quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Chama o James Bond


A equipe econômica de Bolsonaro, chefiada pelo Paulo Guedes, levou um balde de água fria nesta quarta-feira. As esperanças de aprovação de qualquer tipo de reforma da previdência ainda neste ano caíram significativamente após a rápida aprovação de uma pauta-bomba no Senado.

A medida pegou o mercado de surpresa, que até então sustentava um clima positivo, no sentido de que, agora sim, os ajustes nas contas públicas irão ocorrer de verdade. Diferente do lero lero praticado pelo governo Temer, que assistiu de camarote a elevação do endividamento brasileiro mesmo adotando um discurso ortodoxo.

Com um placar esmagador de 41 votos a favor e apenas 16 contra, o Senado aprovou reajuste de 16,38% ao salário dos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal). A medida é mais um desastre para as contas públicas, pois vai criar efeito cascata em vários outros segmentos do funcionalismo público.

Segundo cálculo de consultorias, a proposta aprovada hoje implicará em gastos adicionais de 4 a 6 bilhões de reais em 2019, o que só reforça o cenário extremamente grave para as contas públicas a médio e longo prazo. A despesa com pessoal é o segundo maior gasto primário do governo federal, perdendo apenas para a Previdência, mas mesmo assim o Congresso não parece estar convencido da necessidade de cortar zeros nos cheques preenchidos pelo governo. Pelo contrário, os zeros à direita estão aumentando cada vez mais, mesmo com o cofre vazio.

O apelo de Bolsonaro e sua equipe econômica por responsabilidade fiscal no fim deste mandato surtiu efeito contrário. Numa jogada rápida, Eunício Oliveira, presidente do Senado, designou um novo relator (Fernando Bezerra) para a proposta de reajuste ao salário dos ministros do STF, que por sua vez concedeu parecer favorável. O relator antigo, senador Ricardo Ferraço (PSDB), havia emitido parecer contrário ao aumento.

Tudo parece ter sido muito bem articulado nos bastidores para votação e aprovação do projeto ainda nesta quarta-feira. A agilidade e eficácia dos parlamentares para aprovar medidas de impacto fiscal negativo continua impressionando o mercado, que por sua vez responde exigindo prêmio para emprestar dinheiro ao governo brasileiro.

Na situação em que se encontra o pensamento dominante em Brasília, aliado ao nível de endividamento do governo (75% PIB), combinado com as taxas de juros atuais (pós-fixadas e pré-fixadas), não precisa ser nenhum gênio da matemática para chegar a conclusão de que estamos caminhando para uma situação de insolvência no futuro. Para salvar as contas públicas, talvez só chamando um James Bond, pois a missão parece impossível.

Nos Estados Unidos, a imprensa local bem que tentou emplacar uma espécie de onda azul (onde candidatos democratas iriam alcançar ampla maioria no Congresso), mas não funcionou. Os analistas que previam a tal da onda azul são os mesmos que descartaram vitória de Trump na última eleição presidencial.

Os democratas não conquistaram maioria no Senado. Na Câmara, os democratas conseguiram maioria apertada, sem margem de folga para travar a agenda de Trump, já que alguns candidatos possuem perfil neutro. A situação no Congresso para o presidente norte-americano deixa de ser muito favorável como no início de seu mandato, mas não muda drasticamente.

A líder democrata na Câmara, Nancy Pelosi, reafirmou sua intenção de aumentar os projetos de infraestrutura, por exemplo, em linha com a agenda de incentivo ao crescimento de Donald Trump. A própria Nancy Pelosi afirmou ter conversado com o presidente, numa sinalização de que poderiam trabalhar juntos.

O desfecho das eleições legislativas nos Estados Unidos agradou Wall Street, que respondeu com mais uma alta expressiva de seus principais índices acionários, mantendo a trajetória de recuperação de preços observada desde o dia 29 de outubro, inclusive com reconquista da importante média móvel simples de 200 períodos diária.

No Brasil, o índice Bovespa, que até então estava descolado positivamente das demais praças financeiras mundiais, especialmente as de países emergentes, entregou os pontos nesta quarta-feira após iniciar rompimento da máxima histórica. O pregão fechou na mínima do dia, aos 87,7k, influenciado pela volta do circo político local.

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segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Somos decoupling, a culpa não é do exterior


A unanimidade no mercado financeiro sempre foi um sentimento ou expressão muito perigoso. Os fatos recentes envolvendo os preços dos ativos de risco brasileiros, em especial as ações, deixaram muitos investidores confusos.

Na semana passada nenhum profissional sério de mercado (analistas, economistas, gestores de recursos, entre outros) ousava dizer que a eleição presidencial estava decidida. Muitos consideravam que a chance de vitória de Bolsonaro era elevada, mas ninguém ousava ter convicção, até porque Haddad vinha crescendo nas últimas pesquisas de intenção de votos, adicionando o peso da imprevisibilidade justamente na reta final.

Vários profissionais que trabalhavam com o cenário base de vitória de Bolsonaro no segundo turno afirmaram haver espaço para alta da bolsa e queda do dólar no primeiro pregão após o desfecho das eleições. Posto de outra forma, ninguém ousava prever forte queda da bolsa e elevação do dólar em caso de vitória do candidato Bolsonaro no dia seguinte após as eleições.

Foi o que aconteceu. A famosa lua de mel, ou o esperado rali, virou lenda. Surpresos com o tombo do Ibovespa, estes mesmos profissionais apontaram a culpa no exterior. A bolsa brasileira não subiu porque foi arrastada para baixo pelas demais praças financeiras mundiais. Essa tese é completamente furada pelo gráfico abaixo:


A linha vermelha mostra o desempenho do MSCI Emerging Market (ETF de mercados emergentes mais famoso do mundo) e a linha preta mostra o desempenho do Ibovespa. Pode-se notar claramente um decoupling (descolamento) iniciado em junho de 2018 favorável ao Ibovespa.

Enquanto o MSCI Emerging Market segue dentro de uma tendência expressiva de correção neste ano, o Ibovespa, por outro lado, interrompeu a trajetória de queda no mês de junho e voltou a subir forte, se aproximando novamente da máxima histórica. A distância entre o final da linha preta versus final da linha vermelha mostra a relevância do decoupling.

Não é um simples ruído de curto prazo, provocado por um soluço pró-Ibovespa, mas sim um descolamento de tendência de mais de 4 meses. Em junho deste ano, o mercado tinha alguma esperança de que Geraldo Alckmin poderia ser eleito. O candidato do PSDB, intitulado queridinho do mercado, teve um desempenho decepcionante desde as primeiras pesquisas eleitorais, não chegou, sequer, ter chance de disputar o segundo turno, mas mesmo assim o decoupling continuou.

Enquanto nós, brasileiros, acompanhávamos de perto a injusta polarização entre petistas e anti-petistas inflada pela mídia, o mercado mirava no macro, na mudança do discurso, na onda da renovação, nos temos polêmicos que mal se podia comentar no passado, mas que hoje estão sobre a mesa para discussão aberta. Embora possa transparecer que o país estava divido entre dois extremos, as propostas dos candidatos, de forma geral, remetiam ao centro e refletiam o sentimento de que algo precisa ser feito democraticamente (com endosso do voto) para sairmos do atoleiro.

Esse algo será feito. O Brasil não iria virar uma Venezuela com Haddad nem vai se tornar uma Dinamarca com Bolsonaro. O Brasil vai continuar problemático e vulnerável, mas também vai tentar sair do atoleiro político, econômico e fiscal. A diferença está apenas na cor do rebocador. Medidas serão tomadas e os resultados surgirão no futuro.

Apesar de não se ouvir mais falar em lua de mel e/ou rali nos preços dos ativos depois do trauma desta segunda-feira, o Brasil, de fato, é o maior case de decoupling global neste momento e possui condições técnicas e macroeconômicas de continuar em terreno bullish.

O tombo desta segunda-feira é nada mais nada menos do que uma obra prima do senhor mercado, pouco admirada pela multidão. Os preços podem cair ou subir, contrariar a unanimidade, surpreender, com ou sem motivo, simplesmente porque o mercado é soberano.

As bolsas de valores recuaram nesta segunda-feira, mas esse é um movimento que começou, em especial sobre as praças emergentes, no início deste ano e não hoje. Se o Ibovespa estivesse sendo contaminado, na mesma intensidade, pelo movimento observado nas demais praças financeiras mundiais, estaria sendo negociado, neste momento, aos 65.000 pontos, em linha com o MSCI Emerging Market.

Portanto, não há razão para apontar o dedo enfurecido ao exterior. A foto de hoje saiu borrada, mas o filme continua bonito.

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