terça-feira, 21 de agosto de 2018

Está na hora de partir para o plano B


Justificadamente, o mercado financeiro nacional voltou a entrar em pânico, mais uma vez, descolado das demais praças financeiras mundiais. O motivo é mais do que conhecido pelos investidores de longa data. Não está relacionado apenas ao cenário de curto prazo provocado pelas eleições, mas sim ao conjunto da obra. A cilada macroeconômica verde e amarela.

Os primeiros sinais de aviso prévio do mercado foram emitidos ainda no mês de março deste ano, quando os contratos de juros futuros interromperam a longa trajetória de baixa, apesar de o Banco Central ter continuado cortando a taxa básica de juros.

Mesmo com a situação macro nitidamente delicada, imposta pela confirmação da impossibilidade de aprovação da reforma da previdência, a autoridade monetária optou por deixar as defesas desguarnecidas desnecessariamente, como se nada de relevante tivesse acontecido.

Cerca de dois meses depois do primeiro sinal de aviso prévio emitido pelo mercado, o câmbio estourou. Foi neste momento, no início do mês de maio, que o Banco Central anunciou intervenções mais pesadas na moeda, alegando necessidade de suavizar os movimentos.

O mercado não engoliu a desculpa esfarrapada apresentada pela autoridade monetária para intervir de forma mais pesada no câmbio. Consequência deste novo erro estratégico, o dólar furou o patamar de R$ 3,50 com violência e pegou ainda mais força. O mercado estava perdendo a paciência e o Banco Central insistindo em tapar o sol com a peneira.

Mesmo com as intervenções mais agressivas no câmbio, o Banco Central perdeu a briga com o mercado. Como um pais altamente endividado, carregado de histórias problemáticas, desarrumado na parte macro e micro, corrupto e repleto de gargalos poderia sustentar uma moeda forte/estável com uma taxa básica de juros na mínima histórica?

Mesmo depois de uma forte recessão, a economia não conseguiu encontrar boa tração de retomada, os investimentos continuam ridiculamente baixos, o desemprego segue elevado, as reformas viraram contos de fadas, o ambiente de negócio continua no mesmo lamaçal do passado e, o único alento, provocado pela queda da taxa Selic, infelizmente não se repercutiu na economia, já que as linhas de crédito continuam obscenas.

O governo pode utilizar o discurso/estratégia de melhor conveniência, mas o mercado cobra preço. Diante da apatia e/ou falta de ação, o dólar contra real renovou novo recorde do ano, alcançando 4,03.

Quando se compara o deslocamento do dólar contra real (linha preta) com o deslocamento do dólar contra cesta de principais moedas globais (linha pontilhada), pode-se notar que nos últimos dias houve um descolamento muito forte desfavorável ao real, ratificando que o nosso cenário é desafiador e as defesas podem estar desguarnecidas.


No mundo, o dólar contra cesta de moedas opera em queda de curto prazo. Contra o real, o dólar opera em forte alta de curto prazo.

Esse tipo de descasamento não é tão comum pela força do movimento observado nos últimos dias e deveria impor uma necessidade de o Banco Central partir para o plano B imediatamente: elevar a taxa básica de juros para tentar frear a forte desvalorização da moeda e acalmar o mercado.

Na circunstância atual, não há necessidade de choque de juros. Longe disso. Um movimento simbólico de 0,50 p.p., trazendo a Selic para 7% ao ano, mantendo a porta aberta para novos aumentos-defensivos no futuro, poderia ser considerado uma dosagem suficiente para acalmar os ânimos no momento.

O problema é que muito possivelmente o Banco Central vai insistir nas intervenções cambiais e evitar subir a taxa Selic no curto prazo em função suposto do peso político. O que não faz muito sentido, pois o tombo de 14,25% para 6,50% não foi replicado nem de perto na economia, basta notar que os bancos continuam operando linhas de crédito como se a Selic estivesse, ainda, em dois dígitos.

Portanto, o Banco Central finge que não precisa subir os juros, mas o mercado é soberano nas taxas futuras. O contrato de DI com vencimento em 2025 fechou esta terça-feira aos 12,17% ao ano, mostrando significativo prêmio de 5,67 p. p. sobre a taxa básica de juros.


O novo rali nos contratos de juros futuros provocou formação e fundo ascendente duplo no final do mês julho e início do mês de agosto, em 10,77% para o DI de 2025. Esse movimento reforça a tendência de alta nas taxas futuras iniciada no mês de março deste ano. Caso a máxima de junho, registrada em 12,82%, seja rompida, um longo e perigoso pivot de alta será acionado, podendo sacramentar de vez a reversão do ciclo no mercado.

Sem plano B, o alçapão no mercado tende a se manter armado, impondo uma nova dinâmica sobre os preços dos ativos locais.

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20 comentários:

  1. FI.

    Para você, qual a real chance do BC praticar esse aumento (ainda que pequeno) da taxa de juro para evitar a escalada do USD?

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    1. Olá,

      A curto prazo, de 0 a 10, sendo 0 a menor possibilidade e 10 a maior possibilidade, chutaria no 0 rs...

      Abs,

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    2. O maior desafio é saber qual a hora de sair do dólar e migrar pro td.

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    3. O maior desafio é saber qual a hora de sair do dólar e migrar pro td.

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    4. Sim. Precisando de auxílio, basta me enviar e-mail.

      Abs,

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  2. Aumentando a taxa de juros os investidores mais conservadores agradecem. RF está sofrendo com juros baixos.

    ou seja cada um olhando pro próprio umbigo.

    ano de eleição é sempre essa bagunça.

    O pior que isso que o FI comentou é verdade. Os juros saíram de 14% para 6,5% e mesmo assim a economia não reagiu como era esperado.

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  3. Mas qual é o plano B?

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  4. Pós fixados se tornam interessantes novamente?

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    1. Depende de como está a carteira atualmente. Na minha opinião, pós-fixados D+0 ou D+1 nunca devem estar zerados em um portfólio. É importante calibrar o peso na alocação conforme perfil, quadro macro e oportunidades de mercado.

      Abs,

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  5. Teremos novamente uma selic de 14.25?

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    1. Somente o Sr. Mercado pode responder essa pergunta rs... Chutaria que no curto e médio prazo, não.

      Abs,

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  6. FI, vale a pena aumentar a taxa básica de juros, com o governo super endividado e o aumento do dólar não impactando a inflação?

    Entre duas escolhas ruins (aumentar a taxa ou não aumentar), neste momento, não aumentar será que não seria a menos pior?

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    1. O aumento do dólar vai impactar a inflação a médio prazo. Não estamos sentindo a dor da inflação no momento, pois a economia está praticamente estagnada. Na verdade, considerando a quadro macro atual, não deveríamos, sequer, estar criando inflação de 2%.

      Se a economia tivesse reagido ao agressivo ciclo de afrouxamento monetário e/ou bancos tivessem reduzido significativamente o custo do crédito, subir a Selic moderadamente neste momento poderia impor um sacrifício à economia que deveria ser pesado na balança em prol da defesa da moeda. O problema é que a economia não reagiu e as linhas de crédito continuam muito altas. Nem parece que a taxa básica cedeu 7,75 p.p. Portanto, para a economia, pouca diferença faz Selic de 6,50% / 7% (ou talvez até um pouco mais). O sacrifício que estamos sofrendo hoje é quase o mesmo quando a Selic estava em 14,25%.

      Abs,

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  7. E o spread entre as Treasury's segue se estreitando, já está quase abaixo dos 0,2%. Se as pessoas acham que o problema já está ficando complicado, elas que esperem para ver o que o futuro nos aguarda.

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    1. Sim, no momento não preocupa tanto, porque tanto a de 2 anos quanto a de 10 anos estão fechadas. A taxa da Treasury de 10 anos está caindo mais do que a taxa da Treasury de 2 anos nas últimas semanas. O perigo seria maior se a de 10 anos estivesse recuando (ou de lado) e a de 2 anos continuasse subindo.

      Abs,

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  8. Quando vc fala curto e médio prazo qual seria esse tempo?

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  9. Por que os bancos nao baixam as linhas?

    Com a subida.do dolar em todo mundo e mais o plus das eleicoes aqui, o brasil nao estará entrando no olho do furacao nos proximos.meses?

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    1. A resposta desta pergunta daria uma boa coleção de livros rs.. São vários os fatores, mas acredito que a concentração bancária tem certo peso no spread e temos condições de criar ambiente para entrada de novos players/concorrentes no setor. Independente dos nossos problemas internos acumulados, o cenário macro tende a ser complexo nos próximos anos com o avanço (a princípio gradual) das políticas de desalavancagem dos principais banqueiros centrais mundiais.

      Abs,

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