Os últimos dados econômicos observados nas últimas semanas referente à economia global não são nada animadores. Da Ásia, passando pela Europa e chegando nos Estados Unidos, de ponta a ponta do planeta os indicadores econômicos resolveram rolar ladeira abaixo. O velho problema da crise fiscal na periferia da Europa está ganhando força com a possibilidade concreta de default (calote) da dívida grega. Nas economias emergentes o crescimento está nitidamente perdendo força em relação ao ano anterior devido as pressões inflacionárias que obrigaram as autoridades monetárias a subirem a taxa de juros freando a expansão da economia.
Em especial, os países emergentes estão pagando a conta dobrada por estimular demais suas economias. Um bom exemplo podemos observar aqui no Brasil onde o governo combateu a crise financeira mundial através de estímulos econômicos (de certa forma exagerada) "forçando" o mercado interno a continuar consumindo como nunca. A taxa de juro baixa aliada ao poder máquina pública de jorrar dinheiro no mercado criou a sua própria bolha inflacionária. O crescimento robusto de 2009 estimulado pelo governo atraiu os olhos do capital especulativo mundial, nosso mercado passou a receber uma entrada maciça de dólares direcionados para compra de ativos em nossa bolsa de valores (a Bovespa fechou o ano de 2009 como a melhor aplicação do mundo) obrigando o governo a taxar o investimento estrangeiro em renda variável para evitar um estouro de uma bolha na Bovespa.
Além disso, os programas de quantitative easing dos Estados Unidos ajudaram a exportar ainda mais dólares para os países emergentes em operações de carry trade na intenção de pressionar a bolha inflacionária nesses países. O crescimento insustentável da economia brasileira jogou o nosso próprio mercado em uma sinuca de bico. A demanda interna aquecida pela máquina pública do governo desregulou o equilíbrio econômico pressionando demais os preços forçando o Banco Central a aumentar a taxa de juro. Com o aumento na taxa de juros viramos o paraíso da renda fixa mundial e mais uma vez recebemos uma enxurrada de dólares que rolaram o nosso câmbio ladeira abaixo fazendo o país perder competitividade no comércio internacional.
O efeito desastroso dos programas de estímulos econômicos inflaram também o mercado de commodities. No gráfico abaixo podemos observar a arrancada das commodities iniciada em novembro de 2008 aos 361,35 pontos batendo incríveis 1.133,37 pontos em janeiro deste ano. Esta explosão nos preços das commodities também criou uma bolha que já mostra sinais de correção de acordo. A análise técnica mostra perda da LTA média, perda da média móvel simples de 20 períodos e MACD extremamente sobrevendido cortado e confirmado para venda no longo prazo.

Mas então porque foram "criadas" tantas bolhas no mercado? Simplesmente porque os problemas da crise financeira em 2008 não foram resolvidos, ninguém pagou a conta e os grandes blocos econômicos tentam exportar a crise para outros mercados. Europa x Estados Unidos x Emergentes. Nesse embate a Europa está sendo a primeira a mostrar sinais de fraqueza obrigando os países do bloco europeu a entrarem em duros programas de austeridade fiscal. Acontece que os Estados Unidos estão com sérios problemas de défict fiscal e desemprego alto que aliados ao temor de deflação estão fazendo o FED a cometer os mesmos erros do passado durante a Grande Depressão.
Outro agravante está sistema bancário dos Estados Unidos. Há muita irregularidade na execução das hipotecas além de que o mercado imobiliário simplesmente quebrou e não consegue se reerguer. O sistema financeiro norte-americano continua o mesmo daquele de 2008, as operações com derivativos não são reguladas e o sistema não está sendo devidamente fiscalizado. A queda do índice Dow Jones US Banks (conforme pode ser observada logo abaixo) está chamando a atenção, o movimento de correção dentro do sistema financeiro norte-americano não parece ser uma irracionalidade do Sr. Mercado.

E os emergentes? Ficaram com a bomba da inflação na mão. A China luta bravamente para tentar frear o crescimento de sua forte demanda e impedir o estouro do mercado imobiliário. Reparem bem no gráfico da bolsa de Xangai. Um crescimento médio de 10% a.a. do PIB não era motivo para levantar as ações das empresas na bolsa de valores? A economia cresce forte, as empresas lucram mais, os múltiplos fundamentalistas ficam interessantes e a bolsa despenca? Como explicar essa "falta de lógica"? A resposta é bastante simples, quem manda na bolsa é o mercado. Ele pode ser racional ou irracional sobre diversos pontos de vista.

O topo histórico da bolsa de Xangai ocorreu no segundo semestre de 2007 na casa dos 6.000 pontos, meses antes do início das olimpíadas na China. Bolsa é expectativa futura, o mercado estava precificando a boa fase da economia chinesa aliada à proximidade dos jogos olímpicos. Quando a expectativa estava perto de se tornar uma realidade o mercado entrou em crash. A bolsa de Xangai praticamente quebrou ao sair da casa dos 6.000 pontos em 2007 para 1.750 pontos em 2008.
Mas será mesmo que o mercado chinês estava "errado" em derrubar a bolsa de Xangai? Quais são os atuais problemas da economia chinesa que eram apenas expectativas há 3 anos atrás? Será que o crescimento de 10% a.a. era saudável? O país tem a maior reserva de dólares do mundo por manipular descaradamente o câmbio favorecendo suas exportações (e o dólar está perdendo valor há mais de 3 anos), a inflação está desenfreada e existe uma bolha no mercado imobiliário. Ao contrário do que parece, a economia chinesa apresenta mais problemas do que soluções.
E a Bovespa, como fica no meio desse fogo cruzado? Infelizmente também não tenho boas notícias para o nosso mercado. Reparem que mesmo com um crescimento de 7,5% em 2010 a bolsa simplesmente "parou no tempo" e começou a cair. O gráfico abaixo representa o desempenho do Ibovespa mensal desde 1998 e mostra um agravante técnico. A média móvel simples de 20 períodos foi perdida. Esta é uma média de sustentação do índice e todas as vezes que ela foi perdida (indicado pelas setas brancas no gráfico) o mercado acelerou a correção.

Com isso voltamos aquela mesma pergunta, será que o mercado está sendo irracional? O governo insiste em dizer que somos uma "economia forte", mas eu trocaria essa palavra por mercado consumidor forte. O governo subestimou o poder da nossa demanda interna, conforme relatado nos parágrafos anteriores, e conseguiu a proeza de abrir a jaula de um "monstro" chamado inflação. Pelas declarações do Banco Central podemos perceber que a política de aperto monetário deverá se permanecer por um tempo suficientemente prolongado, justamente porque as pressões inflacionárias tendem a se manter ao longo de 2012.
Um cenário inflacionário benigno força o aumento da taxa de juros que acaba atraindo os investimentos para a renda fixa, deixando a renda variável de lado. O investidor brasileiro que se posiciona na renda fixa está jogando junto com o mercado. Porque aplicar na bolsa de valores se temos a maior taxa de juro real do mundo? Esta é a pergunta que há mais de 1 ano está fazendo o investidor pessoa física a reduzir sua exposição na bolsa de valores.
Os leitores do Finanças Inteligentes estão cansado de saber, mas não custa nada repetir que se tivéssemos uma infraestrutura melhor, uma carga tributária menor, uma política econômica constantemente séria e comprometida com o crescimento sustentado ao longo dos anos não estaríamos passando por tamanho desequilíbrio econômico entre oferta e demanda. Hoje temos muita demanda para pouca oferta e o pior de tudo é que estamos reduzindo o nosso processo produtivo (importando mais manufaturas) com a desindustrialização do país.
O cenário para investimentos em renda variável continua nebuloso, mas algum dia o sol irá voltar a aparecer e as bolsas de valores irão reverter a tendência de queda. Não podemos saber quando esse dia vai chegar, mas devemos estar preparados para mudar de barco e nadar junto com o mercado mais uma vez.