada entre 1,75% a 2% ao ano, mantendo seu cronograma de política monetária esboçado há duas gerações atrás. O movimento iniciou com a sinalização (antecipação) na gestão Bernanke, se concretizou na administração Yellen e prossegue na gestão Powell. Um aperto monetário lento, gradual, sem surpresas, em direção ao juro neutro de 3% no longo prazo.

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