terça-feira, 11 de setembro de 2018

A novidade da renda fixa no primeiro ETF de renda fixa


O mercado financeiro nacional comemora, muito timidamente, e com razão, o lançamento do primeiro ETF de renda fixa no Brasil. Gerenciado pelo grupo Mirae Asset Global Investments, o ETF tem objetivo de replicar o desempenho do S&P/BM&F Índice de Futuros de Taxa de Juros – DI 3 Anos ER.

Os inegáveis pontos positivos deste primeiro ETF de renda fixa estão na razoável taxa de administração (mínimo de 0,30% ao ano e máximo de 0,40% ao ano), possibilidade de negociação no mercado secundário (pregão da B3) com apenas uma única cota (atualmente negociada em R$ 10,05) e, principalmente, benefício fiscal. Não haverá incidência de come-cotas, como ocorre nos fundos de renda fixa negociados nas prateleiras de bancos e corretoras. Além disso, não haverá aplicação da tabela regressiva. A alíquota de imposto de renda será de 15%, independente do período de investimento no ETF.

Existe grande potencial para o mercado de ETFs de renda fixa crescer no Brasil. Cerca dos 4,3 trilhões de reais pertencentes à indústria de fundos no país, 1,9 trilhão está alocado em fundos da classe de renda fixa. Grande parte deste capital alocado em fundos da classe de renda fixa está sob domínio de gestores que cobram elevada taxa de administração e, ao mesmo tempo, entregam rentabilidade inferior ao CDI.

O código BM&FBovespa deste primeiro ETF de renda fixa é pouco prático e difícil de ser lembrado: FIXA-ETF01L1. Se você quiser observar o book de ofertas, ver o gráfico ou mesmo negociar este ETF, precisará digitar esta “longa senha” para passar pela porta secreta do mercado de renda fixa criada nesta segunda-feira.

Bom seria se este fosse o único ponto negativo deste primeiro ETF. A metodologia do índice de referência não tem nada a ver com a oscilação de preços dos contratos de juros futuros, nem com os preços dos títulos do Tesouro Direto, nem com o mercado de renda fixa pós-fixado. Algo inédito para muitos investidores brasileiros.

Pelo que se observa nas matérias veiculadas nas mídias especializadas em mercado financeiro, entende-se que S&P/BM&F Índice de Futuros de Taxa de Juros – DI 3 Anos ER é uma espécie de réplica da oscilação de preço do contrato de juros futuros com vencimento em 3 anos, o que está completamente errado.

O índice, calculado pela S&P, mede o retorno de uma carteira de contratos de juros futuros corrigida pelo mecanismo de excesso de retorno. De forma bem resumida e grosseira, o excesso de retorno mostra o nível de um índice subtraído pelo custo de financiamento/empréstimo (CDI) que um investidor teria ao investir neste índice.

A novidade neste ETF de renda fixa é justamente fazer a réplica de um índice de renda fixa com metodologia de excesso de retorno, algo inicialmente de difícil entendimento. O índice vai medir o retorno do DI1 de 3 anos a 2 anos e 6 meses corrigido pela Taxa DI-Cetip (CDI). Isso significa que o ETF, que precisa seguir o deslocamento do índice de referência (S&P/BM&F Índice de Futuros de Taxa de Juros – DI 3 Anos ER), vai ter uma dinâmica diferente do pós-fixado, do pré-fixado Tesouro Direto (cai de preço quando a taxa sobe) e do pré-fixado contrato futuro - DI1 (sobe de preço quando a taxa sobe).

Utilizando como exemplo o gráfico do contrato de juros futuros com vencimento em 2021, pode-se observar que no dia 20/04/2018 a taxa foi negociada aos 7,85% ao ano. No dia 14/06/2018 a taxa foi negociada aos 10,50% ao ano. Um investidor que comprou DI1F21 no dia 20/04/2018 e vendeu (liquidou) DI1F21 no dia 14/06/2018 teria embolsado lucro de quase 35% na operação. Um investidor que comprou LTN 2021 no dia 20/04/2018 e vendeu (liquidou) LTN 2021 no dia 14/06/2018 teria assumido prejuízo de quase 35% na operação.


Já no S&P/BM&F Índice de Futuros de Taxa de Juros – DI 3 Anos ER a oscilação no período foi bem diferente, conforme pode-se notar nos gráficos abaixo. Pontuação do índice de referência no dia 20/04/2018:


Pontuação do índice de referência no dia 14/06/2018:
  

A variação deste ETF de renda fixa teria sido, portanto, de pouco menos de 5% negativo neste mesmo período, justamente por conta da complicada metodologia de cálculo diferenciada.

O primeiro ETF de renda fixa pode não ter sucesso por conta da metodologia que apresenta uma novidade de cálculo que o brasileiro não está acostumado a fazer. Entretanto, o próximo ETF de renda fixa pronto para sair do forno, com apoio do Tesouro Nacional e Banco Mundial, será mais prático e de fácil entendimento.

No primeiro semestre de 2019 o Itaú Asset Managment deverá lançar o ID ETF, com taxa de administração de 0,25% ao ano e objetivo de replicar o índice IMA-B, que por sua vez representa a oscilação de preço de uma carteira composta por NTNBs. Simples, objetivo e barato.

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16 comentários:

  1. Maravilha, F.I.
    Os ETFs aos poucos vão chegando ao mercado.
    Interessante saber que não vai haver come-cotas e a alíquota será fixa em 15%. Se a taxa de administração vier caindo para 0.25% (o ideal, e como há ETFs de renda fixa pelo mundo com tax adm de 0.0x%) e houver um mercado com certa liquidez, será uma ótima alternativa, principalmente no país como o Brasil onde há ainda expressivo pagamento de juros reais.
    Se for possível ter um investimento com liquidez imediata, pagando juros reais, e com benefícios tributários, com certeza será uma melhoria para os investidores nacionais.
    Abs

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    1. Fala meu amigo! Muito devagar, mas vão chegando, até que enfim. Sinceramente achei a taxa de administração deste ETF até meio salgada para gestão passiva, primeiro porque determinou uma banda de cobrança (mínimo 0,3% e máximo de 0,4% - o que deixa pouca transparência na questão do custo) e não uma taxa de administração fixa. Administração de 0,40% ao ano é custo de gestão ativa em renda fixa D+1 para entregar retorno de aproximadamente 108% CDI com volatilidade quase zero e risco muito baixo. Creio que seria justo uma taxa de administração fixa de 0,20% para um ETF de renda fixa. O formador de mercado vai promover liquidez no book, mas ainda não consegui verificar como está o nível de spread entre compra e venda.

      Sim, vai ser possível quando o Itaú lançar o ID ETF, que vai replicar o desempenho do índice IMA-B. Neste ETF, será como comprar uma cesta de NTNBs numa só tacada, com ganho/perda na marcação a mercado, liquidez imediata e tributação de 15%. Será também uma forma de fazer negócio fora do Tesouro Direto, que além de interromper negociação sempre quando a volatilidade está mais alta (justamente nos momentos mais interessantes para entrada/saída), não dá negócio a preço real do momento. Preço de momento, sem delay, em títulos públicos, por enquanto somente via Selic, usado pelos institucionais. Com o ETF, vai abrir essa importante janela aos investidores PF.

      Abs,

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  2. Só um pequeno ajuste, acho que onde consta 14/07/2018, deve ser 14/06/2018. E uma dúvida, o fato do DI1F21 ter subido no período de 7,85% aa para máxima de 10,5% no dia 14/06/2018 seria a razão para esse ETF ter caído 5%? Isto é, se a taxa do contrato de DI1 cair, a do ETF sobe?

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    1. Correto. Corrigido. Obrigado! Sobre a sua dúvida, se fosse um ETF de DI1 (contrato de juros futuros), ou seja, replicar o desempenho do DI1 com prazo de 3 anos, o preço de negociação do ETF teria que ter valorizado cerca de 35% (na mesma proporção do DI1F21). Por outro lado, também não é um ETF de títulos pré-fixados da dívida soberana, pois se assim o fosse, teria que ter caído 35% (na mesma proporção da LTN 2021). Como não é um ETF de DI1, nem de títulos da dívida soberana, mas sim de DI1 corrigido pelo excesso de retorno, a perda no período foi de 5%. O deslocamento do DI1 influencia inversamente o preço do ETF, mas não na mesma proporção (nem perto) da que se observa nos títulos pré-fixados do Tesouro.

      Abs,

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  3. Boa tarde,

    Poderia me informar o que vai lastrear este ETF da Mirae,já que leva em consideração referência de preços do mercado futuro?

    Vai possuir títulos públicos ou só aplicação em derivativos,ou uma mistura dos dois?

    Obrigado

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    1. Boa pergunta. Infelizmente não mostra nada a respeito no site da B3: http://www.b3.com.br/pt_br/produtos-e-servicos/negociacao/renda-variavel/etf/renda-fixa/etfs-listados/

      Como existe banda de cobrança de taxa de administração mínima de 0,30% e máxima de 0,40%, desconfio que o ETF possa comprar, até mesmo, cotas de fundos de investimento de renda fixa administrados por instituições financeiras.

      Abs,

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  4. Estes etf's terão distribuição ou serão acumulativos? Se houver distribuição, aí sim seria perfeito.

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    1. Outra boa pergunta que infelizmente não tem resposta no site da B3. Vamos aguardar.

      Abs,

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  5. Olá FI, além da metodologia um pouco complicada também estou curioso em saber qual afinal é o ativo subjacente deste ETF? Ele investe em contratos futuros de DI? Ou adquire títulos de renda fixa mesmo?

    E sobre a metodologia em si, quer dizer então que se os juros subirem o ETF também sobe (de preço)? Ao contrário do que acontece com os títulos pré-fixados?

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    1. Olá, sobre o ativo subjacente, precisamos aguardar as informações no site da B3. Consultei novamente, continua tudo em branco. Ser investidor no Brasil não é tarefa fácil rs.. Se possível, veja meu comentário acima em 11 de setembro de 2018 16:42, no qual explico sobre a dinâmica do índice de referência. É confuso e não tem relação de mesma proporção com a oscilação do DI1, nem com os títulos pré-fixados do Tesouro.

      Abs,

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  6. FI
    1) Os ETF´s admitirão compra e venda feitas após o encerramento do pregão? Digo isso porque um investidor que trabalha, investe em fundos mútuos pré e indexados à inflação e só dispõe da noite para fazer suas análises, só disporá desse horário noturno para fazer suas operações.
    Caso a resposta seja SIM, qual cota será considerada? A do início do pregão?
    2) Ainda no caso de resposta SIM, pelas baixas taxas de administração, a entrada dos ETF´s significará o fim dos fundos mútuos indexados correspondentes?
    3) Por serem negociados em Bolsa, serão admitidos em Clubes de Investimento e igualados às ações neste sentido?
    Parabéns pelas análises! Dificilmente algum outro analista exporia a minúcia que torna o ETF da Mirae tão peculiar.

    Ramses

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    1. Oi Ramses, sobre as suas perguntas
      1) Não. ETFs só poderão ser negociados durante o pregão à vista. Não havendo possibilidade de acessar Home Broker durante o horário de pregão, será necessário agendar uma ordem com o mercado fechado para ser executada no próximo pregão.
      2) Com certeza não, vai atingir um público restrito, com maior conhecimento sobre bolsa. Tende apenas diminuir marginalmente o PL de alguns fundos de renda fixa de instituições financeiras. Prova disso é que mesmo com as corretoras distribuindo fundos de renda fixa de boas gestoras independentes com baixa taxa de administração (+- 0,4% ao ano), gestão ativa, com histórico de retorno acima do CDI, ainda não conseguem chegar perto do PL dos fundos de renda fixa das instituições financeiras. Os bancos dominam de longe esse segmento.
      3) Também não ficou clara se haverá mudança para a regra aos clubes de investimento, mas pelas atuais restrições dos clubes, é possível que possam utilizar os ETFs dentro dos 33% permitido. A normativa da CVM estabelece que os clubes devem possuir, no mínimo, 67% em títulos e valores mobiliários com características de participação - ações; bônus de subscrição; debêntures conversíveis em ações de emissão de companhias abertas; recibos de subscrição; cotas de fundos de índices de ações negociados em mercado organizado (ETF's de ações); e certificados de depósitos de ações.

      Obrigado!

      Abs,

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  7. Boa tarde, FI!!
    Por onde posso investir nesse ativo? Não encontro ele no HomeBroker nem na lista de Fundos da plataforma da XP Investimentos por exemplo.
    Desde já agradeço

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    1. Boa noite,
      Você não vai encontrá-lo na plataforma de fundos. O investimento é feito através do Home Broker. Sou assessor na XP Investimentos. Me envie um e-mail para que eu possa lhe auxilar melhor: robson@jb3assessoria.com.br

      Abs,

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