terça-feira, 16 de outubro de 2018

Trégua em Wall Street


O forte movimento de sell-off observado nas últimas semanas em Wall Street parece ter chegado ao fim nesta terça-feira. Os principais índices acionários subiram forte, mostrando contra ataque da força compradora num ponto técnico extremamente relevante.

A média móvel simples de 200 períodos diária, inicialmente perdida na semana passada, foi recuperada nesta terça-feira através de um candle de força relevante, caracterizando movimento clássico de bear trap.

Investidores/operadores que abriram venda com o rompimento descendente do S&P500 sobre a referida média móvel tiveram de estopar suas posições às pressas em função da forte reação da força compradora. Os touros haviam demonstrado intenção de defesa da média longa mais famosa e acompanhada pelo mercado já na última sexta-feira, interrompendo a forte sequência de queda de curto prazo, porém o contra ataque com ordens volumosas de compras surgiu apenas nesta terça-feira com um importante driver fundamentalista de momento.

Os balanços trimestrais das potências financeiras Goldman Sachs e Morgan Stanley vieram bem robustos, superando as expectativas dos analistas, criando, assim, o driver que faltava para disparada das ordens de compra.

O Goldman Sachs reportou lucro de 6,28 dólares por ação no 3 TRI/2018, bem acima da previsão de 5,38 dólares por ação, representando aumento de 20,5% em comparação com o resultado do mesmo período do ano anterior. O Morgan Stanley relatou lucro de 1,17 dólares por ação, também muito acima da expectativa dos analistas de 1,01 por ação, refletindo uma alta de 17% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Ambas as empresas estavam shorteadas na bolsa de Nova York. As ações do Goldman Sachs, que chegaram a ser negociadas aos 270 dólares em março deste ano, fecharam semana passada aos 210 dólares. Nesta terça-feira, os preços saltaram para 221 dólares, numa possível virada de mão. As ações do Morgan Stanley, que chegaram a ser negociadas aos 57 dólares em março deste ano, fecharam semana passada aos 42 dólares. Nesta terça-feira, os preços saltaram para 46 dólares, num movimento semelhante ao observado nos papéis do Goldman Sachs.

A reação das ações dos bancos de investimento mais tradicionais de Wall Street foi forte o suficiente para puxar (contaminar) todo o mercado para cima, numa virada bull rápida e forte, mantendo os índices acionários acima da importante média móvel simples de 200 períodos diária.

Este movimento não tem sido tão atípico. Desde junho de 2016, em todas as ocasiões que o S&P500 tombou para a média móvel simples de 200 períodos diária, houve forte reação da força compradora, mantendo o ciclo bullish. Desta vez, não foi diferente.


A sinalização de trégua em Wall Street empurrou várias outras praças financeiras mundiais para a ponta compradora. DAX, na Alemanha, subiu de 11.500 pontos para 11.776 nesta terça-feira. A bolsa de Paris, na França, subiu de 5.050 pontos na mínima de ontem para 5.173 no fechamento de hoje. No Japão, o Nikkei saiu de 22.250 pontos ontem para 22.550, também mostrando bear trap sobre a média móvel simples de 200 períodos diária.

Bombay, na Índia, que chegou a cair para 34.000 pontos na semana passada, fechou esta terça-feira aos 35.100. Na Rússia, após tocar 1.100 pontos na semana passada, a bolsa volta para os 1.165 pontos nesta terça-feira. México subiu de 200 para 206 pontos, parece pouco, mas não é (para um movimento de curto prazo). Até a bolsa de Istambul, na Turquia, se valorizou nos últimos dias (de 94.000 para 98.400 pontos).

No Brasil, o índice Bovespa interrompeu a sequência de correções observada nos últimos dias, formando piso ascendente aos 82.600 pontos, já sinalizando ataque sobre a resistência formada aos 87.300 pontos, por sinal, apenas 1.000 pontos abaixo da máxima histórica. Isso significa que se o Ibovespa recuperar 87.300 pontos, a resistência formada pelo topo histórico será fragilizada.

O mercado de câmbio e juros futuros está ainda mais eufórico do que o segmento de bolsa, já que os investidores e players locais começam incorporar nos preços da moeda e dos contratos de juros futuros (por sinal, altamente expostos à agenda econômica) um cenário não somente de vitória do candidato Bolsonaro no segundo turno, mas, também, detecção de espaço para uma agenda de reformas estruturantes avançar neste novo Congresso.

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quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Trump quebra respeito à independência do FED


Cerca de uma semana atrás o índice S&P500 era negociado na faixa dos 2.900 pontos, oscilando próximo à máxima histórica, mantendo um ciclo de médio prazo positivo observado desde fevereiro/2018. Nesta quinta-feira, o índice S&P500 fechou aos 2.728 pontos, revelando um forte movimento de sell-off nos últimos dias.

Evento semelhante ocorreu no final do mês de janeiro deste ano. Na época, o S&P500 perdeu cerca de 300 pontos de forma agressiva, em apenas duas semanas. O tombo no final de janeiro foi motivado por receio de que a política monetária do FED (com aumentos graduais da taxa básica de juros) poderia provocar realocações de portfólio em função do aumento no prêmio de risco pago pelas Treasurys.

O racional do temor criado na época estava correto. Entretanto, uma troque de choque apareceu para defender o viés bullish assim que Wall Street começou a derreter. Vários players de mercado, analistas e economias emitiram relatórios e comentários com objetivo de acalmar os ânimos dos investidores. A derrocada do mercado na época foi minimizada, justificada por fatores técnicos, pontuais e, principalmente, descasados com os fundamentos das empresas e da própria economia.

Com tantos bombeiros em ação, o incêndio no mercado durou pouco e foi apagado rapidamente no início de fevereiro. Tudo parecia estar sob controle até o rendimento da Treasury de 10 voltar a subir e realizar novo contato com a red line dos 3% ao ano. Semana passada, a taxa de juros do título soberano norte-americano com vencimento em 10 anos alcançou impressionantes 3,23% ao ano, o maior patamar registrado nos últimos 7 anos.

Mais uma vez Wall Street entrou em pânico. Os índices acionários começaram a ceder, reagindo ao prêmio mais elevado (atrativo) na Treasury, que não somente pode “roubar” fluxo dos ativos de risco, como também encarecer o custo de captação de recursos das empresas no mercado, reduzindo margens de lucro.

O recuo de Wall Street poderia ser encarado como algo natural, até porque o mercado acionário norte-americano estava subindo de forma regular, não tão eufórico e com pouca volatilidade nos últimos 7 meses. Porém, uma declaração de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, adicionou elemento explosivo, causando pânico não somente em Wall Street, mas no mundo inteiro.

Quebrando uma tradição de longa data, Trump atacou a independência do FED de forma estúpida. A autoridade monetária norte-americana é nada mais nada menos do que a melhor referência no mundo (e case de sucesso) para que outras sociedades possam lutar pela independência de seus respectivos banqueiros centrais.

Nesta última quarta-feira, o presidente dos Estados Unidos disse publicamente que o FED enlouqueceu, referindo-se ao aumento da taxa básica de juros para o intervalo entre 2% a 2,25% ao ano. Nesta quinta-feira, ao invés de tentar contornar mais um estrago provocado por suas declarações polêmicas, Trump reforçou o que disse no dia anterior afirmando que o FED está cometendo um grande erro ao elevar a taxa básica de juros.

As duras críticas de Trump à condução da política monetária do FED criam risco de interferência/influência política até então inexistente e impensável para uma economia de país desenvolvido. Não é incomum observar comentários de presidente ou primeiro-ministro em relação à política monetária de seu banqueiro central, mas as declarações de Trump fogem do comentário habitualmente aceitável e entram num terreno de ataque frontal.

Christine Lagarde, chefe do FMI, agiu rapidamente defendendo a independência da política monetária contra influência de líderes políticos, ponto fundamental para uma governança econômica eficaz e principal barreira disciplinadora de políticos (evitar criar dinheiro barato para interesses de curto prazo).

Jerome Powell, chair do FED, agora conhecido como líder dos loucos, precisa contra-atacar as declarações de Donald Trump com um discurso firme, defendendo a manutenção da independência do Banco Central, além de ratificar a estratégia de política monetária. A partir do momento em que o FED reagir, o clima no mercado pode até se acalmar, mas o atrito não deixará de existir, o que poderá prejudicar a própria estratégia de política monetária.

Nos momentos em que o FED subir os juros, o mercado pode encarar como uma sinalização de firmeza da independência da autoridade monetária e manutenção do cronograma de longo prazo (elevações graduais e desalavancagem do balanço). Porém, em momentos de parada/manutenção da taxa básica de juros (os aumentos não ocorrem em todas as reuniões de Comitê), o mercado pode encarar como uma sinalização de que houve interferência política na decisão do FED.

A reunião de Comitê a ser realizada em dezembro deste ano será a primeira prova de teste do pós-ataque de Donald Trump. Se o FED anunciar mais uma alta de 0,25 p.p. na taxa básica de juros, conforme amplamente antecipado, uma sinalização positiva de firmeza e independência será enviada ao mercado, mas vai deixar o presidente dos Estados Unidos ainda mais furioso. O outro caminho (manutenção dos juros) é impensável neste momento, mesmo em situação de tensão nos mercados ou desaceleração da economia, já que o que está em jogo, ao menos por enquanto, é a força do FED contra a Casa Branca e não o cenário base de política monetária.

A taxa da Treasury de 10 anos recuou de 3,23% para 3,14% nesta sexta-feira, mostrando que o mercado começa calcular o fator da influência política sobre a taxa básica de juros. As compras sinalizam que o mercado, neste momento, não acredita que a taxa básica de juros possa ir longe demais, conforme projeções divulgadas na última reunião do FED.


Além de criar atrito desnecessário e quebrar uma tradição de boa vizinhança, Trump colocou o FED numa tremenda saia justa.

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terça-feira, 9 de outubro de 2018

Nebulosidade aumenta no crescimento global


Apesar de não existir, neste momento, ameaça de recessão, o crescimento econômico global pode estar perdendo a pujança do passado recente. As novas e importantes projeções do FMI (Fundo Monetário Internacional) para o PIB não são animadoras.

A instituição anunciou redução de 3,9% para 3,7% na sua projeção de crescimento da economia global, tanto para 2018, quanto para 2019. O motivo da revisão negativa começa pela guerra comercial entre Estados Unidos e China, onde os impactos começarão a ser mais nítidos a partir do ano que vem.

O PIB dos Estados Unidos tende alcançar 2,9% este ano, mas deve recuar para 2,5% em 2019. Na China, o PIB deve alcançar 6,6% este ano, ritmo muito abaixo dos velhos tempos de 10% ao ano, por sinal uma das principais válvulas de impulso ao crescimento de grandes economias exportadoras de commodities, como a nossa. Em 2019 os chineses devem crescer 6,2%, registrando mais um pequeno e preocupante mergulho.

Além da disputa comercial entre Estados Unidos e China, afetam o crescimento global desempenhos abaixo do esperado alcançados por economias como Japão e Reino Unido. Especialmente sobre os mercados emergentes desarrumados (como Turquia, Argentina, Indonésia, México, África do Sul e, sim, Brasil) existe pressão negativa adicional por conta das crescentes taxas de juros em títulos de renda fixa de baixo risco.

Na Turquia, por exemplo, o PIB vai praticamente zerar este ano (projeção de 0,4%), muito abaixo do crescimento de 3,5% alcançado em 2017. Na Argentina, importante parceiro comercial do Brasil, o caso é ainda mais dramático. Após registrar crescimento de 2,9% no ano passado, a economia argentina deve fechar este ano com recessão de 2,6%.

Outra situação delicada na Argentina está com o crescente endividamento do BCRA (autoridade monetária local). Numa tentativa desesperadora de conter a inflação e frear a fuga de capitais, o Banco Central da Argentina está pagando pouco mais de 70% ao ano aos investidores que compram Leliqs (títulos da dívida de curto prazo).

A cada nova venda de Leliqs, os passivos do BCRA aumentam substancialmente e os economistas locais já começam a se incomodar com o custo da dívida contraída pelo BCRA e sua capacidade de honrar com os compromissos no futuro. Se a estratégia do BCRA não funcionar nos próximos meses (ou seja, se a taxa câmbio continuar subindo e o humor no mercado continuar ruim), uma bolha de Leliqs impagáveis poderá estourar a médio e longo prazo na Argentina.

A imprensa brasileira evita entrar muito a fundo sobre o desesperador cenário macroeconômico argentino no momento atual, até porque estamos em período eleitoral e não faz sentido desviar o foco de nossos problemas estruturais graves (apesar de pouco debatido na campanha). De qualquer forma, além de solucionar os nossos sérios problemas, principalmente da ordem fiscal, temos de torcer por um desfecho menos traumático possível na Argentina.

O Brasil não soube pegar devidamente a carona do fortalecimento da economia global. Enquanto o PIB mundial crescia ao ritmo de 4% ao ano, patinávamos para sair de um longo período recessivo. Agora, com revisões negativas no global, resolvemos surfar a mesma onda.

Continuamos expert em cenários de desaceleração. Nesta série não perdemos nenhuma onda. A projeção do PIB brasileiro para este ano recuou para miseráveis 1,4%, razoavelmente inferior a última projeção do FMI de 1,8% para 2018. A projeção para 2019 está em 2,4%, também inferior ao levantamento anterior. Considerando o nosso longo histórico de frustrações negativas de crescimento, temos de comemorar muito se o FMI acertar a projeção para 2019.

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sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Mercado vende mergulho do payroll, por enquanto


O payroll, relatório de emprego do governo norte-americano (o mais acompanhado e mais famoso do mundo), divulgado nesta sexta-feira, desafiou, mais uma vez, as leis da física do capitalismo.

Segundo dados do Departamento de Trabalho dos Estados Unidos, a taxa de desemprego recuou para incríveis 3,7%, o menor patamar dos últimos 49 anos. Mesmo criando apenas 134.000 novos empregos no mês passado, o número foi suficiente para provocar um recuo da taxa de desemprego de 3,9% para 3,7%.

A mediana das expectativas do mercado (superávit de 168.000 vagas), foi frustrada em função dos impactos do furacão Florence. Isso significa que, talvez, se nenhum furacão tivesse atingido os Estados Unidos no mês passado, a taxa de desemprego poderia ser ainda menor.

Na última ocasião em que a taxa de desemprego recuou fortemente nos Estados Unidos, o homem tinha pisado na Lua pela primeira vez na história. Sem dúvida não deixa de ser uma grande façanha para administração Trump, mas o mercado tem se mostrado receoso com tamanha força da economia norte-americana.

O primeiro e importante indicador está na própria taxa de desemprego. Nunca na história dos Estados Unidos a taxa de desemprego se manteve abaixo dos 4% por um longo período de tempo. No pós-guerra da década de 1950 a economia conseguiu sustentar um desemprego abaixo de 4% por alguns anos. Em todos os demais períodos, houve forte repique de alta do desemprego sempre quando a taxa caía demais.


A atual trajetória de recuo da taxa de desemprego também é considerada a mais agressiva da história para um período inferior a 10 anos. A taxa de desemprego recuou 6,3 p. p. em apenas 8 anos.

A economia norte-americana está claramente aquecida e operando ao pleno emprego. Não por acaso os ganhos médios por hora trabalhada seguem aumentando em cerca de 2,8% ao ano, o índice de confiança está no patamar mais elevado dos últimos 20 anos (próximo do nível recorde) e o PIB está perto de alcançar 3% neste ano (primeira vez em 13 anos).

Entretanto, muitos economistas ainda não conseguem explicar como isso tudo pode acontecer sem a inflação, sequer, ameaçar romper o centro da meta de 2% ao ano, mesmo depois de o balanço do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) ter subido significativamente de 900 bilhões de dólares em 2008 para 4,5 trilhões de dólares em 2014 (atualmente em 4,1 trilhões) e, ainda, com a reforma tributária de Trump aumentando ainda mais o dinheiro circulando na economia.


As últimas declarações de Jerome Powell, presidente do FED, dão a entender que a perspectiva para a economia segue muito positiva para os próximos anos, sem risco de recessão no radar, além de acreditar na possibilidade da manutenção de um quadro raro para a economia norte-americana, onde a inflação continuaria comportada em torno do centro da meta e a taxa de desemprego permaneceria ultrabaixa por um longo período.

O chair do FED está otimista e não demonstra preocupação com um possível cenário de superaquecimento da economia para os próximos anos. O mercado, por outro lado, tem adotado um tom mais cauteloso, se mantendo distante da Treasurys em partes por acreditar que, no futuro, o FED pode ser forçado a subir os juros repentinamente para conter o superaquecimento e, ainda, ter de limpar um balanço abarrotado de Treausyrs, títulos hipotecários, entre outros ativos, algo sem precedentes na história.

A famosa red line de 3% na Treasury de 10 anos foi simplesmente atropelada com violência pelo mercado nestes últimos dias, jogando o rendimento do título para 3,23% ao ano, o maior patamar dos últimos 7 anos. A superação deste importante patamar marca uma nova abertura na curva de juros futuros norte-americana, mantendo o mercado vendedor.


Perde dinheiro, neste momento, na marcação a mercado, quem está posicionado na ponta comprada em Treasury, já que as taxas estão em forte ascendência. Portanto, investidores e players de mercado, que especulam a favor da curva, estão sendo forçados a operar na ponta vendida para fazer dinheiro com as Treasurys (as mais líquidas do mundo).

Não há sinalização de interrupção nesta nova fase de abertura nas taxas de juros futuros, mas no momento em que a curva parar de abrir e/ou voltar a fechar nos Estados Unidos, as Treasurys poderão atrair forte demanda compradora, afetando fluxo em mercados desajustados ou vulneráveis, como o nosso.

Inegavelmente, o prêmio do bond norte-americano está ficando muito atrativo, tanto para o investidor/player local, quanto para o investidor/player estrangeiro. No futuro, o que será melhor, comprar título soberano mais seguro do mundo recebendo prêmio de cerca de 3,5% ao ano (taxa bem superior a inflação e acima do nível neutro estabelecido pelo FED) ou comprar título soberano brasileiro para receber prêmio de 6,5% na troca de dólares por reais?

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