sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Colapso na Turquia é mais grave do que parece


O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, implorou, nesta sexta-feira, para que os cidadãos troquem seus dólares e barras ouro debaixo dos colchões por moeda turca. Esta não é a primeira vez que Erdogan faz esse pedido maluco e nem será a última.

Quando um líder político faz este tipo de súplica, ao mesmo tempo em que ataca o mercado financeiro em rede nacional, aclamando a população por uma luta nacional, é um forte sinal de que a vaca foi pro brejo. Incentivar os cidadãos trocar dólares ou ouro por lira turca é uma tentativa desesperadora de frear a desvalorização excessiva da moeda local, que apenas expõe as fragilidades da economia.

As reportagens na imprensa se concentraram na insignificante tensão diplomática da Turquia com os Estados Unidos. Os norte-americanos exigem a libertação de um pastor protestante detido na Turquia sob acusações de vínculos terroristas. O religioso não foi libertado pelos turcos e o aumento das tarifas sobre o aço e alumínio imposto pelos norte-americanos foi encarado como metida retaliatória, o que é inadequado.

Os Estados Unidos aumentaram as tarifas sobre o aço e alumínio da Turquia para 50% e 20%, respectivamente, simplesmente para compensar a rápida desvalorização da lira turca frente ao dólar, o que poderia criar situação de competição desleal/injusta em função do fator câmbio.

A desvalorização agressiva da lira turca é reflexo de uma série de problemas macroeconômicos não resolvidos no passado que, neste momento, estão explodindo de uma só vez. Tudo começou com a reeleição do presidente Erdogan no mês de junho, com a promessa de manter a taxa de juros baixa para induzir o crescimento econômico, mesmo aturando uma inflação mais alta.

A taxa básica de juros na Turquia está em 17,75% ao ano, ainda assim descalibrada para combater a inflação crescente que já alcança 15,85% ao ano, a maior desde a crise de 2008. A recente decisão do Banco Central da Turquia, de manter a taxa básica de juros inalterada, em meio ao cenário de forte aceleração da inflação, reforçou a percepção do mercado de falta de independência da autoridade monetária.

Possivelmente a decisão de segurar os juros veio do presidente da Turquia, cumprindo sua promessa de campanha. Erdogan perdeu a confiança do mercado e, consequentemente, os ativos de risco entraram em pânico. A taxa de juros do título de 10 anos se aproxima dos 19% ao ano e a lira turca saltou para 6,41 dólares. A moeda local era negociada na faixa de 3 dólares em 2016. Somente nesta semana, a lira turca perdeu 1,41 dólares, marcando seu pior momento desde a crise de 2008.


Essa é apenas a ponta do iceberg. A economia ainda passa por um período de baixo consumo interno, elevado déficit em conta corrente e carente de investimentos estrangeiros. Além disso, governo, empresas e famílias estão altamente endividados em moeda estrangeira.

Um estudo do Deutsche Bank mostrou que a dívida em moeda estrangeira do governo, setor financeiro e não financeiro da Turquia alcança cerca de 70% do PIB. A agência estatal de notícias Anadolu afirma que a dívida externa é de 466 bilhões de dólares, o que equivale a 53% do PIB. Mesmo que os números da agência estatal estejam corretos (ou fossem mais confiáveis), ainda assim seria uma quantia impagável com a forte desvalorização da moeda local.
  

Não por acaso a delicada situação da Turquia abateu as praças financeiras do mundo inteiro. O endividamento em moeda estrangeira da Turquia é o maior do mundo. É a primeira peça do dominó. Se a Turquia cair (entrar em default), outros países altamente endividados em moeda estrangeira como Hungria, Argentina, Polônia e Chile poderiam seguir pelo mesmo caminho, criando uma crise sistêmica global sem precedentes.

Para piorar, o Instituto de Finanças Internacionais estima que a necessidade de financiamento da Turquia para este ano é de 218 bilhões de dólares, podendo chegar a 240 bilhões de dólares, tanto para cobrir o déficit em conta corrente, quanto para pagar parcelas a vencer da dívida.

Um default na Turquia poderia impactar imediatamente, ou colocar em situação de insolvência, alguns bancos na Espanha, França e Itália. Por este motivo, vazou informação no Financial Times de que o BCE (Banco Central Europeu) está acompanhando de perto a crise na Turquia.

O sistema financeiro europeu provavelmente não suportaria um calote de tamanha proporção por parte dos turcos. Portanto, a crise na Turquia é mais grave do que parece por dois motivos básicos: (i) rápida propagação pelo sistema financeiro e (ii) contaminação em efeito dominó sobre outros países emergentes.

Se a situação começar sair de controle, banqueiros centrais e lideres políticos globais entrarão em ação para impedir um contágio maior no mercado. Já se comenta que a Turquia está sendo pressionada a impor controles de capital e pedir ajuda financeira à Rússia. Por fim, resta uma carta na manga que Erdogan resiste em não queimar: choque de juros para frear o câmbio e acalmar o mercado.

A Turquia não é nenhum cisne negro, pois já vem se arrastando há alguns meses, mas serve para relembrar que o mercado pode criar suas crises da noite para o dia, quando quiser, não por irracionalidade ou crueldade, mas simplesmente por deixar de fazer vista grossa aos problemas econômicos.

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terça-feira, 7 de agosto de 2018

Está aberta a temporada da boataria eleitoral


A terça-feira marcante deste dia 07 de agosto de 2018 abriu a temporada da boataria eleitoral. A praça brasileira amanheceu positiva, com bolsa em alta (voltando a se aproximar dos 82.000 pontos), dólar vendido (testando o piso de curto prazo dos R$ 3,70) e juros futuros colados na mínima do mês.

No cenário externo, o humor seguia positivo, sem nenhuma novidade relevante. Tudo parecia corroborar por mais um dia rotineiro, já que o mercado vem de uma sequência de seis semanas consecutivas de valorização nos preços dos ativos de risco locais.

Entretanto, a partir das 14h15 o cenário passou a mudar drasticamente. Em poucos minutos a bolsa despencou para 79.900 pontos, o dólar disparou para R$ 3,77 e os juros futuros inverteram fortemente o direcional, passando a abrir no intraday. Muitos investidores começaram correr atrás de notícias, pois algo pesado estava impactando o mercado. Foi neste momento que pode ser constatado o início da temporada da boataria eleitoral.

O que parece ter sido o primeiro boato a circular no mercado, talvez o mais forte, está relacionado ao resultado da pesquisa de intenção de voto da CNT/MDA desfavorável ao candidato de centro-direita (queridinho do mercado) Geraldo Alckmin. Os números serão divulgados amanhã e refletem apenas o universo de eleitores do estado de São Paulo. Portanto, se confirmado o boato, um desempenho negativo em seu próprio estado seria um grande revés para Alckmin, que até então vinha numa ascendente na avaliação do mercado, por conta das alianças com os partidos do Centrão (leia-se mais tempo de televisão).

Supostamente para reforçar o viés negativo do primeiro boato, passou a circular um novo boato no mercado sobre a possibilidade de homologação de delação premiada do ex-presidente da Dersa (Desenvolvimento Rodoviário S.A.), Laurence Casagrande Lourenço, contra Alckmin. Há uma investigação em curso da Operação Pedra no Caminho, que mira fraudes em obras do Rodoanel Trecho Norte.

E já que a lógica parecia ser empurrar o mercado para baixo, começaram a circular até mesmo notícias sem lógica, como a possibilidade de o ex-presidente e candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, ser liberado para fazer entrevista pela internet mesmo estando preso. WTF?

Em suma, fato é que o mercado brasileiro passou por forte volatilidade na tarde desta terça-feira e movimentos semelhantes poderão ocorrer nos próximos dias/semanas/meses, até que se defina quem subirá a rampa do Planalto, como se um simples nome fosse um divisor de águas para o nosso futuro.

Com discussões de tão baixo nível, até mesmo no ambiente de mercado, juntamente com uma população viciada no Estado grande, talvez a reforma que estará em jogo no próximo ano não será a da previdência, mas sim a reforma do Teto de Gastos, pronta para ser devorada pelo próximo Congresso se não conseguirmos eleger 308 heróis.

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