terça-feira, 14 de agosto de 2018

Atuações de banqueiros centrais acalmam investidores


Depois de um fechamento aterrorizante na sexta-feira da semana passada, banqueiros centrais de países emergentes altamente endividados em moeda estrangeira atuaram em seus respectivos mercados nesta semana, acalmando os ânimos mais exaltados dos investidores mundo afora.

Pouco comentada e não tão modesta, o Banco Central da Turquia anunciou no começo desta semana uma injeção de 6 bilhões de dólares no sistema financeiro local para garantir a liquidez dos bancos e reduzir o clima de aversão ao risco no mercado.

A injeção ocorrerá a partir da redução dos limites de reservas de divisas permitidas aos bancos comerciais turcos com objetivo de retirar liras do mercado, voltar a circular mais dólares no sistema e, assim, estabilizar a taxa de câmbio. A medida é difícil de ser entendida pelos populares locais, que se apegam à taxa básica de juros, porém tem potencial de impacto relevante no mercado. Criado em 2011, o mecanismo de opção de reserva determina a porcentagem de reservas financeiras que um banco turco pode se posicionar, seja em moeda estrangeira, ouro ou lira.

Além da revisão do mecanismo, contribuiu para acalmar os ânimos dos investidores o fato de que o ministro das Finanças da Turquia, Berat Albayrak, realizará teleconferência com players de mercado nesta próxima quinta-feira. Albayrak desfruta de baixa reputação por ser cunhado do presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan.

Mesmo sendo um possível fantoche, o fato de o ministro das Finanças agendar sua primeira teleconferência com players de mercado, desde que assumiu o cargo, há dois meses, pode sinalizar uma tentativa de diálogo do presidente da Turquia. Quando está na mira dos holofotes, Erdogan segue fazendo seu show midiático, atacando o mercado.

Entretanto, nos bastidores, parece rodar outro filme. Inclusive, circularam boatos de que o FMI (Fundo Monetário Internacional) foi acionado pelo governo da Turquia para uma assistência financeira ($$$). Os boatos forçaram a instituição emitir nota negando o aceno das autoridades turcas.

A atuação mitigadora do Banco Central da Turquia foi seguida por uma intervenção preventiva-surpresa do Banco Central da Argentina. Na segunda-feira, a autoridade monetária argentina elevou abruptamente sua taxa básica de juros de 40% para 45% ao ano, numa reunião de Comitê emergencial.

O Banco Central justificou sua decisão em resposta à conjuntura externa atual e ao risco de um novo impacto sobe a inflação local. O peso argentino sofreu pesada perda com a onda de aversão ao risco em praças emergentes observada recentemente. Além da decisão surpresa, a autoridade monetária foi ainda mais ousada se comprometendo manter o nível da taxa de juros até, pelo menos, outubro/2018.

Para reforçar a atuação preventiva, o Banco Central da Argentina também anunciou ontem um plano para acelerar a redução do estoque de Lebacs (Letras do Banco Central – bônus local), que faz parte dos instrumentos de implementação da política monetária. O objetivo é reduzir gradualmente o estoque de Lebacs pela metade, de 1 bilhões de pesos para cerca de 500 milhões de pesos, num movimento considerado ortodoxo.

Ao final do processo de redução gradual das Lebacs, o estoque destes instrumentos emitidos pela autoridade monetária ficará apenas sob posse de instituições financeiras locais, o que permitirá melhorar a eficácia da estratégia de política monetária e reduzir a vulnerabilidade do mercado cambial.

Refletindo as atuações dos banqueiros centrais, os preços dos ativos de risco nas principais praças financeiras mundiais repicaram para cima na segunda e terça-feira. O índice S&P500 conseguiu se manter acima da linha central de bollinger, aos 2.839 pontos, trabalhando dentro de uma tendência de alta iniciada em abril/2018.

Na Índia, a bolsa de Bombay voltou a subir após dois pregões consecutivos de baixa, iniciando nova aproximação com a máxima histórica. A bolsa mexicana fechou em alta aos 209 pontos, se mantendo acima da média móvel simples de 200 períodos diária. África do Sul trabalha formação de fundo duplo com a alta registrada nesta terça-feira.

Na Rússia, a bolsa de valores fechou em forte alta pelo segundo pregão consecutivo, respeitando a principal linha de suporte de curto e médio prazo aos 1.040 pontos. Quadro semelhante ocorreu no Brasil, com o Ibovespa fechando em alta relevante pelo segundo pregão consecutivo, formando piso (ao menos a curto prazo) aos 75.900 pontos.

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sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Colapso na Turquia é mais grave do que parece


O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, implorou, nesta sexta-feira, para que os cidadãos troquem seus dólares e barras ouro debaixo dos colchões por moeda turca. Esta não é a primeira vez que Erdogan faz esse pedido maluco e nem será a última.

Quando um líder político faz este tipo de súplica, ao mesmo tempo em que ataca o mercado financeiro em rede nacional, aclamando a população por uma luta nacional, é um forte sinal de que a vaca foi pro brejo. Incentivar os cidadãos trocar dólares ou ouro por lira turca é uma tentativa desesperadora de frear a desvalorização excessiva da moeda local, que apenas expõe as fragilidades da economia.

As reportagens na imprensa se concentraram na insignificante tensão diplomática da Turquia com os Estados Unidos. Os norte-americanos exigem a libertação de um pastor protestante detido na Turquia sob acusações de vínculos terroristas. O religioso não foi libertado pelos turcos e o aumento das tarifas sobre o aço e alumínio imposto pelos norte-americanos foi encarado como metida retaliatória, o que é inadequado.

Os Estados Unidos aumentaram as tarifas sobre o aço e alumínio da Turquia para 50% e 20%, respectivamente, simplesmente para compensar a rápida desvalorização da lira turca frente ao dólar, o que poderia criar situação de competição desleal/injusta em função do fator câmbio.

A desvalorização agressiva da lira turca é reflexo de uma série de problemas macroeconômicos não resolvidos no passado que, neste momento, estão explodindo de uma só vez. Tudo começou com a reeleição do presidente Erdogan no mês de junho, com a promessa de manter a taxa de juros baixa para induzir o crescimento econômico, mesmo aturando uma inflação mais alta.

A taxa básica de juros na Turquia está em 17,75% ao ano, ainda assim descalibrada para combater a inflação crescente que já alcança 15,85% ao ano, a maior desde a crise de 2008. A recente decisão do Banco Central da Turquia, de manter a taxa básica de juros inalterada, em meio ao cenário de forte aceleração da inflação, reforçou a percepção do mercado de falta de independência da autoridade monetária.

Possivelmente a decisão de segurar os juros veio do presidente da Turquia, cumprindo sua promessa de campanha. Erdogan perdeu a confiança do mercado e, consequentemente, os ativos de risco entraram em pânico. A taxa de juros do título de 10 anos se aproxima dos 19% ao ano e a lira turca saltou para 6,41 dólares. A moeda local era negociada na faixa de 3 dólares em 2016. Somente nesta semana, a lira turca perdeu 1,41 dólares, marcando seu pior momento desde a crise de 2008.


Essa é apenas a ponta do iceberg. A economia ainda passa por um período de baixo consumo interno, elevado déficit em conta corrente e carente de investimentos estrangeiros. Além disso, governo, empresas e famílias estão altamente endividados em moeda estrangeira.

Um estudo do Deutsche Bank mostrou que a dívida em moeda estrangeira do governo, setor financeiro e não financeiro da Turquia alcança cerca de 70% do PIB. A agência estatal de notícias Anadolu afirma que a dívida externa é de 466 bilhões de dólares, o que equivale a 53% do PIB. Mesmo que os números da agência estatal estejam corretos (ou fossem mais confiáveis), ainda assim seria uma quantia impagável com a forte desvalorização da moeda local.
  

Não por acaso a delicada situação da Turquia abateu as praças financeiras do mundo inteiro. O endividamento em moeda estrangeira da Turquia é o maior do mundo. É a primeira peça do dominó. Se a Turquia cair (entrar em default), outros países altamente endividados em moeda estrangeira como Hungria, Argentina, Polônia e Chile poderiam seguir pelo mesmo caminho, criando uma crise sistêmica global sem precedentes.

Para piorar, o Instituto de Finanças Internacionais estima que a necessidade de financiamento da Turquia para este ano é de 218 bilhões de dólares, podendo chegar a 240 bilhões de dólares, tanto para cobrir o déficit em conta corrente, quanto para pagar parcelas a vencer da dívida.

Um default na Turquia poderia impactar imediatamente, ou colocar em situação de insolvência, alguns bancos na Espanha, França e Itália. Por este motivo, vazou informação no Financial Times de que o BCE (Banco Central Europeu) está acompanhando de perto a crise na Turquia.

O sistema financeiro europeu provavelmente não suportaria um calote de tamanha proporção por parte dos turcos. Portanto, a crise na Turquia é mais grave do que parece por dois motivos básicos: (i) rápida propagação pelo sistema financeiro e (ii) contaminação em efeito dominó sobre outros países emergentes.

Se a situação começar sair de controle, banqueiros centrais e lideres políticos globais entrarão em ação para impedir um contágio maior no mercado. Já se comenta que a Turquia está sendo pressionada a impor controles de capital e pedir ajuda financeira à Rússia. Por fim, resta uma carta na manga que Erdogan resiste em não queimar: choque de juros para frear o câmbio e acalmar o mercado.

A Turquia não é nenhum cisne negro, pois já vem se arrastando há alguns meses, mas serve para relembrar que o mercado pode criar suas crises da noite para o dia, quando quiser, não por irracionalidade ou crueldade, mas simplesmente por deixar de fazer vista grossa aos problemas econômicos.

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